segunda-feira, 26 de setembro de 2016


LIÇÃO EM VIAGEM
 
 
 
Um amigo sempre interessado de que maneira adquiriria humildade, guiava um automóvel em longa viagem à noite.
De certo modo, sentia-se cansado ao notar que os motoristas, em sentido contrario, não baixavam os faróis, dificultando-lhe a marcha.
De súbito, adotou uma atitude que ainda não lhe ocorrera.
Observando a aproximação de algum carro, de imediato, baixava o farol do auto, sob a sua direção.
Desde esse instante, viu que todos os motoristas igualmente lhe respondiam com atenção diminuindo a luz que comandavam.
Ele compreendeu, enfim, que o mesmo se verificava nos caminhos da vida.
Quem atenua a luz que lhe é própria, encontra sempre a luz de companheiros atentos que lhe facilitam a jornada no cotidiano.
 
Emmanuel

domingo, 25 de setembro de 2016


Perdoa, sim!?

 
15. Perdoar aos inimigos é pedir perdão para si próprio; perdoar aos amigos é dar-lhes uma prova de amizade; perdoar as ofensas é mostrar-se melhor do que era. Perdoai, pois, meus amigos, a fim de que Deus vos perdoe, porquanto, se fordes duros, exigentes, inflexíveis, se usardes de rigor até por uma ofensa leve, como querereis que Deus esqueça de que cada dia maior necessidade tendes de indulgência? Oh! ai daquele que diz: “Nunca perdoarei”, pois pronuncia a sua própria condenação. Quem sabe, aliás, se, descendo ao fundo de vós mesmos, não reconhecereis que fostes o agressor? Quem sabe se, nessa luta que começa por uma alfinetada e acaba por uma ruptura, não fostes quem atirou o primeiro golpe, se vos não escapou alguma palavra injuriosa, se não procedestes com toda a moderação necessária? Sem dúvida, o vosso adversário andou mal em se mostrar excessivamente suscetível; razão de mais para serdes indulgentes e para não vos tornardes merecedores da invectiva que lhe lançastes. Admitamos que, em dada circunstância, fostes realmente ofendido: quem dirá que não envenenastes as coisas por meio de represálias e que não fizestes degenerasse em querela grave o que houvera podido cair facilmente no olvido? Se de vós dependia impedir as consequências do fato e não as impedistes, sois culpados. Admitamos, finalmente, que de nenhuma censura vos reconheceis merecedores: mostrai-vos clementes e com isso só fareis que o vosso mérito cresça.
Há, porém, duas maneiras bem diferentes de perdoar: há o perdão dos lábios e o perdão do coração. Muitas pessoas dizem, com referência ao seu adversário: “Eu lhe perdoo”, mas, interiormente, alegram-se com o mal que lhe advém, comentando que ele tem o que merece. Quantos não dizem: “Perdoo” e acrescentam: “mas não me reconciliarei nunca; não quero tornar a vê-lo em toda a minha vida.” Será esse o perdão, segundo o Evangelho? Não; o perdão verdadeiro, o perdão cristão é aquele que lança um véu sobre o passado; esse o único que vos será levado em conta, visto que Deus não se satisfaz com as aparências. Ele sonda o recesso do coração e os mais secretos pensamentos. Ninguém se lhe impõe por meio de vãs palavras e de simulacros. O esquecimento completo e absoluto das ofensas é peculiar às grandes almas; o rancor é sempre sinal de baixeza e de inferioridade.
Não olvideis que o verdadeiro perdão se reconhece muito mais pelos atos do que pelas palavras. – Paulo, apóstolo. (Lyon,1861.)
 
 

Perdoa, sim!?

 
O desconhecido passou, de carro, enlameando-te a veste, como se toda a rua lhe pertencesse... Compadece-te dele. Corre, desabalado, à procura de alguém que lhe socorra o filhinho nos esgares da morte.
Linda mulher, que pérolas e brilhantes enfeitam, segue a teu lado, parecendo fingir que te não percebe a presença... Compadece-te! Ela tem os olhos embaciados de pranto e não chegou a ver-te.
Jovem, admiravelmente bem-posto, cruzou contigo, endereçando-te palavra de sarcasmo e de injúria... Compadece-te! Ele tem os passos no caminho do hospício e ainda não sabe.
O amigo que mais amas negou-te um favor... Compadece-te dele! Não lhe vês a dificuldade encravada no coração.
Companheiros do mundo!... Estarão contigo, notadamente no lar, onde guardam os nomes de pai e mãe, esposo e esposa, filhos e irmãos... Muita vez, levantam-se de manhã, chorosos e doloridos, aguardando um sorriso de entendimento, ou chegam do trabalho, fatigados e tristes, esmolando compreensão.
Todos trazem consigo aflições e problemas que desconheces.
Ergue a própria alma e auxilia sempre!... Indulgência para todos! Bondade para com todos!...
E, se algum deles te fere diretamente a carne ou a alma, não levantes o braço ou a voz para revidar.
Busca no silêncio a inspiração do Senhor, e o Mestre, como se estivesse descendo da cruz em que pediu perdão para os próprios verdugos, te dirá compassivo:
– Perdoa, sim! Perdoa sempre, porque, em verdade, aqueles que não perdoam também não sabem o que fazem...
 
Meimei, extraído do livro “O Espírito da Verdade”

sábado, 24 de setembro de 2016


CASTELO INTERIOR OU AS MORADAS

 

Teresa Ahumada Sanches y Cepedaou santa Teresa de Ávila

 

“Deus é como um Sol no centro de um diamante, e a alma uma pedra que precisa ser transpassada por Sua Luz. Assim, é através da oração silenciosa que a pedra se transforma em um diáfano cristal de diamante.”

 

Este texto nasceu de um estudo que fiz do livro “Castillo Interior o las Moradas” escrito por Teresa em 1577, para apresentar a saga dessa grande mística cristã aos meus alunos de meditação, pois sendo a meditação uma técnica para acessarmos os estados superiores de consciência, na busca de nossa essência espiritual, nada melhor que Ela para nos contar como fez e o que vivenciou nesses espaços conscienciais.

 

Nascida Teresa Ahumada Sanches y Cepeda aos 28 de Março de 1515 - em Gotarrendura na província de Ávila na Espanha -, ela faleceu em 4 de Outubro de 1585, após uma vida dedicada a busca de Deus. Sua saga é cheia de tropeços e dificuldades, alguns impostos pela sua cultura espiritual e outros pela inquisição espanhola (1478-1834), que não tolerava o viés místico na busca do sagrado. Entretanto, Teresa era uma mulher notável e incomum, uma religiosa acima do bem e do mal, que jamais alguém ousou tocar, ainda que a censura imposta a alguns de seus textos tenha levado-os à fogueira, obrigando-a mais tarde a reescrevê-los “de memória”.

