quinta-feira, 21 de dezembro de 2017


A ignorância é o princípio da sabedoria

 

Nietzsche disse que “a sabedoria é um paradoxo”, já que “o homem que mais sabe é aquele que mais reconhece a vastidão de sua ignorância”. O pensamento do filósofo alemão corrobora com a máxima socrática do “só sei que nada sei”, isto é, com a ideia de que a ignorância é o princípio do conhecimento e que, portanto, é necessário estar aberto à reflexão constante para que se possa atingir o mínimo de conhecimento e sabedoria.

Em um contexto como o nosso, em que há uma grande carga de informações, sobre os mais diversos temas, disponível, a ideia que correlaciona ignorância e sabedoria parece não fazer tanto sentido. O que se observa é a formação de um conjunto enorme de pessoas que se coloca como possuidor das verdades últimas sobre as coisas, ainda que essas verdades possam mudar constantemente e rapidamente de acordo com a melhor conveniência de quem as define.

Dessa forma, cria-se um ambiente inóspito para que o conhecimento possa se desenvolver, haja vista a sacralização feita pelos indivíduos das coisas que eles julgam como sendo verdadeiras e, por conseguinte, a impossibilidade de questionamento e de debate sobre certas coisas, dogmatizadas. Isso não significa que as pessoas não possam acreditar em algo com veemência ou que não exista uma verdade sobre as coisas, mas até mesmo quando acreditamos em algo, precisamos estar abertos ao novo, o que só é possível se estivermos abertos à reflexão e ao diálogo.

Em outras palavras, é preciso estar aberto a outras formas de pensar, para que problematizações possam surgir, a fim de ratificar aquilo que acreditamos (com mais embasamento e mais espaço discursivo) e/ou para que possamos observar, analisar e seguir novas perspectivas, até então desconhecidas. Nesse sentido, percebe-se que o outro, que pensa de forma antagônica à nossa, passa a ser considerado, o que estimula a interação entre situações contraditórias a partir de uma perspectiva dialética, ou seja, de abertura para o novo que possa surgir por meio do encontro estabelecido.

Essa relação dialética que se instaura com gênese no reconhecimento da ignorância, isto é, da compreensão da não completude sobre o conhecimento de todas as coisas, permite que o sujeito possa crescer intelectualmente, já que passa a possuir um horizonte com maior amplitude de alcance, além de evitar o enrijecimento dos conhecimentos e convicções, bem como, o desenvolvimento do individualismo, impeditivo para a compreensão, o respeito e o diálogo com cosmovisões e crenças diferentes das que possuímos.

Fechar-se em si mesmo e acreditar que não há nada a ser aprendido não denota convicção do que se acredita, mas antes, ignorância, pois – como falava Paulo Freire – “Onde quer que haja mulheres e homens, há sempre o que fazer, há sempre o que ensinar, há sempre o que aprender”. Assim, para que consigamos atingir o mínimo de sabedoria é imprescindível que consideremos e busquemos a sabedoria que está no mundo, do qual não somos todo, mas apenas, parte.

Autor: Erick Morais

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017


O Que é Ser um (Verdadeiro) Maçom!


           
A Maçonaria enquanto filosofia e sociedade, exorta consciência e trabalho interior e pessoal.


          Enquanto filosofia, demanda discernimento e cultura.
          Enquanto trabalho interior, demanda interioridade e movimento subjetivo.
         Logo, ser Maçom não é status a ser apreciado pelo que os outros dizem que se deve ser, mas aquilo que você é em sua própria consciência.
         Na aparência, muito são bons, caridosos e corretos, mas perante o Grande Arquiteto do Universo e sua própria consciência, é que se sabe quem é Maçom.


         Se colocamos o reconhecimento da Maçonaria enquanto trabalho interior para os outros, criamos a ilusória condição da aparência como ditame de quem é "mais Maçom" do que o outro. 


         A verdadeira Maçonaria é esculpida no interior da subjetividade, legando a cada um o ônus de se inscrever no livro de presenças da Grande Loja do Oriente Eterno...


        Não se pode confundir o reconhecimento de direito, com o reconhecimento de fato. 


        Ter carteira, estar em dia com a Loja, é condição para ser reconhecido como Regular. 


        Mas ser honrado, praticar os ensinamentos maçônicos e vivenciar a cátedra do Grande Arquiteto do Universo é ofício a ser tomado pelo Mestre Interior e pelos Vigilantes da própria consciência e da vida. 


      Por isso me manifesto contra certos títulos honoríficos. Porque, dar comenda a quem pratica a caridade é exortar superficialidade em um ato que é obrigação do Maçom e do seu estado de consciência. 


    O Maçom que se dá para aparecer, não faz Caridade, é apenas um aproveitador das circunstâncias, radicado na possibilidade do aparecer e nada mais. 


   O Maçom precisa ser um “Construtor de Templos à Virtude”, pois assim são os ditames da Fraternidade.


   A Loja é a escola de sua formação. Para esse mister, a ela os Maçons comparecem com assiduidade, para com os seus Irmãos instruírem-se reciprocamente nas práticas da Virtude. 


     O Maçom, mesmo esculpindo-se, adapta-se ao espaço que lhe foi reservado no levantamento do edifício social, “submetendo suas vontades e vencendo suas paixões”. 


    Mas precisa estar advertido de que “na Construção do Templo”, de permeio, no material, encontram-se vários obstáculos, entre eles a ignorância.
        Por isto a Maçonaria coloca na mais alta advertência o combate a ela. É do seu ideário o combate a essa triste condição da humanidade, alertando que a “ignorância é a mãe de todos os vícios.” 


