terça-feira, 4 de agosto de 2015


O Lamento das Tumbas
 
(Gibran Kahlil Gibranh)
 
O Emir entrou na sala do júri e sentou-se na cadeira principal, enquanto à sua direita e à sua esquerda sentavam-se os homens mais destacados do país. Os guardas, armados com lanças e espadas, ficaram de sentinela, e o povo que veio assistir ao julgamento se levantou e curvou-se cerimoniosamente para o Emir, de cujos olhos emanava uma força que incutia horror em seus espíritos e medo em seus corações. Como a corte estava pronta e a hora do julgamento se aproximava, o Emir levantou a mão e ordenou: — Tragam os criminosos um a um, e digam-me que crimes cometeram. — A porta da prisão se abriu como a boca bocejante de uma besta feroz. Dos cantos obscuros da masmorra, qualquer um podia ouvir o eco do chocalhar das correntes, em uníssono com os gemidos e lamentações dos prisioneiros. Os espectadores estavam ansiosos para ver cada vítima da Morte emergindo das profundezas daquele inferno.
 
Alguns momentos depois, dois soldados vieram, trazendo um jovem com os braços amarrados atrás das costas. Seu rosto severo indicava nobreza de espírito e fortaleza de coração. Ele estava parado no meio da sala do tribunal, e os soldados recuaram alguns passos. O Emir encarou-o serenamente e disse:
 
— Que crime cometeu este homem, que está orgulhosa e triunfalmente de pé diante de mim?
 
— Um dos homens da corte responde:
 
— Ele é um assassino; ontem matou um dos oficiais do Emir, que estava numa missão importante, nas aldeias vizinhas; ele ainda segurava a espada ensangüentada quando foi preso.
 
— O Emir retorquiu com raiva:
 
— Levem o homem para o calabouço, amarrem-no com pesadas correntes e, de madrugada, cortem-lhe a cabeça com sua própria espada, joguem seu corpo no mato, para que os animais possam comer sua carne, e o ar possa carregar seu odor putrefato para as narinas de seus familiares e amigos.
 
— O jovem voltou para a prisão, enquanto o povo olhava para ele com olhos piedosos, pois era um homem jovem, na flor da idade.
 
Os soldados voltaram, trazendo então uma moça de beleza delicada e sem artifícios. Ela estava pálida e nas suas faces apareciam os sinais da opressão e da decepção. Seus olhos estavam molhados de lágrimas e a cabeça tombava sob a carga do seu pesar. Depois de olha-la de cima a baixo, o Emir exclamou:
 
— E essa mulher macilenta, que está de pé diante de mim como a sombra ao lado de um cadáver, o que fez?
 
— Um dos soldados respondeu-lhe dizendo:
 
— Ela é uma adúltera; a noite passada, seu marido encontrou-a nos braços de outro. Depois que o amante fugiu, o marido a trouxe para a lei.
 
— O Emir encarou-a, enquanto ela levantava o rosto sem expressão, e ordenou:
 
— Levem-na de volta ao calabouço e estendam-na sobre uma cama de espinhos para que possa lembrar-se desse lugar de repouso que ela sujou com sua falha; dêem-lhe vinagres misturados com bílis para beber, para que possa lembrar-se do gosto dos beijos doces. De madrugada, arrastem seu corpo nu para fora da cidade e apedrejem-no. Deixem que os lobos saboreiem a carne macia de seu corpo e os vermes penetrem nos seus ossos.
 
— Quando ela voltou para a cela escura, o povo olhou-a com simpatia e surpresa. Eles estavam assombrados com a justiça do Emir e preocupados com o destino dela.
 
Os soldados reapareceram trazendo um homem triste, cujos joelhos batiam e tremiam, como uma árvore nova face ao vento do norte. Ele tinha um olhar sem forças, fraco e amedrontado, e era pobre e miserável. O Emir o encarou com repugnância e inquiriu:
 
— E este homem imundo, que é como um morto entre os vivos, o que fez?
 
— Um dos guardas falou:
 
— Ele é um ladrão que arrombou o monastério e roubou os vasos sagrados, que os monges encontraram em seu poder, quando o prenderam.
 
Como águia faminta que olha para um pássaro de asas partidas, o Emir encarou-o e sentenciou:
 
— Levem-no de volta para a prisão e acorrentem-no, e de madrugada arrastem no até uma árvore bem alta e enforquem-no entre o céu e a terra. Assim, suas mãos pecadoras morrerão e os membros de seu corpo sem vida se transformarão em joguete do vento.
 
— Quando o ladrão cambaleou de volta às profundezas da prisão, o povo começou a cochichar entre si, dizendo:
 
— Como ousa tal homem fraco e herege roubar os vasos sagrados do monastério?
 
Nessa hora, a corte suspendeu a sessão e o Emir saiu, acompanhado por todos os seus dignitários, guardado pelos soldados, enquanto a assistência se dispersava e no lugar vazio se ouviam o lamentar e o gemer dos prisioneiros. Tudo isso aconteceu enquanto eu estava lá, de pé, como um espelho, diante dos fantasmas que passavam.
 
Eu pensava nas leis feitas pelo homem para o homem, testemunhando o que o povo chama de "justiça" e absorvido em profundos pensamentos sobre os segredos da vida. Tentei entender o sentido do universo. Eu me achava aturdido, sentindo-me como um horizonte envolvido entre as nuvens. Quando deixei o lugar, disse a mim mesmo: "O vegetal se alimenta dos elementos da terra, a ovelha come o vegetal, o lobo devora a ovelha e o touro mata o lobo, enquanto o leão devora o touro; também a Morte chama o leão. Há algum poder que se sobreponha à Morte e faça dessas brutalidades uma eterna justiça? Haverá uma força que possa converter todas essas coisas horríveis em coisas belas? Não existirá nenhum poder capaz de agarrar com suas mãos todos os elementos da vida e enlaça-los com alegria, como o mar prazerosamente engolfa todos os riachos nas suas profundezas? Não há nenhum poder que possa aprisionar o assassinado e o assassino, o traído e o traidor, o ladrão e o roubado, e trazê-los para uma corte mais elevada e mais capaz que a corte do Emir?
 
No dia seguinte, deixei a cidade e fui para os campos, onde o silêncio revela à alma o que o espírito está buscando, e onde o céu puro mata os germes do desespero gerados na cidade entre as ruas estreitas e os lugares escuros. Quando cheguei ao vale, vi um bando de corvos e abutres planando e descendo, enchendo o céu com o seu gralhar e o zunir e o bater das asas.
 
