sexta-feira, 18 de agosto de 2017


Veneráveis e Veneralatos

Tal como o Rui Bandeira sabiamente explanou nos seus últimos dois textos e que se reportavam à vida interna das Lojas maçônicas, também é de fulcral relevância salientar o contributo que os Veneráveis Mestres (VM) (“presidentes da Loja”)  têm em relação à vida interna destas Lojas.

 

A própria dinâmica da Loja depende grande parte da dinâmica imprimida pelo seu Venerável Mestre bem como pela sua forma de gerir os “destinos” da Loja.

 

Uma larga maioria não consegue separar –  e isto não é crítica sequer – o mundo profano do mundo iniciático, ou seja, por defeito profissional, muitos nas suas vidas laborais gerem e dirigem pessoas, logo tenderão a agir na Maçonaria da mesma forma que o fazem no mundo profano. Sendo também, por isso mesmo, mais fácil para estes tomar a seu cargo os destinos de uma Loja e a gerir o que lá se passa no seu interior. Mas não releguemos também que a sua forma de agir e estar perante a Sociedade, a sua Educação e Formação Acadêmica também auxiliam e muito o seu (bom!) desempenho, nomeadamente na forma de lidar com a Loja e os seus membros.

 

Não existem manuais de sobrevivência para um “VM”, existirão sim pequenos guias ou opúsculos que algumas Lojas ou Obediências tenham escrito para facilitarem um pouco a vida de quem durante um ano (em média) terá a responsabilidade de gerir a Loja, mas o essencial para a gestão da Loja será a sua vivência e praxis maçônica. Sendo que uns serão mais “ritualistas” e outros mais “administrativos” no cumprimento das suas funções.

 

– Cada um como cada qual… –

 

Mas não obstante, esta diferenciação da forma de gerir e de estar, pois a cada identidade corresponderá uma forma de gerir, permite a vantagem mesmo que uma Loja tenha uma prática de trabalho homogênea, esta será sempre um pouco diferente de ano para ano, possibilitando aos seus membros não ficarem reféns de um certo marasmo que não lhes possibilite evoluir, seja maçônicamente quer pessoalmente.

 

Outra das vantagens que diferentes abordagens ou estilos de gestão permite, é que pelo facto de a presidência da Loja ser quase sempre anual e dependente de sufrágio pelos Mestres que compõem a assembleia da Loja,  impedirá, por certo(!), determinadas formas gestionais de cariz ditatorial prolongadas no tempo; resultando que se um dado “VM” desempenhar mal ou de forma nefasta o seu cargo, a Loja somente terá de o “aturar”  um ano – ou menos ! -, mas possibilitando a alguém que desempenhou um bom ofício, que soube conviver bem com as responsabilidades que lhe estavam inerentes, e que num bom português eu possa dizer que tenha levado a Loja a “bom porto”, deixando saudades e inclusive “fazendo escola”, criando assim alguns seguidores que queiram prosseguir nessa forma de (bem) gerir.

 

– E cada Loja é uma Loja, tal como cada maçom é diferente do seu semelhante -.

 

Cada Loja tem a sua identidade própria, podendo ser parecida ou não com as outras de uma mesma Obediência, até porque cada Loja é formada por gente que também pode ser diferente entre si. A heterogenia dos seus membros é uma das grandes qualidades que a Ordem Maçônica se pode orgulhar e enaltecer.

 

Mas por outro lado, e porque nem tudo “são rosas…”, nem sempre corre tudo bem ou como deveria ocorrer, dado existirem, por vezes, Lojas que não deveriam estar sequer em funcionamento dado que o que se passa no seu seio ser tudo menos maçônico, e quase sempre com a conivência do seu “VM”. – mesmo que ele não seja o responsável por tais atos, a Loja depende dele e ele será sempre a pessoa que dará a cara pela Loja! – E por causa disto é que um “VM” tem de ter características naturais de um Homem bom, Livre e com bons costumes,  – soa a “beato” mas é assim que tem de ser – para que tais situações menos nobres não ofusquem a Luz que deve resultar da Maçonaria e emanar na sociedade à sua volta.

 

Ser “VM” não é tarefa fácil, não é “bater malhete” como se queira… Existem determinadas regras a cumprir e a fazer por cumprir!

 

Logo, ser investido nas funções de Venerável Mestre não poder ser encarado de forma singela, mas antes como uma demanda tanto pessoal como coletiva. Pessoal porque tal é desempenhado através de um labor próprio e que depende intrinsecamente de si mesmo, e coletivo porque é feito a bem da Loja e da Obediência em geral.

 

Não é fácil esta tarefa, tal como salientei. E uma parte importante deste trabalho também e que não pode ser esquecida é o apoio que os obreiros da Loja dão ao seu “VM”, auxiliando-o na condução dos “trabalhos”, promovendo iniciativas em prol da Loja, produzindo Trabalhos/Pranchas  e debatendo respeitosamente a vida interna da Loja.

 

Apenas uma Loja com obreiros ativos e cujo “VM” seja alguém que possibilite a troca de ideias efetivas, terá um bom prenúncio na sua existência, pois as boas decisões nunca estão sozinhas e muitas das vezes para serem corretamente aplicadas dependerão daqueles que, por sinal, as terão de cumprir…

 

E por isto que anteriormente afirmei é que considero que uma Loja não é do seu Venerável Mestre, mas sim, que o Venerável Mestre é que é da Loja!

 

E quem não interiorizar isto, ou não sabe ao que se propõe ou não estará bem na Maçonaria…

 

Mas nem sempre quem já foi “VM” quis despir o seu cargo, isto é, são mestres que embora já não detenham essas funções, mas que mesmo assim desejam e insistem em o a continuar a o ser… Obstaculizando de forma premente o trabalho que o “VM” em exercício possa fazer. Condicionando este com atitudes ou ideias suas e acicatando os demais obreiros contra o desempenho do seu “VM”; considerando eu isto como uma forma de rebelião que não deveria ter lugar num espaço onde a fraternidade deveria ser um dos seus pilares fundamentais.

 

Mas pior que isto, serão aqueles que nunca cumpriram tal ofício mas que acham que o desempenharam ou que detêm o direito de o vir a ocupar de forma unilateral, condicionando ativamente o desempenho que o “VM” deverá levar a seu cargo…

 

Enfim, há de tudo um pouco…infelizmente!

