sábado, 9 de janeiro de 2016




 
MAÇONARIA- O ESPÍRITO DA CONFRARIA


     Uma ideia que temos defendido desde os nossos primeiros estudos sobre a Ordem maçônica é a de que a maçonaria é um instituto cultural, e como tal sua origem repousa numa ideia, seu desenvolvimento gerou numa prática e essa prática resultou em uma instituição. Na origem dessa ideia está o fato de que as sociedades tendem naturalmente a se estratificar, em razão das diferenças existentes entre os seres humanos que a compõem. As pessoas são diferentes e nas suas diferenças elas procuram se agrupar, buscando em cada ser humano os seus elementos de identidade. Assim, cada grupo desenvolve uma identidade cultural e tende a hospedar nos seus quadros somente elementos que comunguem de suas características específicas. Nascem, dessa forma, as confrarias, que nada mais são que o congraçamento de pessoas que se juntam por comunhão de interesses e necessidade de fortalecimento mútuo do próprio grupo.

     Como ideia, a confraria é tão antiga quanto a socialização do ser humano, pois ela nos remete à necessidade que a sociedade tem de selecionar, entre as pessoas pertencentes a um grupo social em particular, os elementos de escol, e com eles forjar um alicerce estável e firme para a manutenção da sua cultura e das suas conquistas sociais. Existem confrarias de todos os tipos, formadas para os mais diversos objetivos. Desde a mais inocente (ou profana) das práticas, como as confrarias dos colecionadores de selos (filatelistas) ou os amantes do vinho ( enólogos), ás mais ambiciosas, com interesses enraizados nos mais íntimos círculos do poder, a confraria é a mais antiga forma de compartimentalizar e tratar informação, que a sociedade humana conhece.
 
     Todos os povos antigos cultivaram a crença de que os fundamentos da sua cultura social, moral e espiritual deveriam repousar num grupo de elite, no qual se pudesse depositar os fundamentos mais importantes da sua civilização. Daí a constatação histórica da importância das confrarias religiosas da antiguidade, nas quais o poder espiritual (que sempre andou passo a passo com o poder político) se alicerçava e mantinha a identidade cultural desses povos. Situam-se nesse quadro os chamados Antigos Mistérios, institutos religiosos-culturais, nos quais os homens de poder nessas antigas civilizações eram iniciados. No Egito, por exemplo, as confrarias dos Irmãos de Heliópolis fazia o papel das universidades modernas, mantendo e desenvolvendo o saber do povo egípcio, especialmente aquele que era considerado sagrado e não podia ser divulgado ao homem comum. Essa mesma função, entre os gregos antigos era desempenhada pela confraria do Santuário de Elêusis, através dos Mistérios iniciáticos que ali se praticavam. De uma forma diferente, porém com objetivos semelhantes iremos encontrar entre os judeus as confrarias dos essênios, dos saduceus e dos fariseus, umas e outras, em seus tempos de maior influência, detentoras do poder espiritual e político entre aquele povo.


     A formação de grupos de elite, capazes de desenvolver e preservar a cultura grupal, assegurando, dessa forma, o poder do grupo, é uma ideia que seduz a mente dos homens de espírito desde os primeiros tempos da sociedade humana.  Pessoas que comungam de interesses similares buscam naturalmente o agrupamento com seus iguais. Assim, as pessoas associam-se em razão de suas profissões, de seus interesses sociais, de lazer, e até em razão de heranças biológicas ou culturais comuns. Pratica-se a associação até como forma de sobrevivência ou como motivo de fortalecimento do grupo. É dessa forma que nascem as associações sindicais, os partidos, os diversos tipos de clubes, os grupos de interesse, as igrejas etc. Agrupar-se é uma tendência inata do espírito associativo que o homem desenvolveu desde a sua origem.


     Em princípio, a associação é praticada de forma empírica. Começa a partir do momento em que o homem percebe a impossibilidade de viver sozinho em um ambiente que exige a cooperação para a obtenção de melhores resultados. Essas associações são naturais, promovidas pelo interesse do grupo. Mas, a partir de certo momento, na vida prática do grupo, verifica-se a necessidade de uma organização. É que para a manutenção e a extensão do poder conquistado não basta a mera convergência de interesses. É preciso que haja uma estrutura, um plano de trabalho, um direcionamento, sem os quais o movimento se dispersa. Nasce, dessa forma, a instituição.


     Como organização formalmente reconhecida a Maçonaria nasceu em 1723 com a publicação das Constituições, livro escrito pelo pastor anglicano James Anderson. Foi a partir dessa data que uma instituição com esse nome e com essa identidade deu entrada na história das realizações humanas. Em tempos anteriores a essa providência, a Maçonaria pode ser vista como uma prática para religiosa, cultivada entre os profissionais de construção civil, que para preservar e defender seus interesses a transformaram numa prática iniciática de caráter místico, semelhante às doutrinas gnósticas muito em voga na Europa após o advento das cruzadas. Com o desencadear das guerras religiosas, e a grande repressão que a Igreja e os príncipes católicos moveram aos defensores da liberdade de pensamento, os praticantes dessas doutrinas se juntaram aos antigos pedreiros livres e fundaram diversos núcleos de pensamento místico-liberais, que deram origem às Lojas maçônicas, como hoje as conhecemos.


     Portanto, podemos dizer que a Maçonaria, como ideia, é tão antiga quando a presença do homem na face da terra; como prática ela é contemporânea das primeiras civilizações, e como instituição é uma criação dos maçons ingleses, que em 1723, lhe deram a devida formalização como Entidade cultural. Hoje a Maçonaria é uma instituição mundialmente reconhecida e é tem adeptos em praticamente todos os países da terra. Embora não seja formalmente reconhecido o seu caráter religioso, e ela mesma não postule esse reconhecimento, não se pode negar que a Maçonaria se assemelhe a uma religião.  Mais que isso porém, ela é uma Confraria de homens livres, que se unem pela prática da virtude, o amor á beleza e o zelo pelas causas nobres, que constituem o alicerce de uma sociedade sadia.




 

AUTOR: João Anatalino

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