Quando prossegui, vi diante de mim o cadáver de um homem pendurado no alto de uma árvore, o corpo de uma mulher nua no meio de um amontoado de pedras e a carcaça de um jovem cuja cabeça cortada estava encharcada de sangue misturado com a terra. Foi uma visão horrível, que me cegou os olhos com espesso e denso véu de aflições.
 
Olhei em todas as direções e nada vi, exceto o espectro da Morte ao lado daqueles restos horrorosos. Nada se ouvia, só o gemido da não-existência, misturado com o gralhar dos corvos que rondavam as vítimas das leis humanas. Três seres, que ontem estavam nos braços da Vida, hoje tombam como vítimas da Morte porque quebraram as leis da sociedade. Quando um homem mata um outro, o povo diz que é um assassino; mas, quando o Emir o mata, o Emir é justo. Quando um homem rouba o monastério, dizem que é um ladrão; mas, quando o Emir lhe rouba a vida, o Emir é honrado. Quando uma mulher trai o marido, dizem que é uma adúltera; mas, quando o Emir a faz andar nua pelas ruas e ordena que a apedrejem, o Emir é nobre. O derramamento de sangue é proibido, mas quem o torna legal para o Emir?
 
Roubar o dinheiro de alguém é um crime, mas tirar a vida de uma pessoa é um ato nobre. A infidelidade a um marido pode ser uma ação horrorosa, mas apedrejar almas vivas é um maravilhoso espetáculo. Devemos combater o mal com o mal e dizer que isso é a Lei? Devemos combater a corrupção com a corrupção maior e dizer que isso é a Regra? Devemos subjugar os crimes com mais crimes e dizer que isso é a Justiça? Não matou o Emir nenhum inimigo na sua vida pregressa? Jamais roubou, de seus súditos fracos, dinheiro e propriedade? Não cometeu nenhum adultério? Era ele um homem sem faltas quando matou o assassino, enforcou o ladrão e apedrejou a adúltera? Quem são esses que enforcaram o ladrão na árvore? São anjos descidos do céu, ou homens saqueadores e usurpadores? Quem cortou a cabeça do assassino? São profetas divinos, ou soldados derramando sangue por onde quer que vão? Quem apedrejou aquela adúltera? Foram eremitas virtuosos que vieram de seu monastério, ou humanos que amam cometer atrocidades com alegria, sob a proteção de uma lei retrógrada? O que é a Lei? Quem a viu vindo como o sol da imensidão do céu? Que ser humano viu o coração de Deus e nele vislumbrou seus desejos e propósitos? Em que século os anjos andaram entre o povo, pregando: "Proíbam o fraco de aproveitar a vida, e matem os marginais com a lâmina afiada da espada, e pisem sobre os pecadores com pé de ferro"?
 
Enquanto minha mente sofria dessa forma, ouvi ruído de passos que se aproximavam pelo caminho. Prestei atenção e vi uma jovem vindo de trás das árvores; ela olhou cautelosamente em todas as direções, antes de se acercar dos três corpos que lá estavam. Logo seus olhos caíram sobre a cabeça cortada do jovem.
 
Ela chorou convulsivamente, ajoelhou-se e a abraçou com seus braços trêmulos; de seu rosto desciam lágrimas, enquanto ela acariciava com seus dedos suaves os cabelos anelados e emaranhados com o sangue, chorando com uma voz que vinha do fundo de um coração despedaçado. A jovem não pôde mais suportar a visão. Arrastou o corpo até uma vala, colocou-lhe a cabeça delicadamente entre os ombros, cobriu-o todo com terra e sobre a cova improvisada colocou a espada com a qual a cabeça do infeliz tinha sido decepada.
 
Como a moça fizesse menção de partir, dirigi-me a ela. A jovem tremeu quando me viu, e seus olhos estavam cheios de lágrimas. Ela suspirou e disse:
 
— Leve-me até o Emir, se quiser; para mim é melhor morrer e seguir aquele que salvou a minha vida das garras da desgraça, do que deixar seu cadáver como alimento para os animais ferozes.
 
— Respondi-lhe:
 
— Não tenha medo de mim, pobre garota, condói-me da morte desse jovem antes de você o fazer. Mas diga-me, como ele a salvou das garras da desgraça?
 
— A moça replicou, com uma voz cautelosa e débil:
 
— Um dos oficiais do Emir veio à nossa fazenda para coletar o imposto; quando me viu, olhou-me como um lobo olha para uma ovelha. Ele cobrou a meu pai um imposto tão pesado, que mesmo um homem rico não poderia pagar. Fui então detida e levada em penhor para o Emir em garantia do ouro que meu pai não podia dar. Imporei-lhe que me poupasse, mas ele não se comoveu, pois era friamente impiedoso. Gritei então por socorro, e esse jovem que está morto aqui agora veio em meu socorro, e salvou-me de uma morte em vida. O oficial tentou mata-lo, mas meu protetor golpeou-o com uma velha espada que estava pendurada na parede de nossa casa. Ele não fugiu como um criminoso; ao contrário, ficou junto ao corpo do oficial morto até a lei chegar e leva-lo sob custódia.
 
— Depois de ter proferido essas palavras que fariam qualquer coração humano sangrar de compaixão, ela virou o rosto e foi embora.
 
Pouco tempo depois vi um jovem que se aproximava com o rosto envolvido por um manto. Quando se aproximou do cadáver da adúltera, ele desdobrou o manto e colocou-o sobre o corpo nu. Então tomou uma adaga que trouxera escondida e cavou um buraco, no qual colocou com carinho e cuidado a moça morta; cobriu-a com terra, sobre a qual ia derramando suas lágrimas. Ao acabar a tarefa, o jovem arrancou algumas flores e colocou-as reverentemente naquele túmulo tosco. Quando ia sair, eu o detive dizendo:
 
— Que tipo de relação você tinha com a adúltera? E o que o impeliu a pôr a vida em perigo, vindo até aqui para proteger-lhe o corpo nu contra os animais ferozes?
 