 

Até existem aqueles, sendo mestres ou não, que se acham a “voz da razão” e assim se acharem os “donos da Loja”, bloqueando tudo (ou quase…) aquilo a que se propusera a fazer o seu “VM”. E esta forma de inquinar uma Loja não deveria ser aceite pelos seus membros e muito menos ser feita com a complacência de um “VM”, pois foi ele o eleito para a direção da Loja e mais ninguém.

 

Uma coisa é um “VM”  aconselhar-se, outra diferente, é deixar outros executarem o seu trabalho.

 

E é por isto que amíude existem cisões e/ou “abatimentos de colunas” de Lojas com “adormecimentos” ou transferências de membros para outras Lojas, porque já não é possível a convivência entre si. Deixando eu à reflexão para os demais esta situação que é deveras importante para a sobrevivência de uma Loja.

Um “VM” que saiba desempenhar bem o seu cargo nunca permitirá que aconteça o que eu referi e saberá, ou pelo menos tentará, gerir os egos e diferenças de opinião que existem no seio da sua Loja. Essa sim, será talvez a maior dificuldade que poderá encontrar durante o seu veneralato, pois as questões rituais ou administrativas, quando não são graves, são facilmente tratadas ou ultrapassadas. E regra geral são as Admissões de profanos com as suas Iniciações, os “aumentos de salários/graus“, gestão corrente da tesouraria da Loja e pouco mais. Aqui sim, um “VM” pode pelas suas qualidades pessoais fazer diferente dos restantes que passam por essa função; a tal “dinâmica” que abordei.

 

Felizmente que a Respeitável Loja a que pertencem os Mestres “escritores” neste blogue conta nas suas colunas com gente com conhecimentos suficientes para fazer prosperar a Loja.

 

Apoiando-se nos seus membros mais antigos que com a sua experiência e sabedoria corrigem qualquer “desvio administrativo” ou erro ritual que possa surgir, bem como nos seus membros mais recentes, gente pronta a “arregaçar as mangas” e por-se a trabalhar, assim os deixem.


É somente devido a esta conflexão de “ideias e vontades”, convergindo numa ação perseverante e regular, é que uma Loja tem um bom futuro assegurado.

 

Não basta viver à sombra de feitos do passado, e esta Loja os tem feito; há que criar sempre novas dinâmicas e formas de gerir e a Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues nº5 conta já no seu historial de mais de 25 anos de trabalho ininterrupto com gente capaz de o fazer por mais 25 anos e até mais… E gente que pela sua forma de estar, pela sua sensibilidade pessoal  e apoiada nos vastos conhecimentos de alguns dos seus Irmãos, podem ser “herdeiros naturais” da linha de sucessão criada à vários anos  na Loja e que ainda hoje em dia se utilliza.

 

E concluindo um texto que já vai longo, um Venerável Mestre como sendo alguém com a responsabilidade da gestão anual da Loja, nunca poderá pensar a curto prazo, apenas na gestão corrente, mas sempre com um pensamento a médio/longo prazo, para que a Loja não divirja nos seus destinos, não se preocupando em deixar um “legado pessoal” mas sim, algo sustentado pelo tempo. E por isso mesmo, deve ser alguém com vontade de trabalhar e com “espírito diligente” e rigoroso, sendo meticuloso e disciplinado no que faz, devendo ser o melhor “relações públicas” da sua Loja, pois ele é que dará a cara por ela; não devendo ter um perfil autocrático, mas antes um elevado sentido fraterno.

 

Em suma, ser alguém que goste de trabalhar e que o faça pelos outros, não esperando qualquer tipo de encómios à sua pessoa.

 

– Somente tendo uma postura humilde perante os seus pares, pode um “VM” ser exaltado pelos demais, e isto se assim o tiver de ser… –

 

Para além disso, terá de ser alguém capaz de estabelecer pontes entre os Irmãos que tenham divergências ou contendas entre si, sendo um bom ouvinte e confidente, para além de ter a capacidade em aconselhar os obreiros naquilo que necessitem do seu “VM”, e que saiba agir com a “parcimônia” necessária ao seu cargo, sem impulsos ou afins… pois terá de ter a ponderação necessária a cada decisão que tenha de tomar ou que venha a ter de aplicar em relação às funções a si designadas como representante da Loja na Obediência onde esta se encontra filiada. E chegando ao final do seu veneralato, ter a capacidade de fazer um auto exame de consciência e refletir no que se propôs a fazer, no que fez e no que poderia ter feito e extrair de aí as suas próprias conclusões, por forma a que quando se sentar no Oriente ao lado do próximo “VM”, poder ser ele, também, uma “voz” de e em auxilio a este, porque a função de Past-Venerável ou Mestre Instalado não é mais que isso, uma voz em auxilio do novo Venerável Mestre.

 

E como “VM” reconhecer que recebeu a Loja com um determinado funcionamento, em determinado momento, e que entregou ao seu substituto na “cadeira de Salomão” uma Loja que deverá ser mais coesa e mais forte do que aquela que terá recebido do seu antecessor, – esta é a sua obrigação! – o que nem sempre é simples de ser feito.

 

Não deixando nunca de ter sempre presente a noção de que por qual forma pretenderá  ser (re)conhecido no final do seu ano de trabalho, se por ter sido “Venerável” ou pelo seu “Veneralato”…

 

Fonte: http://a-partir-pedra.blogspot.com.br/

 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017


A RESPONSABILIDADE DO MAÇOM

À Glória do G.’.A.’.D.’.U.’.!


É cediço que as últimas décadas foram palco de consideráveis avanços científicos e tecnológicos, inclusive com o fenômeno da globalização que literalmente derribou fronteiras. Tal fenômeno acabou por influenciar a economia e a vida de todo o planeta, principalmente pela celeridade da circulação de informações de toda espécie.


No entanto, em que pese a propagação do conhecimento, tem-se debatido a respeito da degradação que a sociedade hodierna está sofrendo, principalmente no que tange as instituições que tradicionalmente a sustentaram.


