sábado, 7 de julho de 2012

A escola



Colégio Comercial Cônego José Viana,
de 1928 - Sousa (PB)

A escola


Escrito por Rui Bandeira
 

Uma Loja maçônica deve ser também uma escola. Uma escola diferente.

Não propriamente um local onde se ensina matéria única para alunos múltiplos. Antes um meio de proporcionar a cada elemento, que é ÚNICO, porque diferente de todos os outros, os meios, o ambiente, à vontade, a orientação, para que ele apreenda (mais do que simplesmente aprenda...) os múltiplos ensinamentos éticos e morais que a vida nos ilustra e exige que um homem verdadeiramente de bem pratique.

A Loja maçônica é uma escola que não ensina. Pelo menos, nada ensina de novo. Ou nada que não possa ser aprendido noutros locais, noutras escolas, em livros, publicações, etc.. No entanto, é um lugar onde se aprende.

Aprende-se porque não se limita a ouvir uma palestra ou lição. Aprende-se porque se vivem as situações que demonstram ou sugerem os princípios ou ensinamentos éticos ou morais que se tornam patentes até perante os olhos mais distraídos.

Aprende-se porque não é exibido ou induzido um pensamento único, uma formatação, antes se facultam painéis de onde cada um retira elementos para que seja a sua própria inteligência, a sua própria vivência, a sua própria personalidade a formular o conceito, a integrar o pensamento.
Escola

Aprende-se - sempre! Mesmo quando se "ensina". Sobretudo então. Porque, ao apontar ao Aprendiz um símbolo, ao fornecer-lhe pistas para que ele o interprete, ao executar o ritual para evidenciar um dado ensinamento ético ou moral, o Mestre está, por sua vez, ele próprio a aprender.

Aprende-se com o auxílio dos Mestres. Mas estes também aprendem com o auxílio dos Aprendizes e Companheiros. Não há alunos e professores. Há iguais descobrindo em conjunto como cada um pode ser melhor.

Aprende-se, aprende-se mesmo, coisas novas, porque a maçonaria procura pôr em prática o ideal iluminista em relação ao conhecimento. E, portanto, todos sabem que, por muito que saibam, muito mais desconhecem e podem aprender. Cada um contribui com a sua área de conhecimento para ilustração dos demais. E assim todos podem aprender um pouco de (quase) tudo. E quanto mais diversificada for a Loja, mais se pode aprender.

Por isso, em Loja tanto valor tem o Professor Doutor como o operário ou o indiferenciado. Aquele proporciona ensinamentos a estes - mas também destes recolhe ensinamentos, que complementam a sua profunda formação.

Em Loja, cada um põe em comum o que sabe e retira do bolo comum o que precisa saber, da forma como lhe dá jeito retirar, ao ritmo a que lhe é possível retirar. Por isso em Loja não há ideologias incensadas ou proscritas ou recomendadas, não há conceitos únicos ou favorecidos ou aconselhados. Há um meio, um espaço e um tempo para cada um se melhorar a si próprio, aprendendo com os demais os que tiverem de aprender, seguindo os exemplos que entender dever seguir.

Em Loja, homens livres e de bons costumes cultivam a Liberdade e, em espírito de Igualdade, Fraternalmente cooperam, no sentido de todos e cada um, permanecerem livres, em si mesmos e de preconceitos e de vícios, e sejam cada vez de melhores costumes.

Na escola que é a Loja maçônica, aprende-se e ajudam-se os outros a aprender. Mas - sobretudo! - vive-se!






sexta-feira, 6 de julho de 2012

O maçom e a Religião



O maçom e a Religião



A Maçonaria não é uma religião. Mas a Maçonaria Regular lida com a espiritualidade e, nesse sentido, atende inevitavelmente à concepção religiosa dos seus obreiros.

Tal como em relação à Política, é vedada, no seio da Maçonaria Regular, toda a discussão ou controvérsia religiosa. Mas, sendo uma agremiação em que apenas são admitidos crentes, obviamente que a espiritualidade, em geral, e as convicções religiosas, em particular, são objeto da atenção dos maçons.

Como procedem então os maçons para satisfazer o seu interesse na espiritualidade e nas convicções religiosas sem violar a proibição de discussão ou controvérsia religiosa?

De uma forma espantosamente simples e de uma eficácia comprovada ao longo de centenas de anos: estabeleceram o denominador comum e, para além dele, deixam ao íntimo de cada um as respectivas opções.

O maçom Regular é crente num Criador do Universo. Esse o denominador comum. Quais as características, poderes, atuações, propósitos, intervenções, etc., do Criador do Universo - isso é matéria do foro íntimo de cada um. Cada um crê no Criador tal como o concebe, tal como a religião que pratica o levou a entender, aceitando ou discordando que tenha a característica A ou B, o poder X ou Y, que atue no Universo criado, e como, ou não atue, com plano específico ou sem ele, com ou sem intervenções concretas. Isso é com cada um e ninguém tem nada com isso - portanto, não se discute.

As religiões monoteístas têm diferentes designações para o Criador: Jeová (ou Javé), Allah, Deus... Ao longo da história, homens mataram homens em insanas guerras, uns lutando por Deus e outros por Allah, outros ainda invocando Jeová - todos estupidamente esquecendo, ou escondendo, ou não atendendo, que essas são todas designações que os humanos dão à mesma Entidade...

Como resolvem os maçons esta questão? Sempre com a mesma eficaz simplicidade: coletivamente, designam o Criador por uma denominação que - mais uma vez - é um denominador comum - Grande Arquiteto do Universo. E cada um, no seu íntimo, perante a sua religião, designa-o como entende.

No entanto, seria estulto não reconhecer que a religião condiciona a cultura de homens e de sociedades. A cultura judaica resulta de manifesta influência da religião judaica. O mesmo se pode referir em relação à cultura e religião islâmica e, ressalvadas as assinaláveis diferenças internas, à cultura e religião cristãs.

Como conciliar estas diferenças? Ainda e sempre, com a eficaz simplicidade que resulta da Tolerância e da Harmonia: o meu Irmão é, enquanto individualidade, importante para mim, como eu sou para ele - não importam as diferenças culturais ou de pensamento religioso. Tal como não faria sentido distinguir entre louros e moremos, entre os que têm olhos azuis e os que os têm castanhos, entre os que são altos e os que são baixos, não faz sentido distinguir entre os que professam a religião A ou a crença B.