— Quando me encarou, seus olhos pesarosos estampavam seu infortúnio, e ele explicou:
 
— Eu sou o homem desgraçado por amor de quem ela foi apedrejada. Eu a amava e ela me amava desde a infância; crescemos juntos; o Amor, a quem nós servimos e reverenciamos, era o dono de nossos corações. O Amor uniu-nos e enlaçou nossas almas. Um dia ausentei-me demoradamente da cidade, e quando voltei descobri que seu pai a obrigara a casar com um homem que ela não amava. Minha vida tornou-se uma luta perpétua, e todos os meus dias foram convertidos numa longa e escura noite. Tentei dar paz a meu coração, mas meu coração não se conformava.
 
Finalmente, fui vê-la secretamente; meu único propósito era ter uma breve visão de seus olhos maravilhosos e escutar o som da sua voz serena.
 
Quando cheguei à sua casa, encontrei-a sozinha, lamentando-se. Sentei-me a seu lado, o silêncio era a nossa importante conversação e a virtude, a nossa companheira. Uma hora de mudo entendimento se passara, quando seu marido entrou. Eu o adverti para conter-se, mas ele a arrastou para a rua e gritou: "Venham, venham e vejam a adúltera com seu amante!" Todos os vizinhos se precipitaram, e mais tarde veio a Lei e levou-a até o Emir; mas eu nem fui tocado pelos soldados. A Lei ignorante e os costumes estúpidos puniram a mulher pela falta de seu pai e perdoaram o homem.
 
Depois de assim ter falado, o jovem caminhou em direção à cidade. Permaneci meditando sobre o cadáver do ladrão pendurado naquela árvore imponente, o qual se movia levemente cada vez que o vento batia nos galhos, esperando talvez por alguém que o descesse e o estendesse na superfície da terra ao lado do Defensor da Honra e da Mártir do Amor. Uma hora depois, uma frágil e miserável mulher apareceu, chorando. Ela parou em frente ao homem enforcado e rezou reverentemente. Então subiu na árvore e roeu com os próprios dentes a corda de linho até que ela arrebentasse e o morto caísse no chão como se fosse um invólucro macabro; depois desceu, cavou uma vala e enterrou o ladrão ao lado das duas outras vítimas. Em seguida cobriu-o com terra, pegou dois pedaços de madeira, fez uma cruz e colocou-a na cabeceira.
 
Quando ela se dirigia para a cidade, iniciando uma caminhada, eu a detive falando-lhe:
 
— O que a fez vir aqui e enterrar o ladrão?
 
— Ela me olhou intensa e tristemente e justificou:
 
— Ele é meu fiel marido e companheiro dedicado; é o pai de meus filhos: cinco rebentos que morrem de fome; o mais velho tem oito anos, e o mais novo é ainda de colo.
 
Meu marido não era um ladrão, mas um camponês que trabalhava na terra do monastério, sustentando-nos com a pouca comida que os padres e monges lhe davam, quando ele voltava para casa, ao anoitecer.
 
Ele trabalhava para eles desde a juventude, e quando ficou fraco os padres o demitiram, aconselhando-o ir para casa e a mandar seus filhos tomar seu lugar, assim que estivessem mais velhos. Meu marido implorou em nome de Jesus e dos anjos do céu para que o deixassem ficar, mas não deram atenção ao apelo.
 
Não tiveram pena dele, nem de seus filhos famintos, que estavam desesperadamente chorando por comida. Meu companheiro dirigiu-se então para a cidade em busca de emprego; mas foi tudo em vão, pois o rico só emprega aquele que está forte e saudável. Então, ele foi sentar-se na rua poeirenta, estendendo a mão aos que passavam, pedindo e repetindo-lhes a triste cantilena da sua derrota na vida, sofrendo fome e humilhação; mas as pessoas se recusavam a ajudá-lo, considerando-o como um daqueles preguiçosos que não merecem esmolas.
 
Uma noite, a fome torturava dolorosamente os nossos filhos, principalmente o menor, que tentava inutilmente mamar no meu seio já seco. Então a expressão do rosto de meu marido mudou e ele saiu de casa, protegido pela escuridão da noite. Entrou no depósito do monastério e arrastou para fora um saco de trigo. Assim que saiu, os monges acordaram de seu sono leve e o prenderam, depois de o surrar impiedosamente. De madrugada, levaram-no até o Emir e queixaram-se de que ele fora até o monastério para roubar os vasos de ouro do altar. Prenderam-no, e o enforcaram no segundo dia.
 
Ele estava apenas tentando alimentar seus pequenos famintos, com o trigo que colheu de seu trabalho; mas o Emir o matou e usou sua carne para encher o estômago dos pássaros e dos animais.
 
— Dizendo isso, ela me deixou sozinho, espiritualmente arrasado, e partiu.
 
Fiquei parado diante das covas, como um orador atacado de súbita mudez, enquanto tentava fazer um necrológico. Eu estava mudo, mas minhas lágrimas, que rolavam, substituíam as palavras e falavam por minha alma.
 
Meu espírito rebelou-se quando tentei meditar por algum tempo, porque a alma é como uma flor que deixa suas pétalas caírem quando anoitece, e não exala seu aroma para os fantasmas da noite. Pareceu-me que aquela terra que envolvia as vítimas da pressão, naquele lugar solitário, enchia meus ouvidos com os lamentos das almas sofredoras e me impedia de falar.
 
Recorri ao silêncio, pois se as pessoas entendessem o que o silêncio lhes revela estariam tão junto de Deus quanto as flores do vale. Se as chamas que incendiavam minha alma melancólica tivessem tocado as árvores, elas se moveriam de seus lugares e marchariam como um exército poderoso para lutar contra o Emir brandindo seus galhos, e demoliriam o monastério sobre as cabeças desses padres e monges.
 
Fiquei ali meditando, e percebi que o doce sentimento da misericórdia e a amargura do pesar jorravam de meu coração sobre os recém-cavados túmulos. O túmulo de um jovem que sacrificou sua vida defendendo uma frágil donzela, cuja existência e honra ele salvou do meio das patas e das garras de um ser humano selvagem; um jovem cuja cabeça foi cortada como recompensa de sua bravura; e sua espada foi colocada sobre seu túmulo pela pessoa que ele salvou, como um símbolo de heroísmo ante a face do sol que brilha sobre um império mergulhando na estupidez e na corrupção. O túmulo de uma jovem cujo coração já estava inflamado de amor, antes de seu corpo ser arrebatado com avidez, ser usurpado pela luxúria e ser apedrejado pela tirania.... Ela manteve a sua fé até a morte; o seu amado colocou-lhe flores no túmulo para que enquanto murchassem fossem um depoimento sobre essas almas que o Amor escolheu e abençoou, destacando-as dentre as pessoas cegas pelas coisas terrenas e emudecidas pela ignorância.
 