A família deixou de ser o ponto de referência dos indivíduos, pois sucumbiu ao egoísmo exacerbado. As virtudes inerentes ao bom caráter passaram a ter conotação antiquada, quiçá, jocosa. A aparência prepondera sobre a essência.


É justamente neste emaranhado de contradições e superficialidades que seletos homens são chamados para compor as fileiras de uma instituição secular – a Maçonaria –, “para combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros; glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade. Para promover o bem da Pátria e da Humanidade, levantando Templos à Virtude e cavando masmorras ao vício”. 1

Assim, o profano ao ser iniciado nasce para vida maçônica cabendo-lhe inúmeras responsabilidades que, para os fins que se destina o presente trabalho, limitar-se-á a estudá-las sob os três aspectos mais importantes: moral, social e institucional.


MORAL


Não é o objetivo se ater a divagações filosóficas com relação a moral2 ou a ética, pois não se entende necessárias à compreensão do tema, vez que o senso comum, que possui todo homo medius, é suficiente para que o maçom entenda a dimensão da responsabilidade que lhe cabe.


Obviamente, o estudo da moral não pode se limitar a um ponto de vista meramente subjetivo, mas, sobretudo, sob seu aspecto pragmático. Neste último é que o Maçom deve se prender, pois de nada adiante estudar as instruções e complementos, que estão repletos de exortações à boa conduta, se não colocá-las em prática. Portanto, a conduta do maçom é a razão de ser da moral maçônica.
Destarte, o objetivo da Instituição Maçônica é a construção e o aperfeiçoamento ininterrupto da sociedade que, para tal, necessita de seus pedreiros afim de que executem este árduo trabalho. Neste sentido dispõe a Constituição da Grande Loja de Santa Catarina, em seus Postulados:


(…) a Maçonaria é uma instituição nascida para combater, com a persuasão e a força moral do bom exemplo, tudo que atente contra a Razão e o Espírito de Fraternidade Universal. Nesta força moral, que só se adquire pela Virtude, única proclamada como legítima, consagrada pela consciência dos povos nos códigos das nações, como agente supremo do poder soberano, concentra a Maçonaria toda a sua glória e a ela deve os grandes triunfos que, com tanta justiça, a têm colocado como a primeira à frente das grandes instituições nascidas do amor à Humanidade e do interesse pelo bem-estar dos povos. Ciência do progresso moral, a Maçonaria resume sua ação social nos atributos da inteligência e do coração – Luz e Verdade, Amor e Filantropia.3


Por sua vez, o artigo escrito pelo Ir.’.Luiz Gonzaga Rocha aborda com sucinta precisão a razão de se ter verdadeiros maçons na sociedade:
Curvo-me à ideia de que a busca da perfeição e da existência de um mundo melhor, dirigido por homens iniciados e/ou iluminados, pode muito bem representar uma utopia, mas sendo este o plano de evolução social, cultural e política da Maçonaria, e sendo esse entendimento no sentido de que os maçons assumam os destinos das sociedades, aos maçons impõe-se, antes e depois de toda e qualquer consideração, serem conhecedores e partícipes desse ideal, e, para tanto, requer-se que sejam incorruptíveis, instruídos, livres pensadores e excelentes formadores de opiniões, verdadeiros construtores sociais e instrumento adequado para efetivar as transformações sociais requeridas; e, ainda, sejam capazes de aperfeiçoar-se, de instruir-se e disciplinar-se constantemente na Arte Real, sem prejuízo da conveniência de conviverem harmoniosamente com centenas de milhares de seres díspares, e que possam, a despeito de todas as dificuldades, ser destacados por palavras, obras e exemplos de vida, e sobremodo, que ostentem, sem envergonhamento, o lema mais sagrado da Ordem Maçônica: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.4
Desta forma, o maçom não foi escolhido apenas para aumentar número de uma determinada loja ou da Instituição no seu sentido universal; não pode se limitar ao simples recitar dos manuais, como se a obra que lhe cabe pudesse ser realizada por qualquer tipo de força transcendental que, através da simples repetição de palavras durante os rituais, alguma força cósmica cumpra o papel que lhe cabe junto à sociedade.


Em que pese a Maçonaria Operativa ter dado azo à Especulativa, a obra do pedreiro ainda continua sendo manual. Obviamente que o aperfeiçoamento intelectual é necessário e, mais que isso, é exigido, mas não é um fim em si mesmo, pois tem por escopo a sua utilização para o bem da humanidade, que de maneira nenhuma poderá ser limitado ao mundo das ideias, mas externado através de atitudes. Ora, “(…) não é para que fujamos da ciência do Bem, mas para que possamos pô-la em prática no meio social. Assim devem os maçons lutar para poder vencer”.5


Não é à toa que o maçom utiliza um avental durante as sessões, “porque ele nos lembra que o homem nasceu para o trabalho e que todo o maçom deve trabalhar incessantemente para descoberta da Verdade e para o aperfeiçoamento da Humanidade”.6 Nem, tampouco, os instrumentos utilizados pelos antigos maçons operativos foram incorporados sem razão aparente, mas:
Por serem instrumentos imprescindíveis às construções sólidas e duráveis, eles nos recordam o papel de construtor social que compete a todos os Maçons e, ao mesmo tempo, nos traçam as normas pelas quais devemos pautar nossa conduta: o Esquadro, para a retidão; o Compasso, para a justa medida; o Nível e o Prumo, para a Igualdade e a Justiça que devemos a nossos semelhantes.7
No telhamento para elevação de Aprendiz a Companheiro se pergunta de que maneira os maçons são reconhecidos e, a seguir, responde que por sinais, toques e palavras. Ora, tais respostas se limitam ao conhecimento mínimo que um Aprendiz-Maçom deve ter para visitar uma Loja Maçônica, pois, na realidade, um verdadeiro maçom deveria ser reconhecido primeiramente pelo seu caráter, equilíbrio, comportamento, probidade, caridade, humildade, em suma, pela sua conduta. Obviamente, que se considera que tais exigências não são inatas ao ser humano, devendo, portanto, o aprendiz utilizar o Maço e o Cinzel a fim de desbastar sua Pedra Bruta.