 

 Meu texto é um resumo da descrição que ela fez das sete moradas, que no original contém vinte e sete capítulos. Quando julguei conveniente fazer um comentário, principalmente para explicar o assunto à luz do Vedânta e da pequena experiência que tive viajando por algumas dessas moradas, coloquei o comentário em itálico e entre colchetes, para diferenciação do leitor. Finalmente devo acrescentar que tenho muito a agradecer a Teresa, do fundo de meu coração, por tudo que ela me ensinou e pelo carinho com que me guiou por entre os meus entendimentos de suas inefáveis experiências.

Osvaldo Marmo, Março de 2005

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Osvaldo Luiz Marmo

 

 

Primeira Aula

 

Escreve Teresa: Consideremos nossa alma como um castelo feito de um só diamante ou de um limpidíssimo cristal. Nesse castelo existem muitos aposentos, assim como no céu há muitas moradas. Este castelo tão resplandecente e formoso é uma pérola oriental, a árvore da vida que foi plantada nas águas vitais da própria vida, Deus.”

 

O castelo é uma metáfora para a alma, e neste momento do relato ela mostra a dificuldade que teve em compreender o que é alma e o que é espírito, bem como se existe alguma diferença entre os dois. Posteriormente ela mostra que seu entendimento se ampliou, e então ela percebe que o viajante é a consciência a que ela denomina espírito e a alma é outra coisa que ela denomina “o castelo.” 

 

Então, ela continua seu relato: Mas, por melhor que seja nossa inteligência não podemos compreender este castelo, assim como não compreendemos a Deus, que nos fez a sua imagem e semelhança. Entretanto, eu percebo que entre o castelo e Deus, existe a diferença que vai da criatura ao criador, mas basta sua Majestade afirmar que o fez à sua imagem para termos uma longínqua idéia da grande dignidade e beleza da alma ou seja o castelo. Infelizmente é uma lástima e uma grande confusão não nos entendermos a nós mesmos, e não sabermos quem somos, talvez porque concentramos por demais a nossa atenção sobre o nosso corpo e as coisas exteriores. Nós sabemos que a alma existe, por ouvir dizer, mas desconhecemos as riquezas que nela existem e seu grande valor, bem como Quem nela habita. A alma é o nosso maravilhoso castelo, e então vejamos como se há de fazer para penetrar em seu interior, embora a mim pareça um disparate falar assim, porque se a alma é o castelo, claro está que não se entra nele, sendo ambos uma só coisa. Com efeito, a primeira vista pode parecer um desatino dizer a alguém que entre onde já se encontra. Mas ficai sabendo que há uma grande diferença entre os modos de se estar num mesmo lugar.

Como mencionei anteriormente, neste momento de seu relato ela ainda não sabe quem entra em quem, ou no que. Mais tarde ao atingir a sétima morada ela sabe que ela é o espírito  – que eu prefiro denominar pelo termo consciência, viajando pelo castelo ou alma, que para mim são os estados não ordinários de consciência. Continuando seu relato, ela diz: Entretanto, muitas almas andam em torno desse castelo, onde as sentinelas montam guarda, e aparentemente elas não têm interesse em entrar nele, por estarem demasiadamente presos aos objetos dos sentidos do mundo exterior.

 

Mas os livros de oração aconselham a alma a entrar em si mesma! Esse também é meu pensamento, pois as almas sem oração são como corpos entrevados ou paralíticos, e incapazes de se moverem. Há almas tão enfermas e tão mergulhadas nas coisas externas, que dão a impressão de não haver remédio nem possibilidade de fazê-las entrar em si mesmas. Mas eu vos digo que a porta para entrar nesse castelo é a oração e a meditação, embora eu não chame de oração o mexer dos lábios, sem pensar no que dizemos, nem no que pedimos nem quem somos nós, nem quem é Aquele ao qual nos dirigimos. Assim, o costume de falar à majestade de Deus como se fala a um estranho, dizendo o que foi decorado, a isto não chamo de oração. Não permita Deus que cristão algum reze desse modo.

 

Neste parágrafo ela nos ensina seu método de oração, dizendo que orar não é repetir palavras memorizadas, mas falar com o coração, a emoção, namorar Deus sem linguagem verbal. Dirijo-me às almas que querem entrar no castelo, embora saiba que muitas estão metidas ou ligadas ao mundo, e embora tenham bons desejos e encomendam-se uma vez por outra ao nosso Senhor, em geral elas refletem pouco sobre si mesmas, nunca muito detidamente e, no espaço de um mês, dia ou outro rezam distraídas com mil negócios a lhes encherem o pensamento. Assim, estando elas apegadas aos pensamentos, o coração se lhes vai para onde eles fluem, perdendo o verdadeiro tesouro que é caminhar em direção a Deus. De tempo em tempo essas pessoas procuram libertarem-se, o que já é grande coisa, quando o próprio reconhecimento de que não caminham bem os faz procurarem se acercar da porta do Castelo. Por vezes elas acabam entrando nas primeiras salas de baixo, mas juntamente com elas entram tantas sevandijas, que estas não lhes deixam ver a beleza do castelo, nem lhes dão sossego. Entretanto, já foi muito bom elas terem entrado, mesmo que por pouco tempo.

 

Aqui ela relata que o Eu, como consciência pura, vivencia muitos espaços conscienciais ao penetrar no interior de si. As sevandijas a que ela se refere são todo tipo de distração e perturbação do estado meditativo, que deve ser controlado pelo esvaziamento da mente e seus agregados.

 

Contudo filhas tenham paciência, pois quando não se tem a experiência, isto tudo é um assunto difícil de entender, e eu agradeço a Deus por me ajudar em dar-vos alguma ideia do que quero vos explicar.