O túmulo de um homem miserável exaurido pelo trabalho árduo e longo na terra do monastério, que pedira pão para alimentar os filhos famintos, e que lhe fora negado. Esse infeliz recorrera à mendicância, mas ninguém lhe dera atenção.
 
Quando sua alma o impeliu a reaver uma pequena parte da safra que plantara e colhera foi aprisionado e surrado até a morte. Sua pobre viúva erigiu uma cruz sobre seu túmulo como um símbolo no silêncio da noite e ante as estrelas do céu, a testemunhar contra esses padres que converteram o bom ensinamento de Cristo em afiadas espadas com as quais cortam o pescoço do povo e rasgam os corpos dos fracos. O sol desapareceu atrás do horizonte como se estivesse cansado dos problemas do mundo e sentisse aversão pela submissão humana.
 
Nesse momento, o entardecer começou a tecer um delicado véu das fibras de silêncio e o colocou sobre o corpo da Natureza. Estendi minha mão em direção aos túmulos, apontando os seus símbolos; ergui os olhos em direção ao céu e exclamei:
 
— Oh, Bravura, esta é a tua espada, enterre-a agora na terra! Oh, Amor, esta são as flores, queime-as com o fogo! Oh, Jesus, esta é a Tua Cruz, mergulhe-a na obscuridade da noite!
 
(Do Livro "Espíritos Rebeldes")

Fonte: http://glesp.org.br

segunda-feira, 3 de agosto de 2015


Conceito de Liberdade Maçônica


Charles Evaldo Boller

 

Sinopse: Limites da liberdade responsável do maçom; liberdade absoluta do pensamento.

 

"Artigo quinto: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade" - (Constituição Brasileira, 1988).

 

"A Maçonaria é uma instituição filosófica"; "o caráter principal do maçom é ser livre e de bons costumes"; "O objeto essencial da Maçonaria é, na verdade, sua ação moral"; "Maçons fazem um estudo sereno e sério dos fenômenos históricos da religião e política"; "trabalham para o advento de novas ideias"; "a inteligência é, para nós, a mais perfeita manifestação da vida"; "... Onde o ensino é permanente, não pela palavra do presidente e do orador, mas, principalmente, pelo trabalho do adepto"; "A fecundação das ideias se faz no silêncio"; "A amizade fraternal, que liga os bons maçons, é o laço de união da ordem maçônica"; - (Ritual do grau 15 do Rito Escocês Antigo e Aceito). O que vem a ser liberdade maçônica? Em resumo, a liberdade maçônica preconiza o amor fraternal como única solução para todos os problemas da humanidade: sinônimo de liberdade; causa de igualdade; razão da fraternidade.

 

São três os aspectos onde se desfruta da mais ampla liberdade: consciência, espiritualidade e pensamento. Nenhum déspota pode mudar ou censurar o que se passa na mente do cidadão. Legisladores podem escrever as leis mais perfeitas que estas são nada perante a vontade individual. Apenas o próprio cidadão pode sabotar-se ou libertar-se no recôndito de seus processos mentais; é o trabalho na pedra bruta; o autoconhecimento. Daí ser lógico afirmar que a Maçonaria não dá nada para ninguém; todo progresso pessoal é resultado de esforço individual e intransferível. A liberdade jaz dormente na memória das pessoas, é parte do projeto da criatura, basta uma leve provocação para despertá-la; é o que ocorre nos debates entre os obreiros na sublime instituição. A Maçonaria entra com o sistema, o local, as ferramentas; o adepto com sua alma, coração e mente. Liberdade é resultado da convivência fraterna de pessoas em busca de sua liberdade individual.

 

Liberdade maçônica não é aquela em nome da qual já foram cometidos os mais perversos crimes, opressão, desajuste social, desequilíbrio e desilusão. Liberdade maçônica reside no pensamento. É nos processos cognitivos que qualquer cidadão torna-se absolutamente livre. É isto que o sistema da Maçonaria tenta - poucos o percebem - inculcar na mente de seus adeptos. É pelo pensamento que a Maçonaria liberta o homem para sua função de edificador social. É do pensamento, da conceituação deísta da Maçonaria, que nasce a noção, o conceito de Grande Arquiteto do Universo, a síntese de liberdade absoluta e que permite a convivência pacífica dos seres humanos. É pelo amor fraterno que o homem torna-se digno do sopro de vida que anima seu trabalho sobre a superfície paradisíaca deste lindo planeta azul, o qual se desloca numa velocidade vertiginosa a um destino desconhecido. Cabe a criatura fazer parte nesta viagem pelo espaço infindo desfrutando de liberdade absoluta em seu pensamento e de liberdade relativa em suas relações com as outras criaturas da biosfera terrestre.

 

Bibliografia:

 

1. BRASIL, Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito para a República Federativa do, Ritual do Grau 15 do Rito Escocês Antigo e Aceito, Cavaleiros do Oriente, da Espada e da Água, Segunda Série de Graus Históricos e Capitulares, primeira edição, Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito para a República Federativa do Brasil, 64 páginas, Rio de Janeiro, 1925;

 

2. CAMINO, Rizzardo da, Introdução à Maçonaria, Doutrina, História e Filosofia, ISBN 85-737-4876-1, primeira edição, Madras Editora Ltda., 431 páginas, São Paulo, 2005;

 

3. CAMINO, Rizzardo da, Simbolismo do Primeiro Grau, Aprendiz, ISBN 85-7374-076-0, primeira edição, Madras Editora Ltda., 188 páginas, São Paulo, 1998;

 

4. CHARLIER, René Joseph, Mosaico Maçônico, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha Ltda., 224 páginas, Londrina, 1995;

 

5. LACERDA JÚNIOR, Luiz Antonio Grieco e, Maçonaria, Manual do Candidato, primeira edição, Grande loja do Estado de São Paulo, 119 páginas, São Paulo;

 

6. PETERS, Ambrósio, Maçonaria, Verdades e Fantasias, primeira edição, 252 páginas, Curitiba, 1927;

 

7. RIGHETTO, Armando, Maçonaria, uma Esperança, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha Ltda., 160 páginas, Londrina, 1992;

 

8. SOBRINHO, Octacílio Schüler, Maçonaria, Introdução Aos Fundamentos Filosóficos, ISBN 85-85775-54-8, primeira edição, Obra Juridica, 158 páginas, Florianópolis, 2000.