Talvez, o grande segredo para a realização da missão maçônica não esteja no aumento de suas fileiras, mas na utilização simbólica dos instrumentos de trabalho dos antigos maçons operativos, a fim de que todo o cabedal de conhecimento adquirido com o passar dos séculos não se limite elaboração de teorias e elucubrações, mas extrapolem as lojas e contagiem o mundo.


SOCIAL


Assim como no tópico anterior, a Maçonaria está repleta de ensinamentos que objetivam aguçar a sensibilidade de seus membros às necessidades da sociedade. Da mesma forma, são várias as alegorias que simbolizam virtudes que implicam na responsabilidade social que deve ser cultivada e praticada no cotidiano.
No painel do Aprendiz-Maçom, vê-se na Escada de Jacó a taça que tem, entre outros significados, o da caridade. Nota-se, também, na Abóbada Celeste da loja, a Estrela Flamejante que:


(…) representa a principal Luz da Loja. Simboliza o Sol, Glória do CRIADOR, e nos dá o exemplo da maior e da melhor virtude que deve encher o coração do Maçom: a CARIDADE.


Espalhando luz e calor (ensino e conforto) por toda parte onde atingem seus raios vivificantes, o Sol nos ensina a praticar o Bem, não em um círculo restrito de amigos ou
de afeiçoados, mas a todos aqueles que necessitam e até onde nossa caridade possa alcançar.8


Neste sentido, a caridade é somente uma das facetas de intervenção social que o maçom deve cultivar no seu meio, mas poder-se-ia enumerar várias outras possibilidades que não se adequariam ao fito desta peça. No entanto, é oportuno se ressaltar o ideal de fraternidade, que juntamente com a liberdade e igualdade, forma uma das mais importantes tríades maçônicas; e, ainda, quanto aos elementos decorativos da Loja, o pavimento mosaico e a própria orla dentada, que lembram a necessidade de harmonia entre as diferenças e que o amor e a união devem começar no meio maçônico e se propagarem para toda a humanidade.

A bandeira da fraternidade foi abraçada pela Maçonaria e, através de seus diletos filhos, espalhou-se por toda cultura ocidental, influenciando não só revoluções, mas até mesmo boa parte dos estados modernos ocidentais, que a recepcionaram em seu ordenamento jurídico constitucional como o princípio da solidariedade.
Assim, é imputado ao maçom não só o dever da boa conduta, mas também que trabalhe, transforme, intervenha na sociedade na medida de suas possibilidades, a fim de cumprir o seu papel de construtor social.


INSTITUCIONAL


Realmente, o fardo que Maçonaria atribui aos seus membros é deveras pesado, vez que além de exigir uma conduta baseada na retidão de caráter e um papel ativo junto aos seus semelhantes, incube-lhes a instrução dos neófitos e a responsabilidade pela manutenção de si mesma.


Felizmente, apesar das críticas de certas religiões, que se limitam ao plano espiritual, a Maçonaria goza de elevadíssima reputação. Tal fato, deve-se aos inúmeros trabalhos de caridade que faz, aos grandes irmãos que no passado fizeram história e, principalmente, pela relevante contribuição aos ideais democráticos.
Desta feita, a responsabilidade do maçom é imensa, pois lhe cabe manter ilibada a estampa da Maçonaria, justamente numa época contraditória e desvirtuada, sucumbida pela indiferença e pela amoralidade.
Por outro lado, ao irmão recém iniciado deve ser dispensado todo o cuidado e apreço, a fim de que desde cedo possa compreender a importância de seu juramento, e as responsabilidades que tal ato acarretam.


Por este plano, entende-se de fundamental importância à realização esmerada dos trabalhos em loja, para que aquele possa atribuir a seriedade que é devida ao ritual praticado e, também, compreender mais profundamente o seu significado. Além disto, considera-se de vital importância à infância maçônica o apoio, o exemplo e a sensibilidade dos irmãos mais antigos.


O primeiro, pode-se representar pelo incentivo ao estudo e ao aprendizado, o segundo, pela referência de homem maçom a quem o neófito pode sempre se espelhar e, a última, pela percepção em detectar as dificuldades que certamente surgirão e, evitar, na medida do possível, expor as leviandades e rixas existentes na Instituição, por força da falta de controle das paixões humanas.


CONCLUSÃO


Conclui-se, portanto, que o exercício da vida maçônica não pode se limitar à loja e ao crescimento intelectual, pois, além de tantas outras responsabilidades, o maçom deve primar pela boa conduta a fim de que seja um referencial para uma sociedade desmoralizada; ter atitudes efetivas que reflitam o papel de construtor que lhe cabe; e zelar pela integridade da Instituição e sua prosperidade.


No entanto, não cabe à Maçonaria mensurar a responsabilidade de seus membros, pois, apesar da referida construção requerer necessariamente uma intervenção direta, recai na seara subjetiva da capacidade de que cada um é provido. Assim, a lição extraída da Bíblia indica exatamente a extensão da responsabilidade de cada maçom: “(…) Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido; e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão”. 9

 

1 GLSC. Ritual do Aprendiz Maçom. REAA, Florianópolis, 1998, p. 48.
2 1.Filos. Conjunto de regras de conduta consideradas como válidas, quer de modo absoluto para qualquer tempo ou lugar, quer para grupo ou pessoa determinada. (Aurélio)
3 GLSC. Constituição. Florianópolis: 2000, p.l 8
4 Rocha, Luiz Gonzaga. Maçom e Maçonaria. Revista O Prumo n. 161. Florianópolis: 2005, p. 7.
5 GLSC. Instrução Preliminar Aprendiz-Maçom. Florianópolis: 2003, p. 21.
6GLSC. 2ª Instrução Aprendiz-Maçom. Florianópolis: 2003, p. 11.
7 Apud, p. 14.
8 GLSC. 1ª Instrução Aprendiz-Maçom. Florianópolis: 2003, p. 12.
9 BÍBLIA Anotada – Traduzida em português por João Ferreira de Almeida. ed. rev. e atual. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.

 

Fonte: JB News

 

quarta-feira, 16 de agosto de 2017


VIRTUDES MAÇÔNICAS



Maçonaria vem provavelmente do francês “Maçonnerie”, que significa uma construção feita por um pedreiro,  o “maçon”. A Maçonaria terá assim, como objetivo essencial, a construção. A Maçonaria promove a transformação do ser humano e das sociedades em que vive, através da fraternidade, solidariedade e da justiça.