 

Osvaldo Marmo, Março de 2005

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Osvaldo Luiz Marmo

sexta-feira, 23 de setembro de 2016


Ao Levantar-se

Agradeça a Deus a bênção da vida, pela manhã. Se você não tem o hábito de orar, formule pensamentos de serenidade e otimismo, por alguns momentos, antes de retomar as próprias atividades.
Levante-se com calma.
Se deve acordar alguém, use bondade e gentileza, reconhecendo que gritaria ou brincadeiras de mau gosto não auxiliam em tempo algum.
Guarde para com tudo e para com todos a disposição de cooperar para o bem.
Antes de sair para a execução de suas tarefas, lembre-se de que é preciso abençoar a vida para que a vida nos abençoe.
André Luiz

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Pitágoras
“. . .
Honra primeiramente os deuses imortais, conforme o grau de preeminência, que tem destinado a lei às suas hierarquias.
Respeita com igual observância o juramento; depois venera os heróis cheios de bondade e de luz;
Rende também a mesma veneração aos gênios ou jinas subterrâneos, dando-lhes o culto, que legitimamente lhes é divido.
Honra com semelhante obsequio a teu pai, e a tua mãe e a teus parentes mais chegados.
Entre a multidão dos outros homens, tu, com a tua virtude, faze-te amigo de todo aquele que por ela mais se distingue. Cede sempre às suas brandas advertências e relevantes ações.
E não te ponhas logo, por qualquer leve falta, mal com teu amigo, enquanto puderes, porque o poder mora junto com a necessidade.
Sabe pois que assim te incumbe observar estes preceitos, mas vai contraindo hábitos de vencer as paixões.
E primeiro que tudo a da gula, e do sono, também a da concupiscência, e da ira. Nem jamais cometas ação alguma torpe, nem com outrem nem contigo só em particular; e sobretudo peja-te de ti mesmo.
Em conseqüência disto, assim nas tuas mãos, como nas tuas palavras, costuma-te a praticar a justiça e a não te portares em coisa alguma com imprudência.
Mas faze sempre esta reflexão, que decretado está pelo Fado a todos o morrer: é que os bens da fortuna se costumam efetivamente umas vezes adquirir, outras perder.
No tocante ao grande número de misérias da vida, que os mortais padecem por divina fortuna, já que é força e te caiba delas por sorte alguma parte, sofre-as todas com ânimo resignado e não te mostres impaciente.
O que porem te importa fazer é sanear a quebra dessas desventuras, o quanto estiver na tua mão, e nestes termos considera: que o Fado nem por isso permite que sobre as pessoas de bem venha grande tropel destas calamidades.
Ora ouvem-se fazer entre os homens muitos discursos, uns bons, outros maus por cuja causa nem te acovardes no exercício da virtude, nem te deixes acaso apartar do teu medo de viver; mas se porventura se proferir alguma falsa proposição, arma-te da paciência, usando com todos de brandura.
Cumpre à risca em tudo e pó r tudo com a máxima que te vou já inculcar:
Ninguém te arraste, nem por palavra, nem por oba, de modo algum.
Consulta e delibera sempre antes de obrar, para que não chegues a por em execução algumas ações ineptas e temerárias. Porquanto é de homem eslidamente desgraçado não só obrar se não também falar sem tento, nem consideração.
Mas tu nada efetuas sem antes coisas algumas tais que ao depois te não sirvam de tormento.
E não te metas a fazer coisa alguma das que não sabes; mas aprende tudo quanto cumpre saber e, deste modo, passarás uma vida mui alegre e deleitosa.
Nem é justo, quanto ao penso do corpo, haver descuido na conservação da saúde dele; mas importa guardar uma justa mediana tanto no beber como no comer e nos exercícios.
Dou pois o nome de mediana a tudo aquilo que te não causar moléstia nem aflição.
Costuma-te, por isso, a ter um tratamento asseado sim e decente, mas sem delicadeza nem luxo.
E guarda-te muito de fazer qualquer daquelas ações que trazem consigo a repreensão e vitupério de todos os homens.
Não faças gastos fora do tempo, como quem esta muito alheio ao decoro, nem tão pouco sejas mesquinho, pois por onde a mediania em todas as coisas é ótima.
Assim que fazem só aquelas coisas que te não prejudicarem e considera as bem, antes de as pores em obra.
Nem dês entrada ao sono em teus lânguidos e cansados olhos se não depois que examinares a consciência, discorrendo por cada uma das ações daquele dia: em que matéria transgredi? E que fiz eu? Que obrigação indispensável deixou de ser por mim cumprida?
E começando desde a primeira, continua com o exame até a última de tuas ações; e depois, no caso que tenhas obrado mal, repreende-te e, se bem, regozija-te; nestas coisas trabalha, nestas medita, nestas convém que empregues o teu amor.
Todas elas te sublimarão a dirigir teus passos pelos vestígios da virtude divina.
Sim, eu to afirmo e juro por aquele que deu à nossa alma o conhecimento do Quaternário, fonte de sucessiva natureza. Mas põe só mãos a esta grande obra depois de teres pedido aos deuses que te ajudem a levar ao fim o que vás empreender, tendo-te já prevenido e corroborado com estes requisitos: conhecerás tanto dos deuses imortais, como dos homens mortais as hierarquias até onde não só cada um dos mencionados entes se estende, mas ainda até onde se limita.
Conhecerás também, segundo a Lei de Deus supremo, ser em tudo análoga a Natureza, de maneira que nem tu viras a conceber esperança do que não é para esperar, nem para ti será incógnita coisa alguma deste mundo.
Conhecerás igualmente que os homens padecem os males, a que estão sujeitos, por sua própria escolha. Desgraçados homens, que não reparam nos bens que têm à mão, nem ouvidos lhe querem dar; e assim poucos chegam a saber livrarem-se dos seus males.
Tal é a sorte que cega os entendimentos dos mortais, que por isso eles, à maneira de cilindros, rodam de uns para outros vícios, padecendo calamidades sem fim. Porquanto aquele pernicioso combate, que a todos acompanha e com todos nasce, é o mesmo que, sem eles por isso atentarem, os traz enfatuados e perdidos.
Combate que não convém atiçar, mas sim cada um fugir dele cedendo à razão.
De quantos males por certo livrarias, ò Júpiter, Pai Soberano, a todos os homens no caso que a todos fizessem conhecer de que demônio eles se servem!
Tu porem cobra grande animo, visto ser divina a prosápia dos mortais a quem a sagrada Natureza, infundindo-lhe, manifesta cada uma das coisas respectivas ao próprio conhecimento.
Das quais se de modo algum te achas participante, chegaras a conseguir o pretendido fim das máximas que te prescrevo: depois de teres curado a indisposição das paixões, livraras a tua alma de todos os trabalhos e moléstias.
Mas abstém-te dos manjares que nós temos proibido, tanto nas purificações, como no livramento d’alma, discernindo entre uns e outros; e pondera bem cada um destes preceitos, constituindo a razão mais adequada por cocheiro para ter de parte superior as rédeas da carreira de tua vida.
E se depois de te veres já despojado do corpo, chegares à pura região do etéreo assento, será um Deus imortal, incorruptível e nunca mais sujeito, daí por diante, à jurisdição da morte, etéreo assento, será um Deus imortal, incorruptível e nunca mais sujeito, daí por diante, à jurisdição da morte..

quarta-feira, 21 de setembro de 2016


CONFIA SEMPRE

 

Não percas a tua fé entre as sombras do mundo.