 

Data do texto: 03/01/2011

 

Sinopse do autor: Charles Evaldo Boller, engenheiro eletricista e maçom de nacionalidade brasileira. Nasceu em 4 de dezembro de 1949 em Corupá, Santa Catarina. Com 61 anos de idade.

 

Loja Apóstolo da Caridade 21 Grande loja do Paraná

 

Local: Curitiba

 

Grau do Texto: Aprendiz Maçom

 

Área de Estudo: Consciência, Cultura, Educação, Liberdade, Maçonaria, Moral, Pensamento

sábado, 1 de agosto de 2015



A família para a Maçonaria é a base de tudo, depois de Deus.

A família é um dom dos maiores que recebemos de Deus. Não é somente uma realidade cultural que pertence a historia dos povos. É uma instituição natural criada por Deus.
familiaA Maçonaria ilumina-nos sobre o sentido da família. Somos criados à imagem e semelhança de Deus, cuja vida é comunhão profunda entre as pessoas. O ser humano não existe apenas para alimentar-se, crescer e ocupar espaço e tempo sobre a terra. É feito para “conviver” (viver com), partilhar a vida com os outros, viver em comunidade. Amadurecer no relacionamento fraterno e entrar em comunhão com o próprio Deus, não só nesta vida, mas por toda a eternidade.
No projecto da Maçonaria, a família é destinada a ser a “comunidade de pessoas unidas no amor”, sacramento cujo núcleo é a união amorosa e fiel entre o homem e a mulher, caminho de aperfeiçoamento recíproco e fonte de vida.
A família é, também, um compromisso. A comunhão de vida não se realiza por encanto. É necessária a colaboração de cada um, para superar o egoísmo, abrir-se ao outro na doação conjugal e familiar. Requer-se, ainda, a cooperação da sociedade para que se criem condições adequadas à vida em família. A finalidade primeira da família, é o valor que lhe confere sentido, é a prole, sua educação física, psíquica, intelectual, moral, religiosa, económica e social.
O berço doméstico é a primeira escola e o primeiro templo da alma. A casa do homem é a legítima exportadora de caracteres para a vida comum. Como esperar uma comunidade segura e tranquila sem que o lar se aperfeiçoe? A paz no mundo começa sob as telhas a que nos acolhemos. Se não aprendemos a viver em paz entre quatro paredes, como aguardar a harmonia das nações? Se não nos habituarmos a amar o Irmão mais próximo, associado à nossa luta de cada dia, como respeitar o Grande Arquitecto do Universo, que é DEUS?
Tantos pais, irmãos e filhos se separam só pela necessidade de impor vontades, de ver “quem manda aqui”, quem ganha a condição de dono da última palavra. Na maioria dos casos, numa reunião familiar, e com um pouco de humildade todos saberiam até onde ir e quando parar.
São naturais as discordâncias. O homem um dia há de aprender a combater as ideias e não as pessoas. Toda a discordância deve priorizar o respeito.
Se o “diálogo” antecedesse as nossas diferenças, não haveria espaço em nossos corações para ressentimentos e muito menos cultivaríamos sentimentos tão letais no que diz respeito aos outros.
O lar deve ser cultivado como um santuário. É nas lutas diárias do lar que nos preparamos para abraçar tarefas de vulto em prol da humanidade. É preferível abdicar de servir à humanidade, se nos esquecemos dos compromissos prioritários de nosso lar.
Nos tempos actuais, em que tantos banalizam a vida e as ruas se tornam abrigos de órfãos de pais vivos, é hora de reflectirmos sobre a Família e o papel do maçon na Comunidade.
A Maçonaria quer que cada um de nós busque melhorar em todos os sentidos, porque em assim fazendo estaremos no caminho certo que é a busca de uma melhoria cada vez maior para a humanidade.
O comportamento do maçon se torna muito difícil na sociedade maçónica que na profana, porque na sociedade maçónica, os indivíduos estão mais chegados uns aos outros, exigindo deles tolerância, fraternidade, principiando pela família, que reflecte no procedimento social.
O cumprimento destas tarefas tão importantes para o indivíduo e para a comunidade significa, ao mesmo tempo, para os maçons o desdobramento benéfico de suas próprias disposições.
O respeito e a realização de tão nobre tarefa não podem ficar a mercê do acaso ou da arbitrariedade, mas deve ser assegurada por uma verdadeira obrigação.
A Maçonaria brasileira com o seu papel na formação do homem sempre foi uma constante na consciência de liderança nacional da importância da função da família.
À família é atribuído o papel de primeira célula da organização social, responsável pela transmissão dos valores morais, espirituais, para que o mundo alcance a Paz.
Portanto, a família, para a Maçonaria, tem o merecimento que lhe atribuiu o Irmão Rui Barbosa que aconselhava: “multiplicai a célula e tendes o organismo. Multiplicai a família, e tereis a Pátria”.
A família natural do maçon passa a ser também maçónica, a partir do momento em que o Iniciando recebe a luz (da Iniciação), a primeira coisa que vê é seus novos Irmãos armados com espadas, jurando protegê-lo sempre que for preciso. Passa a ser tratado como Irmão, demonstrando-se, assim, o carácter fraternal da Maçonaria. A partir daí, todos que a ele se referem o tratam por Irmão, os filhos do Irmão passam a tratá-lo como “tio” e as esposas de seus Irmãos passam a ser “cunhadas”. Forma-se nesse momento um elo firme entre o novo membro da Ordem e a família maçónica. Na realidade, uma Loja constitui uma família, pois todos os seus membros são Irmãos entre si, sem o destaque hierárquico; O Venerável Mestre continua sendo o irmão do novel Aprendiz. Se existe essa família, a união de seus membros deve ser cultivada e todos se amarem com laços afectivos.
É difícil precisar, no entanto, como esse vínculo se cria e se mantém. Por quê? Ao sermos reconhecidos como Maçons o outro lado prontamente abre um sorriso amigo e o abraça, como se já o conhecesse de toda a vida. Que força é essa que nos une e faz com que homens de diferentes raças, credos, profissões e classes sociais, tenham um sentimento de irmandade mais forte entre eles, que entre irmãos de sangue ?
A Maçonaria reserva um lugar de destaque à Mulher. Com a evolução e a modernidade actuais, a mulher está conquistando, ao lado do homem, um lugar igual. E nós, Maçons, não temos motivos para combater os ideais de emancipação da mulher. Ao invés, é nosso dever amparar a mulher em seus esforços para obter liberdade e igualdade. Há casos em que o Candidato já está vivendo sua segunda união matrimonial. É importante que descubramos se sua esposa anterior e os filhos dessa união ficaram amparados e se o Candidato está cumprindo com os deveres como um dos construtores daquela família. Quem age correctamente não se opõe a essa providência.
Portanto, sob o critério filosófico, a Maçonaria destina-se tanto ao homem como a mulher, complementos que são um do outro e destinados como estão a constituir a família base celular de uma sociedade bem organizada. "Por isso deixa o homem pai e mãe, e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne" (Géneses 2:24).
Se em nossos dias são frequentes as agressões à família e à vida, é também confortador, podermos nos unir para abrir o coração para aprendermos através do estudo de nossos Rituais, que sempre nos ensina a força do Amor, capaz de sacrifício, diálogo e coragem.
O encontro semanal em nossas Lojas, sob a protecção do Criador, seja para nós um encontro com a própria família e a ocasião de sentirmos a alegria de sermos todos Irmãos à luz de Deus.
A Maçonaria convoca seus adeptos a oferecer seus serviços à família para que possa alcançar, dia a dia, o ideal de união revelado pelo Grande Arquitecto do Universo.
Texto de Valdemar Sansão – M:. M:.
 