Para ser iniciado, o Maçom deve ter profissão honesta que lhe assegure meios de subsistência, ser ético, ter condições morais e intelectuais e instrução necessária para compreender os objetivos da Ordem Maçônica. A Maçonaria honra igualmente o trabalho manual e o trabalho intelectual, e crê na existência do Grande Arquiteto Do Universo, Deus. 

O Maçom deve ser escolhido para ser Iniciado, pelas razões acima descritas, e não por motivos profissionais, familiares ou de amizade, e sim por ser o profano reconhecido Maçom em sua essência, encontrando nele virtudes maçônicas.

Mas o que o busca Maçom? Ele busca o aperfeiçoamento intelectual, o afinamento das faculdades de pensar e de enriquecimento dos conhecimentos adquiridos, para que tenham o domínio do saber necessário, para se comportarem de forma digna em todos os momentos, sejam eles profanos ou maçônicos, pois é mais fácil sucumbir ao vício, que aprimorar a virtude.

A tolerância é das virtudes maçônicas, a mais enfatizadas, pois significa a tendência de admitir modos de pensar, ser, agir e sentir que diferem as pessoas e nos fazem indivíduos únicos. Muitas vezes confundimos tolerância com conivência.

A tolerância é a habilidade de conviver, com respeito e liberdade, com valores, conceitos e situações. Deus é tolerante com o pecador, mas não com o pecado.

Outra virtude é a Ética, que por definição é um conjunto de princípios e valores que guiam e orientam as relações humanas. É uma espécie de cimento na construção da sociedade. O forte sentimento de fraternidade designa o parentesco de irmão, do amor ao próximo, da harmonia, da boa amizade e da união, de tal forma a prevalecer a harmonia e reinar a paz. 

A justiça é a virtude de dar a cada um aquilo que é seu, julgar segundo o direito e a melhor consciência. Para que se possa evitar o despotismo, o arbítrio e manter a liberdade e o direito. A Maçonaria é uma sociedade que luta pelo Direito, pela liberdade e pela justiça, por isto todo Maçom deve ser um defensor incansável destes valores.

Estamos vivendo uma época em que há uma falta aguda, de um valor fundamental em todo o mundo: a caridade. Ela é o amor que move a busca afetiva do bem de outro. Ninguém precisa de nada a não ser seu coração para saber o que machucam os outros.

Jamais subestime o sofrimento alheio. Seu julgamento poderá lhe falhar, seu conhecimento, sua experiência e sua inteligência poderão ser inúteis diante do mal, que torcerá fatos, palavras e aparências. Até o branco pode parecer preto e o preto parecer branco. Decida com caridade e toda essa farsa se dissipará sob o brilho de uma alma integra.

A Maçonaria é uma instituição fundamentalmente ética, onde a reflexão filosófica sobre a moralidade, regras, códigos morais que orientam a conduta humana; que tem por objetivo a elaboração de um sistema de valores e o estabelecimento de princípios normativos da conduta humana, impondo ao Maçom um comportamento ético e, exigindo-lhe que mantenha sempre uma postura compatível com um homem de bem. 

Pelo exposto, o Maçom quer conhecimento, evolução, fraternidade, justiça e liberdade. A elevação de Grau é uma simples consequência desta incessante busca pelo aperfeiçoamento da pedra bruta e não o objetivo. Estas são apenas algumas virtudes maçônicas a serem lapidadas. 

O egoísmo é a fonte de todos os vícios, assim como a fraternidade é a fonte de todas as virtudes. Destruir um e desenvolver o outro: esse deve ser o objetivo de todos os Maçons. Sem ação nada pode ser feito. 

Quem é bom, é livre, ainda que seja escravo. Quem é mau, é escravo, ainda que livre.” – Santo Agostinho.

Irmão Wellington Oliveira, M:.M:

 

Fonte: https://focoartereal.blogspot.com.br/

terça-feira, 15 de agosto de 2017


Vícios e Virtudes na Visão Maçônica

 

 

Introdução

Durante o ritual de Iniciação, o Venerável Mestre pergunta ao iniciando:

“Senhor, que entendeis por Virtude?“

“Senhor, que pensais ser o Vício?” 

Após, dadas as devidas respostas e definições, o Venerável Mestre deixa a decisão e escolha ao livre arbítrio do profano ao lhe perguntar:

“Senhor, preferis seguir o caminho da Virtude ou do Vício?”

Meus Irmãos, se aqui estamos todos, é porque escolhemos o caminho da Virtude e renegamos o caminho dos Vícios.

Mas, o que, mais profundamente, são vícios e são virtudes? Como eles afetam as nossas vidas e nossos relacionamentos? Por que eles existem? Como eles aparecem e se manifestam?

Procurando buscar estas respostas e entender o mecanismo de aparecimento desses vícios e virtudes em nossas vidas, é que pensamos em elaborar este trabalho que é sintético, visto que a complexidade do assunto requereria mais tempo de pesquisa, consulta aos especialistas e mais tempo de exposição. Para tal, buscamos respaldo na Filosofia, Teologia e na Psicologia para melhor entender estes mecanismos.

História / Filosofia

Somos seres relacionais, estamos sempre relacionando com os outros. Este ato relacional sempre foi motivo de preocupação e estudos de legisladores e pesquisadores, uma vez que ele estabelece a harmonia e o equilíbrio do grupo e da sociedade. E nós, meus Irmãos, sabemos muito bem que para a construção deste ser social é necessário desbastarmos as asperezas e arestas representados pelos nossos vícios e aspirarmos às virtudes, caminho que escolhemos para esta construção social.

O estudo das virtudes se iniciou com Sócrates, na Grécia antiga… Para ele, a virtude é o fim, o objetivo da atividade humana e se identifica com o bem que convém à natureza humana.

Platão, também na Grécia antiga, desenvolveu a doutrina de Sócrates e apresentou a virtude como o meio para atingir as bem-aventuranças. Foi ele que descreveu as quatro virtudes Cardeais: a Sabedoria, a Fortaleza, a Temperança e a Justiça.