Ainda que os teus pés estejam sangrando, segue para a frente, erguendo-a por luz celeste, acima de ti mesmo.

Crê e trabalha.

Esforça-te no bem e espera com paciência.

Tudo passa e tudo se renova na Terra, mas o que vem do céu permanecerá.

De todos os infelizes, os mais desditosos são os que perderam a confiança em Deus e em si mesmos, porque o maior infortúnio é sofrer a privação da fé e prosseguir vivendo.

Eleva, pois, o teu olhar e caminha.

Luta e serve. Aprende e adianta-te.

Brilha a alvorada além da noite.

Hoje, é possível que a tempestade te amarfanhe o coração e te atormente o ideal, aguilhoando-te com a aflição ou ameaçando-te com a morte...

Não te esqueças, porém, de que amanhã será outro dia.

Meimei

 Do livro "CARTAS DO CORAÇÃO"

 

terça-feira, 20 de setembro de 2016


 

Por que Maçonaria e Política?

 

Definição de Política – Aristóteles

O bem do indivíduo é da mesma natureza que o bem da cidade (polis), mas este é “mais belo e mais divino” por que se amplia da dimensão do privado para a dimensão do social, para a qual o homem grego era particularmente sensível, porquanto concebia o indivíduo em função da cidade e não a cidade em função do indivíduo.

Aristóteles dá a  esse  modo de pensar dos gregos uma expressão paradigmática, definindo o próprio homem como “animal político” (ou seja, não simplesmente como animal que vive em sociedade, mas como animal que vive em sociedade politicamente organizada).

Mas, nem todos aqueles que vivem na cidade são cidadãos. Para Aristóteles, ser cidadão é preciso participar da administração púbica, ou seja, fazer parte das assembleias  que legislam, governam a cidade e administram a justiça.

O que é a Maçonaria?
É uma instituição que tem por finalidade estabelecer a justiça na humanidade e fazer imperar a fraternidade. Suas divisas são: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Aí vamos deparar-nos com os vários conceitos de justiça: aquele emanado do direito, ou da filosofia, ou da economia, ou podemos sintetizá-los todos por um só conceito: O DE JUSTIÇA SOCIAL. É dever do maçom persegui-lo. E como persegui-lo senão pela política.

Parece-me que a grande dificuldade consiste em estabelecer a linha divisória que separa  a política, entendida como a gestão da polis, objetivando fazer imperar a fraternidade, das inclinações, ou, pior ainda, das paixões partidárias. Tudo isso potencializado pelo fato de não existir interpretação inocente da história, como pretendia o positivismo.

A própria maçonaria fez sua opção por um modelo de ordenamento social, que é aquele fundamentado nos princípios de suas divisas.

Como escola de  aperfeiçoamento e alternativa de sociabilidade, qual o procedimento a adotar para otimizar seu objetivo?

A meu ver, há dois procedimentos basilares que podem ser combinados:  o primeiro seria reunir as cabeças privilegiadas que temos e, mediante a madura administração de nossas divergências, acharmos o leito que possibilite escoar todo o jorro de idéias, delas emanadas,á direita e á esquerda, com tal magnitude que possibilite preencher o vazio das idéias transformadoras que agem como profetas da nova era. A outra, é buscar nas nossas melhores  tradições históricas portadoras de futuro a metodologia já utilizada por nossos IIr.:  e que provaram sua eficácia na práxis… Aí nosso Rito é imbatível.

Há duas ricas fontes para nos abeberarmos: uma é a Revolução Francesa; a outra, é a História do Brasil. Como o tempo é exíguo, procurá-la-ei somente na revolução Francesa.

Foi ela um momento de tamanho fulgor na história da humanidade que, até hoje, é possível vislumbrar o seu brilho! Ainda caminha altaneira em cima dos escombros  da ordem velha que sepultou.

A referência à história pátria, por ser específica, fica para outra oportunidade. Queremos uma referência universal.

Mas, o que foi a Revolução Francesa e qual foi o papel desempenhado pela maçonaria? Bem, a revolução foi o coroamento de uma lenta evolução econômica  que instala no domínio do Estado a classe que estava madura para exercê-lo: a burguesia.

Foi o clímax provocado pela agudização das contradições existentes entre o caráter das forças produtivas e as relações sociais de produção.

Apesar de burguesa, com ela já nasciam as idéias de uma nova ordem social que lhe seria superior, posto que se pretendia menos excludente. Esta é a grande diferença para as revoluções que a precederam: a Inglesa e a Americana. Enquanto estas eram “estreitamente” burguesas e conservadoras ,  a francesa, pela sua “mélange” de classes, foi “largamente” burguesa e democrática. Ali começava a se forjar o emblema maçônico de construtores sociais. No passado, nós fizemos jus a ele; por isso, é ali que vou buscar a inspiração para falar sobre o tema.

A alternativa sobre “nossas cabeças privilegiadas” fica para o dia 30 de outubro.

COMO SE PREPAROU O ADVENTO DA NOVA ORDEM?

Vamos primeiro entender o que era a “velha ordem”, aproveitando a didática de Leo Huberman : “quando vamos ao cinema  assistir um filme sobre a Idade Média, observamos na tela os cavaleiros e damas engalanados em sua armadura brilhante e vestidos alegres, respectivamente, em torneios e jogos. Vivem em esplêndidos castelos, com fartura de comida e de bebida. Quase nem nos apercebemos que alguém deve produzir todas essas coisas. Também alguém tinha que fornecer alimentação e vestuário para os clérigos que pregavam, enquanto os cavaleiros lutavam. Assim,além de lutadores e padres, havia um outro grupo: o dos servos. A sociedade feudal consistia dessas três classes : sacerdotes, guerreiros e servos; sendo que o  homem que trabalhava, o servo, produzia  para as outras classes”.

A maioria das terras agrícolas estava dividida em áreas chamadas feudos. Um feudo consistia, apenas, de uma aldeia e as várias centenas de acres de terra arável que a circundavam e, nas quais, o povo da aldeia trabalhava. Na orla da terra arável, havia uma extensão de prados, terrenos ermos, bosques e pastos.

Cada propriedade feudal tinha um senhor.  Pastos, prados, bosques e ermos eram usados em comum, mas a terra arável se dividia em duas partes :  uma, de modo geral  a terça parte do todo, pertencia ao senhor e era chamada  de “seus domínios”; a outra ficava em poder dos arrendatários  que, então, trabalhavam a terra.