FONTE: Respeitável Loja Macônica Mestre AFFONSO DOMINGUES

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Nosso Pai
Quando acordamos para a razão, descobrimos os traços vivos da Bondade de Deus, por toda parte.



Seu imenso carinho para conosco está no Sol que nos aquece, dando sustento e alegria a todos os seres e a todas as coisas; nas nuvens que fazem a chuva para o contentamento da Natureza; nas águas dos rios e das fontes, que deslizam para o benefício das cidades, dos campos e dos rebanhos; no pão que nos alimenta; na doçura do vento que refresca; na bondade das árvores que nos estendem os galhos dadivosos, em forma de braços ricos de bênçãos; na flor que espalha perfume na atmosfera; na ternura e na segurança de nosso lar; na assistência dos nossos pais, dos nossos irmãos e dos nossos amigos que nos ajudam a vencer as dificuldades do mundo e da vida, e na providência silenciosa, que nos garante a conservação da saúde e da paz espiritual.



Muitos homens de ciência pretendem definir Deus para nós, mas, quando reparamos na proteção do Todo-Poderoso, dispensada aos nossos caminhos e aos nossos trabalhos na Terra, em todos os instantes da vida, somos obrigados a reconhecer que o mais belo nome que podemos dar ao Supremo Senhor é justamente aquele que Jesus nos ensinou em sua divina oração: “Nosso Pai”.


Meimei

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Consciência
Charles Evaldo Boller

Sinopse: Considerações a respeito do treinamento e uso da consciência.

O maçom é sempre obediente? Não! Ele obedece a uma treinada consciência voltada para o bem e baseada em princípios morais.

Consciência é capacidade humana que pode ser treinada e desenvolvida. É o utilitário de segurança mais usado pelo homem sábio com vistas à pureza moral. É ela quem efetua comparações com padrões de moral que freiam o mal. A constante convivência com pessoas detentoras de elevada moral injeta na mente comportamentos, pensamentos, crenças e diretrizes que a treinam. Estudar e filosofar temas morais também contribui na sua boa edificação. Mas não é suficiente! É necessário querer e estar disposto em aceitar mudanças, orientações e advertências. Quando certa ação conflita com o padrão desenvolvido no condicionamento moral, soa o aviso de alerta ao inicio da contenda, empunha-se a consciência como escudo. Ela acusa e defende o homem do proceder que prejudica. Deixa de funcionar se estiver cauterizada, tornada insensível por inúmeros atentados que a desrespeitam. A consciência gera culpa e esta imobiliza a ação errada. A companhia de pessoas promíscuas e praticantes de atos atentatórios à moral prejudica seu bom condicionamento. É semelhante ao arrancar de terminações nervosas da carne que fica destituída de tato. A ação da pessoa passa a ser controlada pelo temor a castigos e não mais ao sentimento de culpa que imobiliza a ação do mal.

No Rito Escocês Antigo e Aceito o adepto recebe de herança cultural a direção que preconiza a obediência de caserna, disciplina marcial e rígida, influência de vetustas ordens de cavalaria e profissionais. A companhia de pessoas boas e disciplinadas auxilia no desenvolvimento de boa consciência. Razão da boa e criteriosa escolha de novos obreiros. Profano que não possui estatura mínima em sentido moral é impedido de entrar na Maçonaria, daí a importância de rigorosas sindicâncias. Uma vez iniciado, a convivência pacífica e amorosa entre os maçons proporciona a sintonia fina da consciência sensível e inteligente. Quem não treina a sua consciência faz de si um animal incapaz de ocupar-se de outra coisa, a não ser daquela do destino próprio dos animais.

Se a consciência do maçom está afinada com a moral, este pode até dispensar o livro da lei no altar dos juramentos. O detentor de boa consciência tem um livro da lei escrito no coração e na mente. Para o cristão, a bíblia judaico-cristã é símbolo da sua consciência. Representa espiritualidade e racionalidade de todo homem bom dotado de consciência voltada ao bem. Aquele que passa por transformação em sentido lato, reunindo em si bons princípios morais, éticos, religiosos, emocionais, físicos e espirituais tem o alicerce de sua consciência construído sobre a rocha. O maçom usa da inteligência para educar-se e afinar a consciência ao que ditam as leis naturais estabelecidas pelo Grande Arquiteto do Universo. Desenvolve e entende a mensagem contida na filosofia da Maçonaria, em cuja escalada peregrina ao interior de si. Trabalha a pedra por dentro nos exercícios de individuação tornando-se consciente do milagre da vida que o anima. E nesse seu mundo interior desenvolve acurada consciência, instrumento que o desculpa e acusa, diferencia entre bem e mal, percebe certo e errado.