Aristóteles, sempre na antiga Grécia, ensinou que as virtudes não são hábitos do intelecto, mas sim, da vontade. Para ele, não existem virtudes inatas, mas todas se adquirem pela repetição dos atos, que gera o costume (mos ou more) gerando o nome virtude moral. O homem atormentado pelo vício perde de vista seu fim moral.

A filosofia de Aristóteles é a que melhor trabalha a questão dos vícios e virtudes, pois ele sustenta que todos os atos do homem têm consequências e essas consequências têm que ser pensadas. Conforme ele, no tocante à ética, toda ação humana tende a um fim, que é fazer o bem. O homem deve aperfeiçoar-se naquilo que o distingue de todas as outras criaturas: a razão. Para Aristóteles, a virtude deve ser o ponto de partida das ações para se fazer o bem. Ele reforça a virtude moral como sendo aquela que guia nosso comportamento e nossos relacionamentos, sendo, portanto, uma virtude relacional.

Tornamos-nos justos praticando atos justos e para a prática destes atos justos, Aristóteles nos indica o caminho da “moderação”, sinônimo de “prudência ” e mesmo de “sabedoria”, a primeira das quatro virtudes cardeais. Moderação, porque, toda virtude, toda ação, todo sentimento ou conduta que praticamos, sendo deficiente (falta) ou excessiva (excesso) pode tornar-se um vício. Há vícios por falta e vícios por excesso. Também sentimentos e paixões tendem à falta (deficiência) ou ao excesso. A virtude é a moderação. Entre os extremos, situa-se a virtude num justo meio.

A questão levantada por Aristóteles é: qual é este justo meio? Por isto a Prudência tem um papel importante. Há uma relação de algumas virtudes e seus vícios decorrentes das deficiências (falta) ou excessos. Por exemplo:

 VÍCIOS POR DEFICIÊNCIA
VIRTUDES
VÍCIOS POR EXCESSO
covardia
coragem
temeridade
insensibilidade
temperança
libertinagem
avareza
liberalidade
esbanjamento
modéstia
respeito próprio
vaidade
desavergonhado
modéstia
timidez
moleza
prudência
covardia
rusticidade
agudez de espírito
zombaria

Aristóteles preconizava a Prudência como qualidade que devem ter todos os chefes de família e todos os homens de Estado. Para ele, a Prudência é uma qualidade que, quando guiada pela verdade e pela razão determina nossa conduta sobre as coisas que podem ser boas para o homem.

Teologia

São Tomaz de Aquino, em sua Suma Teológica, reafirma a colocação de Aristóteles, ao dizer que a Prudência é uma virtude especial, distinta das demais, regendo todas as outras virtudes. Enquanto para Aristóteles as quatro virtudes cardeais são frutos do esforço humano, a elas os teólogos acrescentaram outra três virtudes, ditas teologais, que não originam do homem, mas são concedidas a ele como dom de Deus. Vamos rapidamente repassar estas virtudes, seus significados e suas representações nas artes.

Virtudes Cardeais

§  Prudência (Sabedoria): dispõe a razão para discernir em todas as circunstâncias o verdadeiro bem e escolher os justos meios para o atingir. Todas as outras virtudes devem ser reguladas por ela. É representada pela imagem refletida no espelho, simbolizando o homem prudente que pondera e reflete antes de agir. Modernamente tem significado “cautela”;

§  Fortaleza: assegura a firmeza de superar adversidades e de não retroceder, bem como a constância na procura do bem. Por isto, “a Paciência”, é uma virtude subordinada à Fortaleza e consiste na capacidade constante de suportar adversidades. É representada pelo Leão;

§  Temperança: virtude que consiste no constante aperfeiçoar da potencialidade sensitiva de modo a conseguir equilibrar, colocar sob limites, moderar a atração dos prazeres, assegurando o domínio da razão sobre os instintos e propiciar o equilíbrio no uso dos bens. Serve, por exemplo, para controlar a gula;

§  Justiça: consiste na atribuição, na equidade, no considerar e respeitar o direito e o valor que são devidos a alguém ou alguma coisa. É a constante e firme vontade de dar ao outro o que lhe é devido. É representada por uma estátua de Sofia, a Sabedoria, com os olhos vendados, representando a imparcialidade, e a espada, símbolo do poder que dispõe para exercê-la. Nalgumas representações há também uma balança, representando o equilíbrio, e a ponderação entre partes em litígio.

Virtudes Teologais

§  : é o consentimento do intelecto que crê, com constância e clareza, em alguma coisa. Não se geste a fé dentro de si. Ou a tem, ou não. A fé é uma crença acompanhada de ações que dão testemunho de suas convicções. É representada pela cor branca;

§  Esperança: é a expectativa, a espera de algo superior e perfeito. Não é um produto de nossas vontades, mas sim de uma espontaneidade que se manifesta nos corações daqueles que têm fé. É representada pela cor verde;

§  Caridade: é a mãe de todas as virtudes. É a raiz de todas as virtudes, pois ela a bondade suprema para consigo mesmo e para com os outros. A caridade supera nossa natureza, pois graças a ela o homem avança além de si mesmo, além de suas exigências biológicas. A caridade é representada pela cor roxa.

“Qual a mais meritória de todas as virtudes?” Perguntam a Allan Kardec. E ele responde:

“É aquela que se baseia na caridade mais desinteressada”.

O apóstolo Paulo, ao descrever o arco-íris do Amor, nos adverte: “permanecem a fé, a esperança e a caridade. Destas, no entanto, a caridade é a maior.

Da mesma forma que os teólogos estudaram as virtudes, eles também se ocuparam de catalogar os vícios. Um monge da Idade Média, preocupado com as tentações da alma humana, catalogou os vícios em número de oito. O Papa Gregório Magno as reclassificou em número de sete, para que pudessem ser a contraposição das sete virtudes, e as chamou de “sete pecados capitais”, assim chamados, pois geram outros vícios. Estes pecados ou vícios são, portanto, uma interpretação dos cristãos da Idade Média feita a partir da Bíblia, já que não fazem parte das Sagradas Escrituras e sim, da tradição e doutrina cristã. Contudo em Provérbios, há um texto que diz:

“Seis coisas detesta Javé e sete lhe são abominação: olhos altivos, língua mentirosa,mãos que derramam o sangue inocente, coração que maquina planos malvados, pés que correm para a maldade, testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia discórdia entre irmãos.”