As terras não eram cultivadas  em campos contínuos, tal como hoje, mas pelo sistema de faixas espalhadas.

Quais eram, então, AS RELAÇÕES SOCIAS DE PRODUÇÃO?

  • O camponês vivia numa  choça miserável. Trabalhando arduamente em suas faixas de terras espalhadas, conseguia arrancar do solo apenas o suficiente para uma vida paupérrima;
  • Dois ou três dias por semana, tinha que arar a terra do senhor em pagamento;
  • Em época de colheita, tinha primeiro que segar o grão nas terras do senhor (eram os “dias de dádiva”);
  • A propriedade do senhor tinha que ser arada primeiro, semeada primeiro e ceifada primeiro;
  • Uma tempestade ameaçava fazer perder a colheita ? Então, a plantação do senhor era a primeira  a ser salva;
  • O produto do senhor deveria ser vendido primeiro;
  • A estrada ou uma ponte necessitavam reparos? Então, o camponês devia deixar o seu trabalho e atender à nova tarefa;
  • As prensas para moer o trigo ou a uva eram do senhor e exigia-se pagamento para sua utilização.

Por muito tempo, esta foi a relação social de produção. E por tanto tempo que a vida parecia ignorar  a sua principal manifestação: o movimento.

O NASCIMENTO DA BURGUESIA

Mas, começa a entrar em cena um personagem.

No século XI, as fortunas tinham pouco valor por que eram capital estático. Não havia estímulos à produção de excedente, por que o feudo se bastava. Só se fabrica ou cultiva além da necessidade de consumo quando há uma procura firme.

Mas chegou o dia em que o comércio cresceu e cresceu tanto que afetou profundamente toda a vida da Idade Média.

Os navios singravam de um ponto a outro para apanhar peixe, madeira, peles, couros e peliças. Os  mercadores que conduziam as mercadorias do norte encontravam-se com os que cruzavam os Alpes, vindos do sul, na planície de Champagne. Aí, numa série de cidades realizavam grandes feiras.

O senhor da cidade, o burgo-mestre, preocupava-se em preparativos especiais por que a feira proporcionava riqueza a seus domínios e a ele  pessoalmente.

Os mercadores pagavam taxa de entrada/saída, de armazenamento, de vendas e de aramar a barraca da feira. Possuíam salvo conduto, etc… O comércio, que era um riacho irregular, foi transformando-se em corrente caudalosa. Um dos efeitos mais importantes foi o crescimento das cidades. Aonde houvesse  local onde duas estradas se encontrassem, uma embocadura de um rio, ou, ainda, a terra apresentava um declive adequado, lá estavam os mercadores prontos para o exercício do comércio. E como um número cada vez maior de mercadores se reunisse nesses locais, criaram-se os “fauburgs” ou burgos extra murais.

O APARECIMENTO DAS CONTRADIÇÕES

Se recapitularmos as relações sociais de produção do tipo feudal, veremos que o crescimento das cidades, habitadas sobretudo por uma classe de mercadores que surgia, logicamente conduziria a um conflito. Toda atmosfera do feudalismo era de prisão, ao passo que, a da atividade comercial na cidade, era de liberdade.

As terras das cidades pertenciam aos senhores feudais que, a princípio, não viam diferença entre as terras da cidade e as outras que possuíam.

Esperavam arrecadar impostos, desfrutar os monopólios, criar taxas e serviços e dirigir  os tribunais de justiça, tal como faziam em suas propriedades feudais. As leis e a justiça feudais se achavam fixadas pelo costume e eram difíceis de alterar. Mas, o comércio, por sua própria natureza, é dinâmico, mutável e resistente a barreiras. Não podia se ajustar à estrutura feudal. Novos padrões precisavam ser criados. E os audazes mercadores começaram a agir. Face a face com as restrições feudais que os asfixiavam, uniram-se em associações chamadas de “corporações” ou “ligas” ou “guildas”.

Quando conseguiam o que queriam, sem luta, contentavam-se; quando tinham que lutar para alcançar o que almejavam, lutavam. E qual era a exigência básica desses pioneiros?

LIBERDADE! Liberdade para ir e vir; liberdade para comerciar; liberdade para possuir suas próprias terras, diferentemente do hábito feudal de arrendar.

O mercador poderia precisar para hipotecá-la, diante de um financiamento que possibilitasse a expansão dos seus negócios, sem pedir permissão a uma série de proprietários.

As populações urbanas desejavam proceder a seus próprios julgamentos, em seus próprios tribunais. Eram contrários às cortes feudais vagarosas, que se destinavam a tratar dos casos de uma comunidade estática. Desejavam fixar os impostos a sua maneira. Na luta pela conquista da liberdade da cidade, os mercadores assumiram a liderança.

O MERCANTILISMO

A teoria econômica do mercantilismo fundamentava-se na convicção de que a riqueza de uma nação baseava-se na quantidade de ouro, prata e metais preciosos de que dispusesse. Era uma política puramente nacional. O espetáculo oferecido pela Espanha do séc XVI é sugestivo: a extraordinária  prosperidade atingida por essa nação coincide com a circunstância de  ser esse país o que maior quantidade de ouro e prata recebia de suas minas da América.

A teoria sofistica-se, posteriormente, com a introdução do conceito de Balanço de Pagamento superavitário. Assim, um país devia exportar, nem que tivesse que  acabar com a indústria do outro para forçá-lo a importar e “planejar” sua economia para esse fim. Os  mercantilistas acreditavam que, no comércio, o prejuízo de uma país era o lucro do outro, isto é, um país só podia aumentar seu comércio a expensas do outro. Não consideravam o comércio uma troca vantajosa, mas como uma quantidade fixa, da qual todos procuravam tirar a maior parte.

O fruto da política mercantilista era a guerra.

A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL

Adam Smith, membro da Loja Maçônica Capela de Santa Maria, Edimburgo, desmascara a teoria mercantilista. Ficou claro que a maioria dos mercantilistas tinha interesses a proteger e, como tal, interessava-se mais pelas sugestões práticas do que pela análise. Adam Smith procura abordar o assunto de forma científica.

Na Europa Ocidental, a indústria ia crescendo e dando  novos contornos à civilização. A questão  do comércio livre passa a ser defendida por todos, principalmente pelos fisiocratas franceses. “Laissez faire, laissez passer”, torna-se o lema deles. A humanidade tinha chegado ao limite da velha ordem. Raiava, no horizonte da história, a promessa de um novo ordenamento social que marcaria o alvorecer de uma nova era.