Pelo contrário, é muito mais frutuosa a cooperação, a interajuda dos diferentes. O louro reage melhor ao frio, o moreno suporta melhor o sol - distribuamos tarefas aproveitando essas diferentes potencialidades. O de olho azul vê melhor com pouca luz e o de olho castanho tem olho de águia com a mais intensa luminosidade - atribuamos esforços tendo isso em conta. Os altos arrumam melhor as prateleiras e os baixos encontram melhor o que está no fundo dos armários baixos - aqueles que tratem das prateleiras, enquanto estes se ocupam dos armários...

Ainda e sempre, o que os maçons há muito aprenderam e diariamente aplicam é que a diversidade é uma riqueza, uma vantagem, não um ônus, não algo que se deva corrigir.

Portanto, não me interessa a religião específica de meu Irmão. Basta-me a nossa crença comum no Grande Arquiteto do Universo. Este plano comum é apto e suficiente à nossa vivência em comum da espiritualidade. Não perdemos tempo em discutir as diferenças, não entramos no que seria um infantil jogo de "o meu Deus é mais poderoso que o teu" (afinal, é o mesmo...), "a minha maneira de ver o meu Deus lava mais branco do que a tua" (afinal, o que realmente importa é como cada um se aperfeiçoa, melhora, se dignifica na sua passagem por esta vida e se prepara para o Mistério que está para além do Oriente). Achamos que é muito mais útil, mais eficaz, mais inteligente, retirarmos da vivência espiritual do outro as lições e as técnicas e os princípios que nos sejam úteis para melhor aperfeiçoarmos a nossa própria vivência. E, ao mesmo tempo, abrirmos ao outro a nossa própria vivência espiritual, para que o outro dela retire e aprenda e utilize o que para ele seja mais útil.

No fim de contas, se fôssemos todos iguais, se pensássemos todos da mesma maneira, se professássemos todas idênticas convicções religiosas - o que é que cada um podia aprender com os demais? Mais do mesmo?

Para o maçom, a religião, as diferentes religiões não são pomos de discórdia, de discussão, de controvérsia. São oportunidades de diálogo, de aprendizagem, de cooperação no crescimento de cada um.

E isto, meu caro leitor, os maçons praticam-no em Loja e procuram também assim o fazer fora de Loja, entre si e com todas as demais pessoas. Com a certeza que, se algum dia se conseguir que todos identicamente se comportem, o Mundo será muito melhor!



In Blog "A Partir Pedra" - Texto de Rui Bandeira


quinta-feira, 5 de julho de 2012


TRÊS PONTOS
 
 
A seguir, extraída parte de esclarecedora Palestra do Valoroso Irmão Marco Antonio Mello Raposo Mestre Maçom da Loja Vale do Piabanha/GLERJ proferida na Loja Jesus Cristo no Rio de Janeiro.
Num passado bastante remoto, nossa instituição apresentava-se como contraponto às tiranias, aos entraves à roda evolutiva econômica e social, e aos desmandos da Igreja Católica em sua busca por um poder cada vez maior sobre os povos e sobre os Estados; enfim tratava-se de uma instituição que incomodava aos déspotas poderosos de então. Por isso ela era sempre mantida na linha de fogo da polêmica e da controvérsia.
Nunca a maçonaria foi tão atacada e vilipendiada pela Igreja e perseguida pelos Estados como naquela época.
Mas, apesar disso, ela fazia a roda da vida da humanidade girar. As renomadas personalidades que compunham a instituição naqueles tempos lhe trazia prestígio e respeito, não só por serem nomes que detinham poder, mas principalmente por se tratar de homens de coragem, com a firme determinação de combater tudo aquilo que representasse ameaça à paz, à soberania e a justiça social.
Lamentavelmente, tudo isso transformou-se em relíquias de um passado remoto.
Entretanto, meus Irmãos, parece que o processo cíclico que faz girar a roda da vida está nos impelindo em direção do renascimento daquela gloriosa fase de nosso passado. Nada ocorre ao acaso. Tudo na vida tem seu momento próprio de nascer, morrer, renascer, num contínuo ciclo evolutivo.
É chegada a hora de mais um renascimento! Portanto, meus Irmãos, não desprezemos a disposição de mais de 100.000 Irmãos espalhados pelo País em querer a inserção de nossas instituições numa luta clara e frontal pela busca de um futuro mais digno para nossa Nação, tendo nossos atuais dirigentes à frente desse processo, comandando-nos e orientando-nos conforme as luzes de suas sabedorias.
Preparamos, para o atingimento desse objetivo, uma estratégia inicial que esperamos venha a ser gradativamente enriquecida pelos Irmãos que forem aderindo ao propósito estabelecido, e vislumbrem novas ações que possam aprimorá-la.
Conclusão
Temos o dever moral de honrar as nossas mais nobres tradições e dar início a um processo que contribua, de forma incisiva, para a correção dos rumos atuais em defesa de nossa
Pátria, de nossos lares, de nossas famílias e, pela busca do Bem Comum.
No Ritual do Aprendiz Maçom durante a abertura dos trabalhos, quando o Venerável Mestre pergunta “para que nos reunimos aqui Irmão 1º Vigilante?”, ele então responde: “para combater a tirania, a ignorância, os preconceitos e os erros, e glorificar o Direito, a Justiça e a Verdade; para promover o bem estar da Pátria e da Humanidade, levantando Templos à Virtude e cavando masmorras ao vício.”
Meus estimados Irmãos, vamos então dar cumprimento ao determinado em nosso Ritual! Vamos romper com essa inércia! Vamos dar um basta nessa sujeira que emporcalha a Nação!
Vamos mostrar a nossos filhos e netos que um dia esse País poderá vir a ter governantes dignos, honestos, capazes e comprometidos com ideais mais elevados! Mostremos a esse País que além de Maçons somos brasileiros, e que em nossas veias corre sangue!
Prostar-se indignado sem nada fazer é estar conivente com a disseminação dos vermes que contaminam as entranhas dos poderes constituídos!
Lá está nossa Bandeira! Nosso símbolo maior! Símbolo de luta e de esperança. Não a desapontemos! Não adianta só criticar tudo o que vem ocorrendo de errado com nosso País.
É chegada a hora de perguntarmos para nós mesmos: o que podemos e devemos fazer por ele?
Para atingirmos tal propósito necessitamos disciplina, perseverança e tenacidade. Não podemos continuar inertes, deixando que escorra por nossas mãos a grande oportunidade de resgatarmos os mais nobres legados da maçonaria universal. Já deixamos passar preciosas oportunidades de levar adiante um trabalho sério que só engrandeceria a Instituição a qual pertencemos; que só nos dignificaria e nos enobreceria; que só nos abençoaria com o orgulho de sermos simplesmente Maçons.
Transformemos esta noite de 6 de outubro de 2009, num marco que simbolize o início de nossa caminhada rumo ao resgate de nossos consagrados valores e de nossa verdadeira identidade. Que o GADU nos abençoe nos combates do porvir.
Que sejamos um só corpo, um só espírito, um só coração na luta por uma Maçonaria mais presente, mais ativa e mais afeta aos destinos de nossa Nação. Que a história da Maçonaria brasileira venha, no futuro, orgulhar-se de todos nós.
O que procurei trazer na noite de hoje foi uma opinião livre de vícios e preconceitos e suficientemente honesta e sincera, para me expor a atrair sobre mim toda a sorte de interpretações e sentimentos.
Entretanto, meus Irmãos, estejam certos de que desejo, apenas, o bem estar de nossa Pátria herdamos denso legado de Irmãos que nos antecederam numa jornada rica em Instituição. Por elas sonharei, enquanto me for permitido sonhar; por elas lutarei, enquanto me for permitido lutar e por elas tombarei, se preciso for tombar.
Nunca nos esqueçamos, meus Irmãos, de que ninguém é tão pobre que nada tenha a dar, nem tão aquinhoado pela vida que nada tenha a receber, nem tão bruto que nada possa ensinar ou tão sábio que nada reste aprender. Dobremo-nos humildes e esperançosamente ante o golpe do Maço do Criador e sujeitemo-nos à orientação de Seu Cinzel, para que mereçamos compor a Grande Obra da Criação. E, se um dia encontrarmos as trevas da decepção em nossa jornada maçônica, não nos quedemos como tantos insensatamente o fazem, amaldiçoando a escuridão.
Acendamos as luzes dos nossos espíritos, e iluminemos o caminho daqueles que se deixaram ficar. Que sejamos um elo que se funde à cadeia infinita que une todos os Maçons do universo na Divina Tarefa.
Colocamo-nos, em nossa Loja, à disposição de todos os Irmãos que acreditem ser possível reescrever a nossa história.
Venerável Mestre, agradecemos a oportunidade que nos foi confiada, e coloco-me à disposição de todos os Irmãos aqui reunidos para um profícuo debate sobre o que acabamos de apresentar.
Muito obrigado pela atenção dispensada pelos queridos Irmãos.
Marco Antonio Mello Raposo Mestre Maçom
A Maçonaria e o Contexto Nacional
 