Como citado acima, estes vícios ou pecados eram as tentações que afligiam a alma humana. Procurou-se descrevê-los e mesmo catalogá-los, sem, contudo, entender suas causas e os mecanismos que os desencadeia. Hoje, com o avanço da ciência, da Psicologia e da Psiquiatria, estes mecanismos podem ser melhores conhecidos e suas causas trabalhadas e debeladas. Afinal sobre Freud se escreveu que ele “lançou seu bisturi nos horrores da alma”.

Psicologia

Para algumas vertentes da Psicologia, esses pecados capitais ou vícios, servem de base e referência para quem busca trilhar o caminho do autoconhecimento. Para enfrentá-los, é preciso conhecê-los e seus mecanismos de formação.

Inveja: É uma das emoções mais primitivas do homem, geralmente negada por todos. Este mecanismo, responsável pelos nossos ressentimentos é o mecanismo da comparação. Nunca haverá inveja sem que antes tenha havido uma comparação. É um sentimento de inferioridade, fruto desta comparação que se faz com o outro, em algum aspecto específico, como bens materiais, sucesso na vida, beleza, e diversas outras qualidades. É um sentimento que mistura raiva e tristeza. E também pode se manifestar em um forte desejo que o outro se dê mal. Ao se sentirem menores que o os outros, geralmente as pessoas tendem a se aumentar, vangloriar, se enaltecer, como um mecanismo de defesa, para tentar evitar o mal-estar deste desequilíbrio na comparação. Também quando se critica em demasia, diminui ou se fala mal de alguém, provavelmente se está sentindo inferior a ela. “Olho gordo” também é sinônimo de inveja.

A inveja é a incapacidade de se ver a luz das outras pessoas, porque na verdade não nos percebemos com esta mesma luz. O que há de negativo na inveja é a rejeição, em algum momento, de seu próprio tamanho e sua incapacidade de acreditar ser capaz de também conseguir. Por isto, se a pessoa possui autodomínio, autoconhecimento, ela vai usar esta situação como motivação, alavancagem, para ações transformadoras em sua vida.

Ira: A ira é a indignação descontrolada da cólera, raiva e desejo de vingança. São emoções destrutivas tanto para quem a sente quanto para quem se torna objeto delas. Ao longo de sua existência, o homem conseguiu controlar sua agressividade através da razão. A agressividade gerada pela ira demonstra a incapacidade de raciocinar. Pode estar associada a fatores inconscientes, como traumas de infância, falta de amor ou mesmo incapacidade de amar. O que os psicólogos aconselham para extravasar e aliviar as crises de ira: surrar colchões ou travesseiros, imaginar que a outra pessoa está a sua frente e lhe dizer tudo que sente, entre outras coisas. Quanto mais se busca o autoconhecimento, melhor se domina as crises de ira. Não deixe que o outro determine seu nível de humor, seja dono de você mesmo.

Gula: Pode ser entendida como uma forma de fuga de problemas, dificuldades e sentimentos, bem como, forma de compensação para se proteger, por exemplo, de excesso de sexualidade no caso de algumas mulheres que se reprimem. A ansiedade também pode provocar a busca compulsiva por comida. Ao se devorar compulsivamente a comida, tenta-se, inconscientemente, destruir o problema. Pode se formar um círculo vicioso: come-se em excesso, para fugir do que se sente; depois se culpa por isto, se pune, comendo ainda mais. Hoje em dia se fala muito em bulimia, que são transtornos alimentares caracterizados por compulsões alimentares, seguidos de comportamentos compensatórios inadequados como o vômito. Então está claro que o que se queria colocar para dentro não era a comida, senão não precisaria de se livrar dela. O mais recomendado para evitar os excessos que a gula pode gerar, é descobrir o que está levando a pessoa àquela situação e lidar com ela com a consciência de que as suas necessidades estão muito além de comer, beber, ter poder: sua maior necessidade é ter amor por si mesmo.

Avareza: A palavra vem do latim “avere”, ter. Avareza é o excessivo e sórdido apego ao dinheiro, falta de generosidade e mesquinhez. A avareza geralmente gera outras atitudes negativas: falsidades, mentiras, fraudes, sempre na tentativa de enganar os outros para lucrar mais. Gera também a desumanidade derivada do excesso de apego e a inquietude e preocupação em sempre ganhar mais, isto é, aniquila qualquer paz de espírito. Ela está relacionada ao medo de faltar, à carência. Geralmente tem origem na infância, principalmente quando se passou privações, principalmente alimentares, ou se a criança associou dos pais ou dos adultos que o dinheiro compra tudo, dinheiro traz felicidade. A avareza é o produto de uma necessidade que se encontra na “psiquê”, na mente humana. Ela tenta disfarçar o conflito com a busca de bens, mas nunca consegue suprir a sensação de carência, fazendo com a pessoa sinta uma insatisfação constante. Na realidade, a avareza é a falta de contato com nosso próprio mundo interior, buscando incessantemente o que é exterior, tentando compensar o vazio que tem dentro de si. Jung, um dos pais da psiquiatria, relata que para este problema a solução é buscar um sentido para a vida. Somente quando o homem tomar conhecimento de seu próprio mundo interior, poderá deixar a doentia preocupação com o exterior. E um bom sentido para a vida pode ser o socorro às necessidades dos mais carentes, através de gestos concretos de caridade.

Luxúria: Luxúria representa o desejo desordenado pelos prazeres sexuais. Apesar de ocorrer também em mulheres, é mais uma característica dos homens. Procura-se compulsivamente satisfazer as próprias necessidades sexuais, não se importando com a satisfação da parceira. Sua origem pode estar na infância, quando os pais reprimem a criança de todo e qualquer impulso sexual. Estes pais geram, através da repressão, muita culpa e criam, assim, adultos reprimidos sexualmente ou liberados excessivamente. Do ponto de vista psíquico, a mulher dá mais valor ao amor e à intimidade do que ao sexo, ao contrário do homem que valoriza mais este último, fugindo do amor e da intimidade. E isto é uma das principais fontes de conflitos entre casais. Vivemos hoje a cultura da beleza, da aparência, da estética, do prazer. A mídia mostra isto o tempo todo. O apelo sexual entra em nossos lares, sem a nossa permissão, pela televisão, tornando-se um padrão de referência para nossos filhos…

Ora, se a vontade e a razão obedecem apenas ao prazer, a pessoa passa a buscar somente o que lhe dá prazer. E se vicia no prazer. Perde os valores espirituais e muitas vezes também os valores morais. O autoconhecimento, e, em conseqüência o crescimento emocional podem retomar o equilíbrio e restabelecer a capacidade de amar ao outro.