O progresso nunca foi uma realização linear, nem evoluía linearmente. Sempre representou uma ruptura com o passado. As novas forças acabavam por subjugar a tradição e emergiam prontas para iniciar um novo ciclo histórico, até que chegasse a hora de ser substituídas.Assim como o aparecimento do mercador promoveu o choque com o sistema feudal, o próprio desenvolvimento do capital mercantil, com o tempo, começou a organizar a produção numa base capitalista que necessitava libertar-se das restrições artesanais das guildas.

Mas, faltava o papel final dos malhetes e ele não tardou. Quando as contradições atingiram seu apogeu, no momento mesmo em que a história convocava todos os homens livres e  de espírito temperado, para erigir os fundamentos da nova era, nossa instituição bradou: PRESENTE! Aquele brado selou para sempre o compromisso  de o  maçon  ser o portador da revanche dos oprimidos pela  ausência de Liberdade, dos excluídos pela negação da Igualdade  e dos  desesperados pela falta de Fraternidade. É a “vingança” final dos justos!

O  lento desenvolvimento começa a proporcionar uma base material que possibilita o desenvolvimento da vida espiritual da sociedade. As novas idéias começam a influenciar a opinião culta européia. O Iluminismo (ou Ilustração), admite-se, começa a nascer por volta de l640 e tem seu apogeu em 1789. Começa por combater uma ordem cósmica  livre de qualquer poder divino, regida por leis imutáveis e uniformes.

As lojas maçônicas, mesmo antes do nascimento da Moderna Maçonaria, já exercitavam a rebeldia intelectual. Primeiro, rebelando-se contra os dogmas religiosos, opondo-se-lhes a razão; depois, como decorrência vieram as  teorias evolucionistas, o  desenvolvimento das ciências físicas, químicas , econômicas e, finalmente, o compromisso de construir um novo edifício social, livre das estacas do absolutismo.

Desenvolve-se a compreensão de que a razão era algo humano, uma faculdade que se desenvolvia através da experiência , junto com suas irmãs memória e imaginação. Era uma força para transformar o real e um caminho à disposição de todos os homens que buscassem a verdade.

A grande burguesia, aliada aos nobres liberais, aproveita  a maçonaria para divulgar suas ideias. Para isso, conta com o concurso dos luminares.

A filosofia dos luminares, própria para a burguesia, possuía tal largueza de vistas e se assentava tão solidamente sobre a razão que, ao criticar depois contribuir para a queda do velho regime, dirigia-se a todos os franceses indistintamente.

Assim, entre os enciclopedistas, vamos encontrar:

  • Montesquieu –  L`Esprit des Lois (1748);
  • Buffon – Histoire Nature ( 1749 – 1 vol);
  • Condillac – Traité des Sensations (1754);
  • Pe. Morelly – Code de La Nature (1755);
  • Voltaire – Essai sur les moeurs e l`esprit des nations (1756);
  • Rousseau-Discours sur l`origine et les fondements de l`inegalite parmi les hommes(1756);
  • Helvetius – De l`Esprit (1758);
  • Rousseau – L`Emile et Contract Social (1762).

O primeiro volume da enciclopédia aparece em 1751, sob o impulso de Diderot (Siecle de Luís XIV), de Voltaire e do  “Journal Economique”,que se tornou o jornal dos fisiocratas.

O Ir.: Malesherbes, cooptado pela mac.:, estava  à frente da Biblioteca de Paris (como tal, era o censor oficial) e não censurava as obras dos filósofos.Encorajado por essa neutralidade, o movimento filosófico se ampliou. Depois de 1770, a propaganda filosófica triunfou. A  Enciclopédia foi concluída em 1772. Voltaire e Rousseau morrem em 1778.

Em 1778, Panckoucke, Suard, Mably, Reynal, Morelly, Condorcet, D`Alembert e vários outros filósofos de segunda geração, todos maçons,  continuaram a obra dos chefes do movimento, com a publicação da suprema enciclopédia, a “Encyclopédie Méthodique”.

A propaganda oral, via lojas maçônicas, ampliou os limites da palavra impressa.

Quais eram as contradições da época ? Vejamos:


RELAÇÕES SOCIAIS DE PRODUÇÃO

FORÇAS PRODUTIVAS

VELHO REGIME         

            NOVA ERA
Privilégio de estirpe;
Risco;
Aparecimento da grande indústria;
Riqueza imobiliária;
Riqueza mobiliária;
Desenvolvimento da tecnologia a vapor;
Desdém pelas ativida-
Valorização das ativi-
Desenvolvimento do grande comércio.
des práticas.
dades práticas.

Daí, com o aparecimento da nova indústria, há a necessidade de transformar o Estado, para estimular o desenvolvimento dos negócios. A vida  espiritual da  Nova Era  prepara-se para sepultar à da Velha Ordem. Mais tarde, a  “Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão” constituir-se-á no atestado de óbito do “ancien regime”.

VIDA ESPIRITUAL DA SOCIEDADE

 
VELHO REGIME
 
 
NOVA ERA
 
– dogma;
– livre pensamento;
– classicismo;
– início do romantismo;
– Aristóteles/S.Tomás
– racionalismo/empirismo/dialética.

A nascente maçonaria francesa estudava a Enciclopédia. Passou a congregar todos os homens livres, inclusive os clérigos, contrários às amarras feudais e espirituais.

As grandes lideranças pertenciam à maçonaria: Sieyes, Condorcet, Petion, Gregoire, Mirabeau, Danton, Marat, Brissot, Camille Desmoulins, Laclos,etc… e souberam agir sincronizadamente   para impor ao rei Luís XVI uma  Assembléia Nacional. Em 27/06/1789,  o rei sanciona o que  tentara mas não pudera impedir. Ali nascia o emblema de construtores sociais, os Arquitetos do Progresso.

NOVAS IDÉIAS:

Econômicas : Laissez faire, laissez passer;

Políticas: extinção das ordens privilegiadas – liberalismo político;

Sociais: busca da felicidade na própria terra dos homens;

Naturais : desenvolvimento da física, química, biologia, etc…

As idéias eram levadas, mediante correspondência dos deputados, para todos os rincões da França pela máquina jacobina. E o que era a máquina jacobina?

Vejamos a definição de François Furet:

“A máquina jacobina, fundada e dirigida com o concurso dos maçons, era uma  apertada rede de sociedades políticas, culturais, fraternais que se multiplicavam através da França de 1789 ao ano III. Entre clubes, lojas, círculos, etc… chegavam a 5500. Eram lugares privilegiados de aculturação política e constituíram muito cedo um vasto corolário em que se experimentavam a linguagem, as práticas e as representações da democracia direta.”