 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

INTEGRIDADE MORAL, A PEDRA DE TOQUE




INTEGRIDADE MORAL, A PEDRA DE TOQUE



A prova final da sinceridade e seriedade de uma diretoria é dada pela importância que inflexivelmente atribui à integridade do caráter. É isso, acima de tudo, que devem simbolizar as decisões que a direção toma sobre o seu pessoal. Porque é através do caráter que se exerce a liderança; é o caráter que fixa o exemplo a ser imitado. O caráter não é algo que o diretor possa comprar; se não o trouxer consigo para seu posto, jamais o terá. Não é algo a cujo respeito se possa enganar os outros. Em poucas semanas, a pessoa com quem o diretor trabalha, especialmente as que lhe são subordinadas, saberão se ele possui ou não integridade de caráter. Elas são capazes de perdoar uma série de coisas: a incompetência, a ignorância, a insegurança e até a má educação. Jamais, porém, perdoarão a falta de caráter. Nem perdoarão a administração superior a nomeação de um tipo desses.

A integridade moral pode ser difícil de definir, mas aquilo que constitua uma falta de integridade tão séria que desqualifique alguém para um posto de direção certamente não o é. Quem costuma concentrar-se mais nos defeitos das pessoas do que em suas qualidades não deve ser escolhido para dirigir pessoas. O gerente ou encarregado que sempre sabe dizer exatamente o que as pessoas não são capazes de fazer, mas que nunca enxerga aquilo de que elas são capazes de fazer, estará minando o espírito da sua organização. É claro que todo chefe deve ter uma noção nítida das limitações dos seus subordinados, mas deve encará-las como limitações àquilo que eles possam fazer e como obstáculos a superar. O chefe deve ser realista; e ninguém é menos realista do que a pessoa que não acredita em coisa alguma.

Quem sempre se preocupa mais em apurar “quem é que está certo e quem é que está errado” do que “que é que está certo e que é que está errado” não deve ser nomeado. Colocar o personalismo acima das exigências do serviço é corrupção e corruptor. A pergunta “Quem é que está certo”? Leva as pessoas a evitar o risco, quando não a “fazer política”.

A diretoria não deve elevar a postos de chefia quem colocar a inteligência acima da integridade moral. Isso é imaturidade – e geralmente incurável. Jamais deve promover quem tenha mostrado medo em relação a algum subordinado capacitado. Isso é sinal de fraqueza. Jamais dever colocar em posto de direção alguém que deixe de fixar padrões elevados para a sua própria atuação. Pois isso gerará desprezo pelo trabalho e pela capacidade diretora.

A pessoa pode conhecer-se mal, trabalhar mal, ser desprovida de critério e capacidade, e ainda assim não causar grandes danos como chefe. Porém, ela certamente será perniciosa se não tiver caráter e integridade moral – por maiores que sejam seus conhecimentos, seu brilhantismo e seu êxito. Ela destruirá as pessoas, o recurso mais precioso que a empresa possui. Destruirá o espírito. E destruirá o desempenho.

Isso se aplica de modo especial às pessoas que dirigem as empresas. Porque o espírito da organização é gerado a partir de cima. Se a organização for grande em espírito, será porque o espírito de seus dirigentes é grande. Se ela degenerar, será porque a administração apodrece. Como diz o provérbio, “As árvores morrem de cima para baixo”. Nenhuma pessoa deverá ser designada para ocupar posto de importância se a alta administração não estiver disposta a ver seu caráter sendo tomado para modelo de seus subordinados.