Preguiça: É a pouca ou falta de disposição ou aversão ao trabalho, demora ou lentidão para fazer qualquer coisa. É um sentimento que faz com que as pessoas desqualifiquem os problemas e as possibilidades de solução. Não é somente física, mas também mental; preguiça de pensar, de analisar e ponderar. Geralmente o preguiçoso usa o bordão: “deixa para depois”. São pessoas que não conseguem administrar o tempo, adiam compromissos, decisões e até mesmo simples afazeres rotineiros, comprometendo o resultado esperado. Na verdade ocultam uma insegurança exagerada sobre sua própria capacidade de agir, isto é, falta-lhes a autoconfiança. Utilizam-se do desânimo e do esquecimento como estratégia para fugir da necessidade de enfrentar a tarefa que lhes cabe. É como se estivessem imobilizados perante a vida. Somente com a pressão de outros e um trabalho profundo de conscientização, é que poderão sair deste estado de letargia.

Soberba: É o desejo destorcido de grandeza. A soberba leva o homem a desprezar os superiores e desobedecer as leis. Tem ligação com ambição desmedida, que é a cobiça, com a vanglória, a hipocrisia, a ostentação, a presunção, a arrogância, a vaidade, o orgulho excessivo, um conceito exagerado de si mesmo e, por fim, com a sede de poder. A soberba acarreta muitos conflitos nas relações pessoais, pois o soberbo, busca manter o controle, criticando, manipulando e dominando o outro com forma de poder. Ele precisa fazer com que o outro se sinta diminuído para que ele se sinta superior. Geralmente as pessoas acometidas pela soberba usam disto como uma máscara para compensar a falta de autoconfiança, falta de amor próprio, vazio interno, sensação de desamparo, provavelmente adquiridos na infância quando não encontraram este amparo nos adultos com quem conviviam. A soberba está muito distante da humildade, característica básica de quem possui autoconhecimento. Infelizmente algumas pessoas só percebem esse comportamento no fim de suas vidas, muitas vezes num leito de hospital, quando pouco ou nada se pode fazer para reconstruir o que destruíram nos outros e em si mesmo.

Para teólogos de várias religiões, a soberba é um pecado específico, uma forma básica de pecado. Os demais pecados podem encontrar uma explicação biológica ou psicológica, pois podem ser movidos pelo instinto de sobrevivência do homem, e mesmo dos animais. Mas soberba não encontra uma explicação nem biológica, nem instintiva. Ela não é percebida no comportamento do animal, por exemplo. Só o homem desenvolve a vaidade e a soberba. Ela foi, por exemplo, o pecado de Adão, que teve a ambição de se tornar Deus.

É preciso desenvolver a consciência de que seu valor como pessoa independe da posição que ocupa ou dos bens que possui e que somos seres humanos em constante processo de evolução.

Perguntaram a Allan Kardec qual era o vício mais radical e ele respondeu:

“O egoísmo. Dele deriva todo o mal. No fundo, em todos os vícios existe o egoísmo. Nele se encontra a verdadeira chaga da sociedade”.

Conclusão

A Maçonaria conclama todos os Irmãos a desempenhar o glorioso papel de construtor social. Somos recebidos Pedras Brutas, para que, em nosso ser moral, desbastemos as arestas e asperezas e nos tornemos elementos úteis à construção deste edifício social que a ela compete erigir. Estas arestas, asperezas, são os vícios que atrapalham esta convivência relacional, e impedem a construção desta sociedade moral. Algumas destas asperezas são de difícil desbaste, mas as virtudes da Fortaleza e da Paciência por certo as removerão. Por isto nos reunimos em Loja, para levantar templos à Virtude e cavar masmorras ao Vício. A Maçonaria nos conclama a praticar a virtude, a pautar nossas ações pelas virtudes. Por isto, conhecendo nossa condição humana, nos adverte a não abusarmos de nossas próprias fraquezas e muito menos do enlevo de nossas vaidades, pois o mal e a tentação estão por todas as partes. Mas por todas as partes também está o bem e estão os bem-aventurados homens de boa-vontade. Portanto, direcionemos todas as nossas ações para o bem.

Hoje em dia outro tipo sorrateiro de vício toma conta da sociedade, invadindo os nossos lares fazendo de nossos filhos, seus reféns. São os chamados “vícios sociais”, causados pela dependência química do álcool, do fumo e das drogas. A droga é hoje o câncer que corrói a nossa sociedade. Basta vermos nos meios de comunicação, diariamente, o quanto ela destrói vidas, destrói lares e mobiliza todo um aparato policial para tentar contê-la. Por isso que é oportuna e louvável a campanha da Grande Loja Maçônica de Minas Gerais, conclamando a todos nós a engajarmos nesta luta.

Estas reflexões sobre virtudes e vícios visaram conhecermos melhor nossos instintos mais primitivos, nossas sombras, o lado escuro que todos nós temos, mas que é possível, através da conscientização e do autoconhecimento, colocarmos luz onde só era escuridão.

Afinal, meus Irmãos “não somos nós que deixamos os vícios; são eles que, desprovidos de nossa atração, nos deixam”.

Autor: Sílvio Maria de Abreu


ARLS Obreiros da Verdade nº 52- GLMMG

Bibliografia

Vícios e virtudes em Aristóteles e São Tomaz de Aquino – Cláudio Henrique da Silva

A virtude e as virtudes – Sérgio Biagi Gregório

Vícios e virtudes – Newton Freitas

Sete pecados capitais – Rosemeire Zago

Ritual do Grau 1 do REAA Ritual e Instrução do Grau 2 do REAA