Após a revolução e, principalmente, quando houve o derrube da monarquia, já não havia mais o  elemento comum que unia todos os maçons. As forças políticas diversas estavam livres para iniciar suas jornadas, agregando elementos e campos afins.

Ainda assim, os maçons mantiveram a liderança em suas respectivas jornadas ideológicas.

À esquerda, no Clube dos Cordeliers, havia a liderança de Danton e Marat. Danton iniciado, ainda como obscuro advogado, na loja das Nove Irmãs. Marat, iniciado em setembro de 1769 na Loja Maçônica de Amsterdam, segundo seu biógrafo  Gerard Walter.

Na centro esquerda, na Confederação Geral  dos Amigos da Verdade, destacavam-se os maçons Pe. Fauché e o republicano Nicollau de Boneville, redatores do jornal Bouche de Fer ( Boca de Ferro). O Círculo Social, como era conhecida a Confederação, foi essencialmente um laboratório de idéias sociais progressistas. Não dispunha da preferência das massas populares (estas preferiam o Clube dos Cordeliers), por tomarem posições bastante afastadas da extrema esquerda. Havia, principalmente no Pe. Fauchet, uma extraordinária noção de realidade e das possibilidades geradas. O próprio Marx , ao estudar a Revolução Francesa, reconhece que o Círculo Social foi uma das matrizes do Socialismo Científico, pela consistência das ideias divulgadas.

À  direita, havia a Sociedade de 1790. Congregava a alta burguesia aliada aos nobres liberais; destacavam-se os maçons : Pe. Sieyes, Marquês de  Mirabeau, Duque de Orlelans, Duque de Chartres,Duque d`Aguillon, Duque de Biron, Conde de Clermont Tonerre, Visconde  de Noialles, Duque de  Rochefoucauld,  , Marquês de La Fayette, Pe. Gregoire, Laclos, etc…

Que chama era aquela que atraía e iluminava todos os homens com potencial vocação para Homem-Humanidade , que intuitivamente compreenderam que não são os homens que fazem as revoluções, mas estas, nas suas necessidades  inelutáveis, é que fazem os homens quando estes exprimem a rotação dos seus movimentos ?

A MAÇONARIA E O MOMENTO ATUAL

Vimos, anteriormente, que o desenvolvimento das forças produtivas condicionava as novas relações sociais de produção e que as velhas relações tinham que ser modificadas  para estabelecer um novo equilíbrio dinâmico entre o caráter das forças produtivas e elas.

Onde estamos hoje?  quais são as atuais relações sociais?

Para o economista Jeremy Rifkin, “a transição para uma sociedade sem trabalhadores, a sociedade da informação, é o terceiro  e atual estágio de uma grande mudança nos paradigmas econômicos, marcado pela transição de recursos energéticos renováveis  para os não renováveis e de fontes de energia biológicas para as mecânicas. Ao longo de extensos períodos de história, a sobrevivência humana esteve intimamente vinculada à fecundidade do solo e às mudanças de estações.O fluxo solar, o clima e a sucessão ecológica condicionaram cada economia na terra. O ritmo da atividade econômica foi estabelecido com o aproveitamento da força do vento, da água, do animal e da capacidade  humana”.

É só lembrar que, com a Revolução Industrial, a escassez de energia, pelo corte predador das árvores que forneciam madeira para a construções naval e civil, para combustíveis, etc…, forçou a transição para uma fonte de energia disponível – o carvão. Nessa  época, é patenteada uma bomba a vapor para bombear o excesso de água das minas.

A união do carvão e das máquinas para produzir vapor marcou o início da era econômica moderna e sinalizou a primeira etapa de uma longa jornada para substituir o trabalho humano pela força mecânica.

È consenso que tivemos três Revoluções Industriais. Na primeira Revolução Industrial,  a energia movida a vapor foi usada para extração de minério, na indústria têxtil – força dinâmica da primeira  Revolução Industrial – e na fabricação de uma grande variedade de bens que antes eram feitos à mão.

A escuna foi substituída pelo navio a vapor, a locomotiva a vapor puxava os vagões de carga, até então, puxados a cavalo. Já se iniciava uma significativa melhora no processo de transporte de matérias primas e produtos acabados. Escreve Rifkin : “a nova máquina a vapor era uma  nova espécie de escravo, uma máquina cuja habilidade física excedia grandemente o poder, tanto dos animais quanto dos seres humanos”.

A segunda Revolução Industrial foi a competição, no campo energético, entre o petróleo e o carvão. A energia elétrica entra em cena, ampliando as alternativas para operar as fábricas, iluminar as cidades e proporcionar comunicação instantânea entre as pessoas. A transferência de carga da atividade econômica do homem para a máquina continuava. “Na  mineração, na agricultura, no transporte e na industrialização, fontes inanimadas de energia eram combinadas a máquinas para acrescentar, ampliar e, eventualmente, substituir mais e mais tarefas humanas e animais no processo econômico”. ( Idem)

A terceira Revolução Industrial emerge após a segunda guerra mundial e, somente agora, começamos a sentir o impacto no modo como a sociedade organiza a sua atividade econômica. Robôs com controle numérico, computadores e softwares avançados estão invadindo a última esfera humana – os domínios da mente. Adequadamente programadas, estas novas “máquinas inteligentes”são capazes de realizar funções conceituais, gerenciais e administrativas e de coordenar o fluxo de produção, desde a extração da matéria prima ao marketing e à distribuição do produto final e de serviços.

Após esse panorama comparativo, vamos à análise:

O homem sempre se organizou em função do trabalho. Do caçador/coletor paleolítico e fazendeiro neolítico ao artesão medieval e operário da linha de montagem atual, o trabalho tem sido parte integrante da existência diária. E isto é tão verdadeiro que criamos e desenvolvemos  toda uma cultura centrada no trabalho. Condicionamo-nos até a estigmatizar os que não trabalham.

Mas, as sofisticadas tecnologias da informação e da comunicação já nos permitem  antever a fábrica virtual. Por ironia, estamos mais próximos de Paul Lafargue do que do seu sogro, Karl Marx. Aí, já verificamos uma aguda contradição entre o caráter das forças produtivas ( fundamento tecnológico da produção) e as relações sociais de produção. Entretanto, não dá para afirmar que esta é a contradição primária).