DRUCKER, Peter Ferdinand. Introdução à Administração. 3.ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2002. p. 463-465

terça-feira, 3 de julho de 2012

A FRATERNIDADE MACÔNICA UNIVERSAL

A FRATERNIDADE MACÔNICA UNIVERSAL

O mundo todo é uma Fraternidade Universal onde cada nação é uma família e cada indivíduo um filho.
Lembrando o compromisso de estendermos e liberalizarmos os laços fraternais que nos unem “ a todos os homens esparsos pela superfície da terra”, a inquebrantável e proverbial união dos maçons é produto da prática desinteressada da fraternidade em nossas colunas e em todos os escalões maçônicos, alcançando o mútuo relacionamento em sua totalidade.
A fraternidade humana é a origem da Ordem, é sua finalidade maior e é o meio de sobrevivência da Organização século após século. O enfraquecimento do espírito fraterno leva diretamente à decadência da Loja ou do órgão maçônico em que se manifeste. O espírito de fraternidade garante a harmonia dos obreiros em torno do seu Venerável; a coesão das lojas em torno do seu Grão-Mestre.
Só a harmonia, a coesão e a união dos maçons podem formar e manter, como têm mantido o bloco indissolúvel de homens valorosos, livres e dotados de alta moralidade, capazes de congregados por um ideal, indicar o caminho a ser trilhado pela sociedade em busca de um mundo melhor.
Inimiga do “ sectarismo político, religioso e racial ”, a Ordem Maçônica reconhece o amor fraternal como o óleo precioso que lubrifica toda a sua engrenagem, como o cimento que liga o coração dos Iniciados, mas também como a poderosa energia interna que a unifica com a Humanidade.
Fraternidade - é uma associação fraterna usada para demonstrar que todos os homens podem conviver como se fossem Irmãos da mesma carne; designa o parentesco entre Irmãos; a união, a amizade, o afeto de Irmão para Irmão; o amor que deve unir todos os membros da espécie humana; a união ou convivência como a de Irmãos; a boa amizade, a harmonia. A Maçonaria é uma fraternidade, uma associação fraternal, onde existe a união e a convivência como a de Irmãos. Portanto, tratar alguém de Irmão é tratar de igual para igual, é querer para ele o mesmo que desejamos para nós, mas é necessário que essa palavra Irmão saia do fundo de nosso coração e seja real, sincera e fraterna.
Ao estudarmos o conceito de Fraternidade, não deveremos considerá-lo isoladamente. Cremos estar sobreposto aos conceitos de Liberdade e Igualdade. A trilogia Liberdade, Igualdade e Fraternidade estão intimamente integradas. Portanto, limitados ao espaço de duas páginas, os conceitos Igualdade e Liberdade serão desenvolvidos posteriormente.
Pois o mais importante objetivo da Maçonaria, a Fraternidade é a condição na qual nos identificamos mutuamente como Irmãos, agindo como se fizéssemos parte de uma mesma grande família. Isto, no entanto, não é suficiente para que possamos compreender o verdadeiro sentido da fraternidade. Ser membro de uma mesma família não nos torna automaticamente mais próximos e amorosos uns dos outros. Assim, o principal dever de um Maçom, em relação aos seus Irmãos em Maçonaria, é a amizade, o afeto, a união, o carinho, ou seja, tudo aquilo que a verdadeira fraternidade exige. O mesmo dever s e apli ca em relação a toda a humanidade, pois o amor ao próximo é um dos basilares preceitos maçônicos.
Em uma família numerosa, com muitos filhos, esses não constituem uma Fraternidade, mas uma família, pois os pais são incluídos no grupo. Maçonicamente interpretando, a Fraternidade apresenta-se de vários modos: a Fraternidade de uma Loja; a Fraternidade em uma Ordem; a Fraternidade Universal. A Fraternidade Universal abrange os maçons em vida e os que já se encontram no Oriente Eterno, ou seja, os que " partiram ", os que " desencarnaram", os mortos.
A Ordem não se assemelha a qualquer sociedade profana, pois, para pertencer à Maçonaria o candidato deve passar por uma iniciação.
A Fraternidade requer um espírito elevado implicando em obrigações e direitos; a parte ética e de comportamento é muito importante. São admitidas pequenas rusgas, como sucede dentro de uma família, mas com a obrigação de serem passageiras. O maçom tem o dever de tolerar esses incidentes e perdoar se eles tiverem sido mais intensos.
O maior objetivo da Maçonaria é apagar dentre os homens o preconceito de casta, distorções de cor, de origem, evitar o fanatismo, a discórdia e com isso extinguir as guerras e chegar ao progresso universal, no qual cada ente humano tenha a liberdade de desenvolver toda a capacidade de que é dotado. Unido pela afeição, a sabedoria, o trabalho e a fraternidade, para que seja impossível para um Irmão prejudicar outro.
Devemos abster-nos cuidadosamente de depreciar qualquer irmão, por maior que seja a sua falta, não devemos permitir em nossa boca uma só palavra contra nossos semelhantes . Para alcançar a Fraternidade entre os homens, em que todos os homens livres e de bons costumes, sejam quais forem as difere n ças de credo político ou religioso, de nacionalidade, raça, cor ou condição social, transformando a Humanidade em uma Grande Fraternidade.
Efetivamente, na grande família humana, cada homem está, em relação aos seus semelhantes, na mesma situação de um irmão em relação a outro irmão no seio da mesma família. Tendo recebido a existência do mesmo Deus, tendo os mesmos deveres e direitos, visto terem sido criados com as mesmas faculdades, e obrigados a um mútuo concurso para levarem a sua natureza ao mais alto grau de perfeição de que sejam capazes, os homens devem, sem quaisquer das distinções que os dividem, ter uns para com os outros um afeto fraterno, auxiliando-se mutuamente no cumprimento de sua tarefa.
A experiência nos ensina que somos todos solidários física e moralmente. A Maçonaria tornou a Fraternidade um de seus grandes lemas.
A Ordem Maçônica se considera uma enorme Irmandade, espalhada sobre a superfície do globo e “ como é bom e suave habitarmos em Irmãos que vivem em união”.
Só convertendo os homens em Irmãos e praticando todos, diariamente, a autêntica Fraternidade, é como se poderia alcançar a verdadeira solidariedade em que se radica a perfeição do homem. Esta ação mutua esta sublime Irmandade, na qual cada um deve viver para com todos e todos para cada um, é um dos princípios fundamentais, que todo Maçom se obriga a não somente ensinar, mas aplicar praticamente em sua vida.
Vivemos a verdadeira fraternidade maçônica quando, em primeiro lugar, somos gratos por conviver em união com nossos Irmãos que nos ajudam através das Instruções ritualísticas, a moldar nosso temperamento, estimular nossa inteligência e nossos sentimentos, formar nossa personalidade e caráter.
Vivemos a fraternidade maçônica ainda mais quando aprendemos a retribuir a companhia de tantos Irmãos de luta, oferecendo horas de lazer e convivência familiar em favor do bem de nossa Loja, comparecendo semanalmente às reuniões. Também somos fraternos quando guardamos para nós mesmos nossos problemas e aborrecimentos, para apenas compartilhar as alegrias e sucessos.
A fraternidade não é apenas um ideal coletivo a ser buscado. Benefícios pessoais são obtidos quando somos fraternos. Naturalmente estamos nos referindo a benefícios espirituais, especialmente o amadurecimento da alma que vive cada vez mais a identidade do " eu " com o " outro ", o que nos coloca numa rota de aproximação direta com Deus.
E sendo todos Irmãos, primeiro por origem e depois por ideal, a fraternidade pode ser nossa bússola para a felicidade.
Busquemos meus caríssimos Irmãos, essa tão propalada, embora não tão praticada, Fraternidade, que só pode ser alcançada se os Maçons forem Livres, sobretudo nas idéias, e iguais por se reconhecerem como extensões uns dos outros. O Livre e Igual será Fraterno, não por imposição estatutária, mas por vocação de sua abordagem filosófica face à vida.
Não devemos, porém, confundir Fraternidade com Perfeição . O homem pode ser fraternal e não ser perfeito, mas não poderá ser perfeito sem ser fraternal.
Valdemar Sansão - M. '. M.'.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