Na história da Maçonaria observa-se que quando de parte de maçons ocorreu desobediência civil, aconteceram fatos que promoveram melhorias às sociedades humanas. Treinado a consciência o maçom desobedece tudo o que possa bloquear o exercício da liberdade responsável, o bom uso da liberdade com possibilidades de escolhas. O maçom obedece mais à consciência criada pelo Grande Arquiteto do Universo que às leis, dogmas religiosos e ideologias políticas. Parte do princípio que aceitar de forma passiva às leis injustas as tornam legítimas. A sua espiritualidade associada à sua boa consciência levam-no a caminhar conforme os elementos de seu projeto existencial onde não obedece a ordens que conflitam com a moral guardada pela consciência. Tem o dever juramentado de rebelar-se contra leis e dominações injustas. Cultiva e condiciona sua consciência para a ação orientada ao amor fraterno; aquele sentimento em ação que soluciona a todos os problemas de relacionamento e humaniza o homem. O treinamento da consciência é atividade permanente do maçom e é por isso que ele começa cada tarefa invocando a glória do Grande Arquiteto do Universo.

Bibliografia:
 1. ALMEIDA, João Ferreira de, Bíblia Sagrada, ISBN 978-85-311-1134-1, Sociedade Bíblica do Brasil, 1268 páginas, Baruerí, 2009;
 2. BAYARD, Jean-Pierre, A Espiritualidade na Maçonaria, Da Ordem Iniciática Tradicional às Obediências, tradução: Julia Vidili, ISBN 85-7374-790-0, primeira edição, Madras Editora limitada., 368 páginas, São Paulo, 2004;
 3. CAMINO, Rizzardo da, Reflexões do Aprendiz, Coleção Biblioteca do Maçom, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 157 páginas, Londrina, 1992;
 4. RODRIGUES, Raimundo, A Filosofia da Maçonaria Simbólica, Coleção Biblioteca do Maçom, Volume 04, ISBN 978-85-7252-233-5, primeira edição, Editora Maçônica a Trolha limitada., 172 páginas, Londrina, 2007.

Data do texto: 08/12/2011.
Sinopse do autor: Charles Evaldo Boller, autor, engenheiro eletricista e maçom de nacionalidade brasileira. Nasceu em 4 de dezembro de 1949 em Corupá, Santa Catarina. Com 62 anos de idade.
Loja Apóstolo da Caridade 21 Grande loja do Paraná.
Rito: Rito Escocês Antigo e Aceito
Local: Curitiba.
Grau do Texto: Aprendiz Maçom.
Área de Estudo: Comportamento, Consciência, Educação, Espiritualidade, Filosofia, História, Liberdade, Maçonaria, Política.

terça-feira, 28 de julho de 2015


A importância que um Padrinho tem na formação de um Maçom...

Escrito por Nuno Raimundo

Um padrinho deve ter a sensibilidade para poder analisar quem deve ou não fazer parte da Augusta Ordem Maçónica. E padrinho pode ser qualquer maçom exaltado à condição de Mestre. 

O Mestre é o maçom de pleno direito. Logo tem a responsabilidade de fazer respeitar os princípios da Ordem, auxiliar na formação dos seus Irmãos, detenham eles o grau que tiverem, e de apesar de não fazer proselitismo, deve procurar no mundo profano quem tenha qualidades para ingressar na Maçonaria e que com essa admissão possa desenvolver um trabalho correto tanto pela Ordem Maçónica bem como pela sociedade civil na sua generalidade. 

O padrinho não tem de ser um guru nem ser um visionário (pois ele será também um eterno aprendiz), o papel que ele deverá representar  para o seu afilhado é o de um guia, de uma pessoa que o auxílie na sua integração na Loja bem como o de sendo alguém que o ajude na sua formação maçónica, principalmente nos primeiros tempos, em complemento com a formação que é efetuada na loja, auxiliando também o Segundo Vigilante (cargo oficial desempenhado pelo terceiro elemento da  hierárquia de uma loja maçónica) no cumprimento das suas funções, nomeadamente como formador dos Aprendizes Maçons. 

Compete ao padrinho após identificar no mundo profano alguém com as capacidades intelectuais e morais que são necessárias para alguém ser reconhecido maçom, abordar o mesmo da forma como achar que será melhor recebida pelo seu interlocutor. Na maioria das situações, a abordagem é feita pelo reverso, alguém que é profano e que se identifica com a Maçonaria intercede junto de um maçom para que lhe seja concedida a entrada na Ordem. 

Independente da maneira de como é feita a proposição, cabe ao maçom que irá ser o padrinho efetuar algumas diligências, ou seja, conhecer os gostos e preferências do seu futuro afilhado bem como dos hábitos e rotinas que ele possa ter  (se não os conhecer anteriormente), isto é, tudo aquilo que é habitual num ser humano. Conhece-lo!

E  numa fase posterior, se concluir que o profano detém  as qualidades necessárias para entrar na Maçonaria, deve abordar alguns temas de âmbito maçónico, retirando algumas das dúvidas que possam persisitir na mente do seu futuro apadrinhado sobre o que a Ordem Maçónica é e qual o seu papel no mundo. 

Mas mais que isso, na minha opinião, o futuro padrinho deve fazer-se acompanhar pelo profano em eventos maçónicos de cariz aberto (eventos brancos) onde este poderá ter um contato mais alargado com o que é a Ordem, ou seja, frequentar tertúlias e palestras onde a Maçonaria seja o tema principal a ser abordado.
Neste caso, admito que começará aqui, para mim, a formação maçónica do futuro iniciado. Pois se o mesmo afinal decidir que não se identifica com o que encontra, observa e escuta, então o processo de candidatura não terá início e o profano aproveitará apenas para aumentar a sua cultura geral sobre o que à Maçonaria concerne e ter uma opinião mais concreta sobre esta Augusta Ordem.

No entanto, e caso o profano se identifique claramente com o que lhe é mostrado, deverá então ser iniciado o processo de candidatura à admissão numa loja maçónica. E de preferência que seja na loja que é integrada pelo seu padrinho. Isso é de extrema importância. E porquê?! 

Porque durante o desenrolar do processo de candidatura, os membros da loja confiarão no zelo que o padrinho se propõe a cumprir ao apadrinhar a candidatura em avaliação porque o conhecem, e  também estes por sua vez, respeitarão quem vier a ser escolhido para ser acolhido pela loja. 

E depois, porque o padrinho deverá acompanhar o seu afilhado na assistência das sessões da loja a que estes pertencem, para que este não se sinta desapoiado e nem desintegrado num grupo de gente que à partida não o conhece bem nem o qual deverá conhecer devidamente. 