Juntando-se a estas, aparecem outras contradições, como :

  • a “racionalização” do sistema financeiro, fundamentada na tecnologia, proporcionou uma substancial redução nos custos de operação, oriunda da dispensa da mão de obra, da agilidade e confiança nas operações. Como contrapartida, o mesmo sistema gasta algumas vezes mais para garantir a segurança;
  • a tecnologia da informação proporcionou um aumento significativo dos lucros, na medida em que possibilitou processar e controlar operações que ,pelo seu volume, jamais poderiam ser feitas sem ela. Parte considerável desse lucro foi e continuará sendo “mordida” por eventos como o “bug” do milênio e as ações dos Hackers;
  • hoje, já ‘possível projetar a fábrica virtual, operada e controlada por robôs ou tecnologias da informação, cercada por milhões de agressivos esfomeados que perderam seus empregos para as “máquinas”.;
  • há uma fortuna potencial relativa ao lixo gerado pela moderna sociedade que poderia ser racionalmente administrado não só em benefício dos excluídos, como também, em benefício da  qualidade do meio ambiente;
  • nunca a humanidade esteve tão próxima de promover a integral liberdade para os seres humanos, no mínimo, e, ainda assim, nunca houve uma época com  tanta incerteza;
  • a tecnologia promove uma abundância perigosa, pois traz consigo o desemprego tecnológico e a demanda ineficaz do consumidor. Num mundo em que os avanços tecnológicos prometem aumentar dramaticamente a produtividade e a produção de bens, ao mesmo tempo em que marginalizará ou eliminará do processo econômico milhões  de consumidores, a mágica da tecnologia parece ingênua, insensata até.

As evidências são preocupantes. Sabidamente planejamento e sistema capitalista não se combinam, o que acaba contribuindo para potencializar as preocupações.

Entretanto, a finalidade desta palestra não é propor soluções alternativas para o mundo. Faltam-me engenho e arte para tal. Mas sobram-me consciência e vontade para participar de uma busca  compartilhada.

Então o que e como fazer?

Aqui há uma tentativa de proposta,que vai buscar na experiência histórica o norte da ação transformadora. Sem a história, é impossível entender o que se passa no mundo, pois ela possui uma estrutura e um padrão que nos permitem verificar de que modo os vários elementos reunidos no interior de uma sociedade contribuem para  a deflagração de um dinamismo histórico ou, inversamente, não conseguem provocar tal dinamismo.

Sabemos que determinada etapa histórica não é permanente e a sociedade humana é uma estrutura bem sucedida porque é capaz de mudança; o presente, não é o seu fim.

O exemplo da burguesia revolucionária, que foi sábia o suficiente para reunir todos os ingredientes que possibilitaram o salto de qualidade, deve ser seguido, devidamente relativizado. Somos a única instituição no mundo capaz  de se apresentar diante da história como agentes catalisadores da mudança, sem que confundamos nossas ações com as ações próprias de um partido político. Na minha avaliação a maçonaria está acima e além da luta de classes. Ela e só ela!

Por sermos universais, podemos promover vários ensaios, encontros, congressos, etc… com todas as grandes inteligências do mundo, presentes na instituição. Se não estiverem, nós as traremos. Aqui é o lugar delas.

Poderemos forjar novas lideranças mundiais a partir de nossas lojas universitárias. Deveremos ir aos parlamentos, forças armadas, Academia, etc… e buscar todos que se sentem compromissados perante o desafio de promover a necessária harmonia entre os elementos que formam a complexa tessitura  de nossa marcha evolutiva. A exigência será a vocação para Homem-Humanidade. E , hoje, ser Homem-Humanidade é sonhar com um ordenamento social que desempenhe a função histórica de ultrapassar  a emancipação provocada pela Revolução Francesa, superando os seus limites, isto é, criar uma emancipação universalmente humana e não apenas a de uma classe.

Um congresso do GOSP talvez ajudasse a criar os mecanismos necessários para iniciar nossa trajetória, ao contribuir para a formação de uma massa crítica, tão distante de nós. Mas já poderíamos inicia-la seguindo a orientação do Ir.: Onias de procurar inserirmo-nos e participarmos de Associações de Moradores, Sindicatos, Partidos Políticos, Conselhos Regionais, etc… Até porque a história nos ensina que as conquistas sociais se deram em função de uma estreita aliança com as massas populares.

Quanta experiência acumularíamos e que nos ajudaria a encontrar as variáveis que promovessem uma requalificação interna dos obreiros, definissem um perfil dos futuros candidatos e possibilitassem combinar internamente nossa disponibilidade de tempo, de tal ordem que as poucas horas disponíveis de um obreiro, multiplicadas pelo número de obreiros fossem suficientes para continuar a jornada racionalmente, isto é, sem os expontaneísmos. Poderíamos, aí, definir objetivos e as velocidades para alcança-los.

Continuaremos fora da ribalta, fora do foco das atenções, onde se desenrolam os dramas da vida, até por que os bastidores são a especialidade da casa!

Mas, se em alguma Loja Maçônica do futuro,  nossos IIr.: fizerem referência às ações dos IIr.: do passado, que não permitiram que se apagasse a chama do compromisso histórico de participar da criação de um ordenamento social fundado nos princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, com certeza eles estarão falando de nós.

BIBILOGRAFIA

  • História da Riqueza do Homem – Leo Huberman – Ed Zahar;
  • A Evolução do Capitalismo – Maurice Dobb – Ed Zahar;
  • A Revolução francesa – Albert Soboul – Ed Zahar;
  • A Interpretação Social da Revolução Francesa – Alfred Cobban – Ed Gradiva;
  • 1789, O Emblema da razão – Jean Starobinsky – Cia das Letras;
  • Os Best Sellers proibidos na  França Pré Revolucionária – Robert Darton –Cia das Letras;
  • Princípios Fundamentais de Filosofia – Pulitzer – Ed hemus;
  • Evolução do Pensamento Econômico – Paul Hugon _EASA;
  • Pensar a Revolução Francesa – François Furet – Edições 70;
  • A Revolução Francesa – Manfred –Ed Arcádia;
  • História da Filosofia – G.Realis/D.Antiseri – Ed Paulus;
  • Discurso sobre A Origem e Fundamentos da Desigualdade entre os Homens – Jean Jacques Rousseau – lb 140;
  • A Revolução Francesa – Carlos Guilherme Motta;
  • A Era dos Extremos – Eric Hobsbawn – Cia das Letras;
  • Marat, O Amigo do Povo – Gerard Walter – Ed Vecchi Ltda;
  • O Novo Século – Eric Hobsbawn – Cia das Letras;
  • Dicionário Crítico da Revolução Francesa – F.Furet/M.Ozouf – Ed Melhoramentos;
  • O Fim dos Empregos – Jeremy Rifkin – Ed Makron;
  • O Furturo do Capitalismo – Lester Turow – Ed Rocco;
  • A Dialética do Concreto – Karel Kosek – Ed Paz e terra.
  • O Iluminismo como Negócio – Robert Darton – Cia das Letras