ESCOLAS DO PENSAMENTO MAÇÔNICO


ESCOLAS DO PENSAMENTO MAÇÔNICO

Por: Roberto Bondarik

RESUMO: O presente texto procura demonstrar as diferentes Escolas de Pensamento Maçônicas, e a sua influência nas diferentes concepções e conceitos sobre as origens e as influências recebidas e exercidas pela Ordem Maçônica ao longo da História.

A Ordem Maçônica ou simplesmente Maçonaria[1], quer enquanto ordem coletiva, quer através da ação isolada de seus membros, imbuída de valores iluministas, contribuiu para o processo de independência do Brasil e também para o processo de separação da Igreja e do Estado Brasileiro. Contribuiu para o processo a laicização[2] deste e da sociedade brasileira do século XIX e também para a difusão e a afirmação das idéias de cunho liberal e libertário.

A Maçonaria teve um papel fundamental e essencial em quase todos os movimentos de emancipação política e independência de praticamente todo o continente americano, e na luta contra o absolutismo monárquico, surgidos nos séculos XVIII e XIX, época em que o mundo estava passando por grandes e inúmeras transformações políticas e sociais. Nesta época, movimentos como a independência dos Estados Unidos da América, a Revolução Francesa difundiam idéias de liberdade política e emancipação que se disseminavam através de toda a América Espanhola[3] e América Portuguesa, ou seja o Brasil (CASTELLANI: 1992, p. 32-34)

Sobre a Maçonaria, é importante em primeiro lugar procurar defini-la e conceitua-la, tarefa um tanto difícil, pois nos cabem diversas definições e principalmente opiniões sobre suas origens. Opiniões estas nem sempre fundadas em fatos concretos, documentos ou opiniões concretas que possam ser apontados como autênticos do ponto de vista histórico. Estas diversas definições abrangem os diversos aspectos da Maçonaria, destacando segundo seus defensores os segmentos que mais lhes convém como os campos político, filosófico, econômico e também esotérico, religioso ou mesmo iniciático.

Sobre as origens da Maçonaria, Joaquim Gervásio de Figueiredo, historiador e pesquisador maçom, em seu "Dicionário de Maçonaria", fez uma importante citação de um texto relacionado pertencente a obra "Pequena História da Maçonaria" escrito por C. W. Leadbeater e publicado pela Editora Pensamento, o texto versa sobre as quatro "Escolas do Pensamento Maçônico", que congregam os diferentes escritores e pensadores, estudiosos e historiadores da Maçonaria e conseqüentemente o universo dos maçons:

" ... As origens da Ordem Maçônica se perdem nas brumas da Antigüidade. Sendo que os escritores maçônicos do século XVIII especularam sua história sem o devido espirito critico ou cientifico, baseando seus conceitos em uma crença literal na história e na cronologia do Antigo Testamento, e nas lendas curiosas da Ordem, oriundas dos tempos operativos das Antigas observâncias ou Constituições ..."[4]



Continuando com a citação do Dicionário de Maçonaria, aponta-se que no século XIX, também alguns autores apontavam origens remotas ou bíblicas para a Maçonaria

"... O Dr. Oliver (...) chegou a escrever que a Maçonaria, tal qual a temos hoje, é a única verdadeira relíquia da religião dos patriarcas (hebreus) antes do Dilúvio, ao passo que os antigos Mistérios do Egito e de outros países, que tão estreitamente se assemelhavam a ela, foram apenas corrupções da única e pura tradição ..."[5]



Reforçados pela difusão dos princípios iluministas, que fortaleceram as idéias e posições da Ordem, o pensamento científico e racional também ganha espaço entre os maçons. Com base na necessidade de se comprovar historicamente e documentalmente suas origens que puderam ser aos poucos estudadas a luz das ciências[6] e do conhecimento

" ... A medida em que os conhecimentos científicos e históricos progrediram em outros campos de pesquisas, e especialmente na análise critica da escrituras (BIBLIA), os métodos científicos foram gradativamente sendo aplicados ao estudo da maçonaria, de sorte que atualmente existe um vasto acervo de informações positivamente exatas e das mais interessantes sobre a história da Ordem ..."[7]



Basicamente, podemos apontar que então, as linhas de investigação e estudo sobre as origens da Maçonaria dividem-se em quatro principais escolas ou tendências de pensamento:

"... existem quatro principais escolas ou tendências do pensamento maçônico, ainda não necessariamente definidas ou organizadas como escolas, porém agrupadas, segundo suas relações, a quatro importantes departamentos de conhecimento, primitivamente não incluídos no campo maçônico (...) cada um deles tem seus próprios cânones de interpretação dos símbolos e cerimônias maçônicos, conquanto seja claro que muitos dos modernos escritores maçônicos são influenciados por mais de uma escola..."[8]



Levando em consideração que todas estas quatro escolas influenciaram e ainda influenciam, de uma maneira ou de outra praticamente todos os escritores e historiadores maçônicos, faz-se necessário portanto que destaquemos cada uma delas, bem como as suas características mais importantes, pois de seu conhecimento dependerá toda a interpretação das idéias e feitos dos membros da maçonaria nos diversos eventos e acontecimentos que sucederam-se ao longo da História.