Acontece também o contrário, por vezes quem chega a uma loja maçónica já é popular no mundo profano ou puderá ter relações profanas com alguns membros da loja e assim a sua integração é mais facilmente consumada.

Mas e apesar de todo o fraternalismo que existe na Maçonaria em geral, os “primeiros tempos de vida” de um maçom podem-lhe parecer estranhos porque terá de ser relacionar inclusivé com gente que talvez, no mundo profano, preferiria evitar. É verdade, tal pode acontecer e ainda bem que tal assim acontece. Desta forma, é possível um entendimento que de outra maneira não seria possível acontecer. Porque os irmãos são “obrigados” a confraternizar, logo, encontrar "pontos de comunhão” e de “convergência”. Também, pelo facto de se terem de relacionar, isso obrigará a que as pessoas se conheçam melhor, e com isso, desfazer alguns preconceitos que poderiam ter anteriormente e que se assumirão posteriormente, como errados e descabidos. Outros quiçá, manterão a mesma opinião que anteriormente. Tal poderá acontecer, somos humanos e em relação a isso pouco se pode fazer… A não ser, tolerar e respeitar o próximo tal como outra pessoa qualquer o deve merecer. 

- Os maçons são pessoas como as outras, não são perfeitos; a  forma de como combatem as suas paixões e evitam os seus vícios é que os difere dos restantes membros da sociedade -.

E ter um padrinho que os guie corretamente nessas situações,  que lhes dê a mão para os apoiar quando necessitarem disso e que acima de tudo os critique quando o deve fazer para os manter num bom caminho, marcará de todo a diferença. 

Isso é “meio caminho andado” para um crescimento maçónico correto e que não seja funesto para a Ordem no futuro. 

Os casos que normalmente vêm a público no mundo profano devem-se a erros de castingou a gente que foi mal formada ou que não se identificou depois com os princípios morais que encontrou no interior da Maçonaria. 

Por isto, é que não basta a um padrinho convidar ou apadrinhar alguém apenas por ser seu amigo, por ser seu colega ou por essa pessoa ter alguma influência ou notoriedade no mundo profano. Esse “alguém” terá mesmo de se identificar com a Maçonaria e saber um pouco ao que vai, porque caso contrário, criará uma perca de tempo ao próprio e à loja maçónica que o acolher com as consequências que sabemos que poderão suceder e que algumas vezes ocorrem mesmo! 

E nos casos em que os maçons “derrapam” ou se desviam do seu caminho na virtude, os padrinhos deveriam ser também responsabilizados, isto é, serem chamados à atenção por terem trazido para dentro da Instituição Maçónica quem agiu de forma errada e que levou a que a imagem desta Augusta Ordem fosse questionada profanamente. Obviamente que não digo que fossem sancionados, mas que exista uma conversa para os alertar do perigo que é de apadrinhar gente com este tipo de conduta para que no futuro sejam mais zelosos nos seus apadrinhamentos e que também tivessem acompanhado a conduta do seu apadrinhado. Naturalmente que um padrinho não pode ser culpado, a não ser que seja cúmplice, da atuação do seu afilhado, mas se puder prever que o mesmo possa se desviar e errar, deve alertar o mesmo dos riscos que este corre, seja de suspensão ou até mesmo de expulsão da Ordem, com tudo o que isso acarretará moralmente para ambos. Porque mesmo em surdina, as “orelhas” do padrinho sofrem sempre as consequências dos atos do seu afilhado. É habitual o ser humano criticar algo, todos somos “treinadores de bancada”, logo criticar-se algo que não correu bem é a consequência lógica de tal.

Por isso até mesmo quem entra na Maçonaria deve refletir na sua conduta para que não ponha a imagem dos outros irmãos em questão..

Porém, e ainda no âmbito da instrução maçónica do seu afilhado, o padrinho deverá  complementar a formação que será concedida pela loja ao seu apadrinhado; porque ao lhe demonstrar também que a Maçonaria vive de símbolos, metáforas e alegorias, mas fundamentalmente, da prática de rituais próprios, também ele (padrinho) ao instruir o seu afilhado, poderá refletir e por em prática os conhecimentos que já adquiriu até então - o que é sempre uma mais valia pessoal - e que lhe permitirá vivenciar o que também ele aprendeu durante a sua formação até atingir o mestrado.
- Conhecer e ensinar outrém é do melhor que o ser humano poderá fazer pelo seu semelhante. Tanto que acredito que o Conhecimento somente é  Sabedoria quando compartilhado-. 

Mais tarde, quando o seu afilhado já se encontrar na condição de mestre, já não será tão essencial ter aquela “especial” atenção que considero como importante na caminhada de um maçom, porque este já atingiu uma parte importante da sua formação maçónica e concluiu o seu percurso até à mestria. Mas no entanto,  nunca o deverá abandonar, pois apesar de este ser um irmão seu, será sempre o seu afilhado, logo alguém que um dia reconheceu como tendo capacidades e qualidades maçónicas. E essa responsabilidade nunca desaparecerá.  

E isto é algo que por vezes acontece e que eu considero como sendo nefasto para a vida interna de uma Obediência. Não basta convidar alguém, se iniciar alguém, (mal) formar alguém e depois deixá-lo à  mercê dos tempos e vontades… Virar as costas a um irmão, mesmo que seja inconscientemente, nunca trará resultados frutuosos para ninguém e principalmente para a Ordem. É na nossa união que reside a nossa força, é com nosso apoio que conseguimos enfrentar o dia-a-dia.  

E se isto poderá parecer como demasiado simplista e inocente, não nos devemos esquecer que é no nosso espírito de corpo que se encontra a fonte da egrégora que é criada em loja e que é a impulsionadora da nossa fraternidade. 

Assim, alguém que queira apadrinhar a candidatura de um profano, terá de assumir que adquire uma responsabilidade tal, que nunca será irrelevante e que nos seus “ombros” suportará o “peso” de uma Ordem iniciática e de cariz fraternal  como o é a Maçonaria. E que terá como seus deveres  principais: reconhecer, informar, transmitir/formar e acompanhar  quem ele considerar como sendo um válido (futuro) membro da  Maçonaria.
Não será uma tarefa fácil, esta de se apadrinhar alguém, mas este é um compromisso que os maçons assumem para com a Ordem e a bem da Ordem...