A primeira das escolas a serem retratadas aqui é a "Escola Autêntica", que tranqüilamente poderíamos também chamar de Escola Histórica:

" (...) surgiu na Segunda metade do século XIX , em resposta ao desenvolvimento do conhecimento crítico em outros campos. As antigas tradições da Ordem foram minuciosamente examinadas à luz de documentos autênticos ao alcance do historiador. Empreendeu-se uma enorme soma de pesquisas nas atas da Lojas e em documentos de todas as espécies tratando do passado e do presente da Maçonaria em arquivos de municipalidades e povoações, em decretos e sentenças judiciais (...) consultaram-se e classificaram-se todos os arquivos acessíveis (...) uma vasta soma de material de permanente utilidade para os estudiosos de nossa Ordem tornou-se assim acessível graças ao labor dos cultores da Escolas Autêntica.

(...) Numa sociedade secreta como é a maçonaria, há de haver muita coisa que jamais foi escrita, mas apenas transmitida oralmente nas Lojas, e assim os documentos e registros têm apenas um valor parcial (...) a tendência desta escola é, portanto, muito naturalmente fazer a Maçonaria derivar das lojas e Guildas operativas da Idade Média, e fazer supor que os elementos especulativos foram enxertados no tronco operativo (...) se pudermos admitir que o simbolismo (...) da Maçonaria é anterior a 1717, não haverá, praticamente, limites na computação de sua idade (...) outros escritores não vão além dos construtores medievais, na procura da origens de nossos mistérios (...)[9]



É importante destacar que o nascimento oficial da Maçonaria ocorre em 1717, quando quatro Lojas Maçônicas, que se reuniam em Londres, Inglaterra, formaram a primeira Grande Loja do mundo, a qual passou a credenciar outras Lojas e Grandes Lojas em muitos países[10].

Devemos porém ressaltar que a Ordem Maçônica não surgiu simplesmente do “nada”. Existiu todo um trabalho de preparação de suas bases ao longo do tempo, e podemos afirmar com base nas tradições, sem trocadilhos, que foi um longo tempo. Ainda em alusão à “Arte da Construção”, de onde retiramos nossa simbologia, podemos dizer que primeiro foi encontrado o terreno para a construção, depois feita sua preparação, plantados os alicerces e, finalmente, iniciada a elevação das paredes e do prédio. Tornando-se este edifício representado pela Maçonaria uma obra conduzida por múltiplas mãos ao longo da História. Constantemente “escavando masmorras aos vícios e erguendo templos à virtude”, os maçons encontram-se em constante labor.

A próxima a ser retratada é a "Escola Antropológica":

" (...) Aplica as descobertas da Antropologia aos estudos da história maçônica (...) os antropologistas têm reunido um vasto cabedal de informações sobre os costumes religiosos e iniciatórios de muitos povos, antigos e modernos (...) a Escola Antropológica concede a Maçonaria uma Antigüidade muito maior que a tida pela Escola Autêntica, e assinala surpreendentes analogias com os antigos Mistérios de muitas nações (...)

Os antropologistas não confinam seus estudos apenas ao passado, mas têm investigado os ritos iniciatórios de numerosas tribos selvagens existentes tanto na África como na Austrália (...) tem encontrado gestos e sinais ainda em uso entre os maçons. Entre os habitantes da Índia e da Síria têm sido encontradas impressionantes analogias com os ritos maçônicos (...) é evidente que ritos análogos aos que chamamos de maçônicos existem entre os mais antigos do globo, e podem ser encontrados sob uma forma ou outra em quase todas as partes do mundo. (...) sinais existem no Egito e México, na China e Índia, na Grécia e Roma, nos templos de Burma e nas catedrais da Europa medieval (...) no sul da Índia existem santuários onde são ensinados os mesmos segredos sob compromissos de juramento tal como nos são comunicados na Ordem e nos graus superiores da Europa e América modernas. (...)

À obra da Escola Antropológica se deve uma clara revelação da imensa Antigüidade e difusão daquilo que atualmente chamamos simbolismo maçônico (...) Das pesquisas dos antropologistas resulta perfeitamente claro que, quaisquer que sejam os exatos elos na cadeia da descendência, na Maçonaria somos os herdeiros de uma tradição antiqüíssima, durante incontáveis idades tem estado associada com os mais sagrados mistérios do culto religioso.[11]



A terceira escola que foi relacionada por Joaquím Gervásio do Nascimento, trata-se da "Escola Mística"[12] ou "Iniciática":

" (...) Encara os mistérios da Ordem (..) vendo neles um plano para o despertar espiritual do homem e seu desenvolvimento interno (...) declaram que os graus da Ordem são simbólicos de certos estados de consciência, que devem ser despertados no iniciado individual, se ele aspira ganhar os tesouros do espirito (...) um testemunho que pertence mais à religião do que à ciência. A método místico é a união consciente com Deus, e para um maçom desta escola a Ordem objetiva representar a Senda para essa meta, oferecer um mapa, por assim dizer, para guiar os passos do buscador de Deus.

(...) estes estudiosos estão mais interessados em interpretações do que em pesquisas históricas. Sua preocupação principal consiste (...) em viver a vida indicada pelos símbolos da ordem, com o fím de atingir a realidade espiritual de que estes símbolos são apenas pálidos reflexos (...) sustentam que a Maçonaria tem pelo menos parentesco com os antigos Mistérios, que visavam precisamente a mesma finalidade: a de oferecer ao homem uma via pala qual possa encontrar Deus (...) "[13]



Segundo José Castellani, a Maçonaria não é todavia uma Ordem Mística, já que, nela a razão sobrepuja o misticismo[14]. Porém ele destaca a importância do misticismo e da simbologia mística para a construção e manutenção da doutrina moral da Ordem Maçônica:

" (...) Embora a Maçonaria não seja uma religião e nem seja uma ordem mística, ela utiliza, em seus rituais, na sua simbologia e na sua estrutura filosófica e doutrinária, os padrões místicos de diversas seitas, associações e civilizações antigas, principalmente os relativos às religiões e às ordens iniciáticas de cunho religioso daqueles povos que representaram o alvorecer das civilizações e que representam o alvorecer das civilizações e que concentravam, desde o século V a. C., em torno dos rios Tigre e Eufrates e do Mar Mediterrâneo. (...) [A Maçonaria] nascida em sua forma moderna, nas asas das aspirações liberais e libertárias dos povos subjulgados pelo poder real absoluto e pelos privilégios do clero, ela, também, é liberal e libertária, evolutiva e adaptável às épocas, racional e democrática. Para armar todavia, a sua doutrina moral, ela buscou o simbolismo nascido da mística de civilizações perdidas na noite dos tempos; e o simbolismo, fonte de espiritualidade oculta, será, sempre, por mais que a cibernética e a materialidade dominem o mundo, uma LUZ no caminho da humanidade.[15]


A quarta e ultima escola do pensamento maçônico, por fim, é a aquela chamada de "Escola Oculta":

" (...) está representada por uma corporação sempre crescente de estudiosos na Ordem Co-maçônica (ou Ordem Maçônica Mista Internacional Le Droit Humain), que esta progressivamente atraindo também aderentes da Maçonaria masculina. Como um de seus principais e característicos postulados é a eficácia sacramental do cerimonial maçônico, quando devida e fielmente executada, talvez nos seja lícito, chamá-la a escola Sacramental ou Oculta (...) o objetivo do ocultista, não menos que o do místico, é a união consciente com Deus, porém diferem seus métodos de busca. (...) o método ocultista se desenvolve através de uma série de etapas gradativas, de uma Senda de Iniciações conferindo sucessivas expansões de consciência e graus do poder sacramental. O místico é freqüentemente mais de caráter individual, um 'vôo do solitário para o solitário' (..) o método do místico é pela prece e oração(...)"[16]



Sem desmerecer ou contradizer nenhuma das escolas do pensamento maçônico, importantes apontamentos sobre as origens da Maçonaria, foram feitos por Marcello Francisco Ceroni, em seu trabalho intitulado "O Surgimento da Maçonaria", e publicado pela Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil, que apesar de não muito extenso, é bastante rico em informações, citações e referencias bem fundamentadas e embasadas:

"... A história, o desenvolvimento e a evolução da maçonaria como agremiação, deve ser iniciada com a história da Fraternidade do Pedreiros e Canteiros da Idade Média , por razões da relação intima existente entre a irmandade e a Fraternidade dos Franco-Maçons, porque efetivamente, a história de uma é unicamente a introdução à história da outra."[17]



Por ser este um trabalho que se pretende ser histórico e dentro do possível racional, não poderíamos nos ater a fatos cuja autenticidade poderia vir a ser questionada. Ficaríamos portanto, também impossibilitados de utilizar lendas e tradições de uma maneira mais geral, apesar de muitas verdades podem ser retiradas de simples relatos, por mais fantasiosos que poderiam parecer.

Surgida na Europa, segundo muitos historiadores maçons, sendo portanto originada das antigas corporações[18] ou guildas de pedreiros construtores de catedrais, apesar de outros procurarem indicar origens mais antigas, como os Colégios Romanos, ou "Collegia Caementariorum", associações de pedreiros e construtores que apareceram em vários países e regiões dominados pelo Império Romano. Estes Colégios erigiam templos e outros diversos edifícios públicos[19].

A Maçonaria foi se imbuindo de valores e ideais liberais e libertários ao longo de seu desenvolvimento. Influenciada principalmente pelo Iluminismo, no século XVIII, teve a Ordem Maçônica importante papel na luta contra o absolutismo político, e na conquista e consolidação do poder político pela burguesia, quer seja na Europa, quer seja na América.



BIBLIOGRAFIA:



ASLAN, Nicola. História Geral da Maçonaria: Fastos da Maçonaria Brasileira. Londrina: A Trolha, 1997;

CALDEIRA, Jorge. Mauá: Empresário do Império. São Paulo: Companhia das Letras, 1995;

CAMINO, Rizzardo da; CAMINO, Odéci Schilling da. Vade Mécum do simbolismo Maçônico. São Paulo: Madras, 1999;

CASTELLANI, José. A Maçonaria e o Movimento Republicano Brasileiro. São Paulo: Traço, 1989;

CASTELLANI, José. De Maia ao Tiradentes. Revista A Trolha, Londrina, Ano XXII, nº 66 p.32-34, Abril 1992

CASTELLANI, José. O Rito Escocês Antigo e Aceito: História, Doutrina e Prática. 2ª ed, Londrina: A Trolha, 1996;

CASTELLANI, José. Os Maçons na Independência do Brasil. Londrina: A Trolha, 1993;

CERONI, Marcello Francisco. O Surgimento da Maçonaria. Brasília: Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB), 2000;

COLUSSI, Eliane Maria. A Maçonaria Brasileira e a defesa do ensino laico (século XIX). In História & Ensino, vol. 6. Londrina: Universidade estadual de Londrina, 2000. Pag. 47-55

COSTA, Frederico G. Breves Ensaios Sobre a História da Maçonaria Brasileira. Londrina: A trolha, 1993;

FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria. São Paulo: Editora Pensamento, 1998,

GRANDE LOJA DO PARANÁ. Maçonaria: um informativo para quem não é maçom. Curitiba: Grande Loja do Paraná, 2000;

KOSHIBA, Luiz. História: origens, estruturas e processos. São Paulo: Atual, 2000

LINHARES, Marcelo. História da Maçonaria: Primitiva, Operativa e Especulativa. 2ª ed. Londrina: A Trolha, 1997.

PRADO JUNIOR, Caio. Formação do Brasil Contemporâneo: Colônia. São Paulo: Brasiliense: Publifolha, 2000;

SAVI, Hamilton. Maçonaria como uma escola de formação. Revista O Prumo. Florianópolis, Ano XXII, nº 141, Janeiro/Fevereiro de 2002, p. 30-31;

* Texto originalmente concebido como capitulo provisório de introdução a uma dissertação de mestrado, e adaptado para ser apresentado em Sessão da Aug\ e Resp\ Loj\ Simb\ "Cavaleiros da Luz" Nº 60, Or\ de Cornélio Procópio, filiada à Grande Loja do Paraná. Apresentação esta, ocorrida no dia 29 de Maio de 2002 da E\ V\.



[1] O nome Maçonaria, ou Franco-Maçonaria deriva do termo francês "franc-maçonnerie", ou seja, pedreiros-livres. (N.A)



[2] Por laicização, entende-se a separação ocorrida entre Estado e Igreja, ou ainda a sensível diminuição da influência desta dentro do governo. Em Portugal e no Brasil tal influência era conhecida ainda como regime do "Padroado". (N.A)



[3] CASTELLANI, José. De Maia ao Tiradentes. Revista A Trolha, Londrina, Ano XXII, nº 66 p. 32-34, Abril 1992.

[4] FIGUEIREDO, Joaquim Gervásio de. Dicionário de Maçonaria. São Paulo: Editora Pensamento, 1998, p. 239;

[5] Idem. Op cit. p.239

[6] O conhecimento científico, resulta de investigação metódica, sistemática da realidade. transcende os fatos e os fenômenos em sí mesmos, analisa-os para descobrir suas causas e concluir as leis gerais que o regem

É verificável na prática, por demonstração ou experimentação. explica e demonstra com clareza e precisão os segredos da realidade, além de descobrir suas relações de predomínio, igualdade ou subordinação com outros fatos ou fenômenos. De tudo isso conclui leis gerias, universalmente válidas para todos os casos da mesma espécie. (N.A.)

[7] FIGUEIREDO, Op cit. p.239;

[8] FIGUEIREDO, Op cit. p.239-240;

[9] FIGUEIREDO, Op cit. p.240-241;

[10] GRANDE LOJA DO PARANÁ. Maçonaria: um informativo para quem não é maçom. Curitiba: Grande Loja do Paraná, 2000;

[11]. FIGUEIREDO. Op cit. p.241-242;

[12] “(...) Misticismo (ou Mística), é uma palavra originado grego ‘MYO’, que significa ‘fechar a boca’ e que, como mistério (do grego ‘MYSTERÍON’), provinda da mesma raiz, tem o significado de algo que se percebe, profundamente, no íntimo , mas que não pode ser revelado, ou de que não se pode falar .

O misticismo representa um tendência para a busca de um ABSOLUTO com o qual pretende, o místico, unir-se, moralmente, através de meios simbólicos e nasce do esforço que faz o homem para abarcar a realidade absoluta, ou divina, e que está em íntima relação com as coisas.

Em última análise, o misticismo é, na realidade, um conjunto de atos e disposições, cuja finalidade é a união com a divindade, considerada como espírito criador e regulador de tudo o que existe. Para atingir essa finalidade, é armado um complexo sistema especulativo, que procura compreender os atributos divinos, buscando a união íntima com a divindade e a concretização de UM ABSOLUTO, ou do ENTE ÚNICO, supremo e onipotente. (..)" - (CASTELLANI, José. O Rito Escocês Antigo e Aceito: História, Doutrina e Prática. 2ª ed, Londrina: A Trolha, 1996. Pág. 91)

[13] FIGUEIREDO. Op cit. p.243;

[14] “ (...) O maçom é livre para investigar a verdade, portanto, pode discordar ou discutir os princípios maçônicos, notadamente, porque as instruções maçônicas não tem natureza dogmática (verdades absolutas) (...)” (GRANDE LOJA DO PARANÁ Op cit. p.14)

[15] CASTELLANI, José. O Rito Escocês Antigo e Aceito: História, Doutrina e Prática. 2ª ed, Londrina: A Trolha, 1996. Pag. 92

[16] FIGUEIREDO. Op cit. p.243-244;

[17] CERONI, Marcello Francisco. O Surgimento da Maçonaria. Brasília: Confederação da Maçonaria Simbólica do Brasil (CMSB), 2000, p. 5;

[18] "... O termo "corporação" não foi utilizado na Idade Média. Em seu lugar empregava-se mesteres ou guildas. Apesar das controvérsias sobre a origem das associações profissionais da Idade Média, os historiadores procuram filiar as corporações de oficio as instituições antigas ou as confrarias religiosas da própria Idade Média. Contudo, as corporações tinham bases próprias e não poderiam ser consideradas continuação de uma tradição antiga ou religiosa ..." (KOSHIBA, Luiz. História: origens, estruturas e processos. São Paulo: Atual, 2000, p. 173)

[19] KOSHIBA, Idem. Op cit. p. 6

** Roberto Bondarik - M\ M\

domingo, 1 de julho de 2012

O TEMPO E NÓS!


O TEMPO E NÓS!

Enquanto o Tempo segue renovando
Os quadros da existência a que se atrela,
Indagas, muitas vezes, alma querida e bela,
Como vencer na prova a te agredir...

De tudo quanto aprendo,
entre as lições do mundo,
Dá-me a estrada, na luta a que me vejo exposta,
Quatro verbos distintos por resposta:
-" Amar e compreender, trabalhar e servir".
A própria Natureza é um livro aberto...
Se inquirisses do Sol no firmamento
Como brilhar sem pausa, firme e atento,
Nutrindo mundos sem se consumir...
Ele, decerto, te responderia
Que o Senhor lhe traçou por alta obrigação
Cumprir as leis da vida, tais quais são:
-" Amar e compreender, trabalhar e servir".
Interroguei, um dia, a roseira podada,
Já que se lhe furtava o véu de rosas,
A pancadas e injúrias espantosas,
Como devia a pobre reflorir;
Ela, porém, me disse, humilde e crente:
-"Enriquecer a Terra é o meu dever
E, se quero evoluir, necessito aprender
-"Amar e compreender, trabalhar e servir."
Vejo tratores retalhando o solo,
Dinamites na serra, a partí-la, de todo,
Fontes varando tremedais de lodo,
Árvores venerandas a cair...
E se busco entender a dor do campo,
Nesses despojamentos que pesquiso,
Cada elemento fala que é preciso
-"Amar e compreender, trabalhar e servir".
Assim também, alma fraterna e boa,
Se trazes sob o Tempo, aflições e problemas,
Constrói, age, confia, crê, não temas
E resguarda no peito o anseio do porvir;
Por mais que sofras, não pares, segue à frente,
Enquanto cada dia surge e avança,
Eis que o Céu nos repete, através da esperança:
- "Amar e compreender, trabalhar e servir".
Maria Dolores