        Então, “cavar-lhe masmorra” é missão fundamental.
      O Maçom é um missionário que se forma construtor, não para ostentar o diploma colocado na parede de seu gabinete de trabalho, mas para ir construir.
        Daí o entendimento de que a Loja Maçônica não é o limite. E sim a vertente.
       É como se desse interpretação e praticidade à parábola do “semeador” que recebeu as sementes, mas não as guardou em seu embornal.
       Daí a importância do “ser livre e de bons costumes” na concepção maçônica.
     Livre e de Bons Costumes implica que, apesar de todo homem ser livre, na real acepção da palavra, pode estar preso a entraves sociais que o privem de parte de sua liberdade e o tornem escravo de suas próprias paixões e preconceitos.
      Assim, é desse jugo que deve libertar-se, e só o fará se for de Bons Costumes, ou seja, se já possuir preceitos éticos (virtudes) bem fundamentados em sua personalidade.


     O ideal dos Homens Livres e de Bons Costumes, que nossa sublime Ordem procura ensinar, mostra que a finalidade da Maçonaria é, desde épocas mais remotas, dedicar-se ao aprimoramento espiritual e moral da Humanidade, pugnando pelos direitos dos homens e pela Justiça, pregando o amor fraterno, procurando congregar esforços para uma maior e mais perfeita compreensão entre os homens, a fim de que se estabeleçam os laços indissolúveis de uma verdadeira fraternidade, sem distinção de raças nem de crenças, condição indispensável para que haja realmente paz e compreensão entre os povos.


       Livre, palavra derivada do latim, que em sentido amplo quer significar “tudo o que se mostra isento de qualquer condição, constrangimento, subordinação, dependência, encargo ou restrição”.


         A qualidade ou condição de Livre, assim atribuído a qualquer coisa, importa na liberdade de ação a respeito da mesma, sem qualquer oposição, que não se funde em restrição de ordem legal e principalmente moral.
         Em decorrência de ser Livre, vem a Liberdade, que é a faculdade de se fazer ou não fazer o que se quer; de pensar como se entende; de ir e vir a qualquer parte; quando e como se queira; exercer qualquer atividade; tudo conforme a livre determinação da pessoa; quando não haja regra proibitiva para a prática do ato ou não se institua princípio restritivo ao exercício da atividade.
         Bem verdade é que a Maçonaria pretende ser uma escola de aperfeiçoamento moral, onde nós homens nos aprimoramos em benefício de nossos semelhantes, desenvolvendo qualidades que nos possibilitam ser cada vez mais úteis à coletividade. 


         Não nos esqueçamos, porém, que, de uma pedra impura jamais conseguiremos fazer um brilhante, por maior que sejam nossos esforços.
         O conceito maçônico de Homem Livre é diferente, é bem mais elevado do que o conceito jurídico.


         Para ser Homem Livre, não basta ter liberdade de locomoção, para ir e vir.
         Goza de liberdade o homem que não é escravo de suas paixões, que não se deixa dominar pela torpeza dos seus instintos de fera humana.
         Maçom Livre é o que dispõe da necessária força moral para evitar todos os vícios que infamam, que desonram, que degradam. 


         O supremo ideal de liberdade é livrar-se de todas as propensões para o Mal, despojar-se de todas as tendências condenáveis, sair do caminho das sombras e seguir pela estrada que conduz à prática do Bem, que aproxima o homem da perfeição intangível.


         Sendo Livre e, por consequencia, desfrutando de liberdade, o homem deve, sempre pautar sua vida pelos preceitos dos bons costumes, que é expressão usada para designar o complexo de regras e princípios impostos pela moral, os quais traçam a norma de conduta dos indivíduos em suas relações domésticas e sociais, para que estas se articulem seguindo as elevadas finalidades da própria vida humana.


          O bom Maçom, Livre e de Bons Costumes, é leal. Quem não é leal com os demais, é desleal consigo mesmo e trai os seus mais sagrados compromissos.
          O bom Maçom cultiva a fraternidade, não se abate, jamais se desmanda, não se revolta com as derrotas, é nobre na vitória e sereno se vencido, porque sabe triunfar sobre os seus impulsos, dominando-os; pratica o bem porque sabe que é amparando o próximo e sentindo suas dores é que nos aperfeiçoamos.


          O bom Maçom, abomina o vício, porque este é o contrário da Virtude, é amigo da Família, porque ela é a base fundamental da humanidade.
          O bom Maçom, não se envaidece, não vê no auxílio ao semelhante um gesto excepcional, cuja prática constitui um prazer.


          Não promete senão o que pode cumprir. Não odeia. O ódio destrói a si e ao próximo.


          Finalmente, o Verdadeiro Maçom, não tem apego a cargos!


          Os Verdadeiros Maçons buscam o trabalho em que façam destacar a Verdadeira Maçonaria.


         O valor da existência de um Maçom é julgado pelos seus Atos e pelo exercício do Bem praticado.


(Trabalho apresentado na Loja Prof. Herminio Blackman-1761 – Or.’. de Vila Velha – ES pelo Ir.’. Fernando Silva de Palma Lima – CIM 115.552)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


O Natal do Cristo

Emmanuel

 

A Sabedoria da Vida situou o Natal de Jesus frente do Ano Novo, na memória da Humanidade, como que renovando as oportunidades do amor fraterno, diante dos nossos compromissos com o Tempo.

Projetam-se anualmente, sobre a Terra os mesmos raios excelsos da Estrela de Belém, clareando a estrada dos corações na esteira dos dias incessantes, convocando-nos a alma, em silêncio, à ascensão de todos os recursos para o bem supremo.

A recordação do Mestre desperta novas vibrações no sentimento da Cristandade.

Não mais o estábulo simples, nosso próprio espírito, em cujo íntimo o Senhor deseja fazer mais luz...

Santas alegrias nos procuram a alma, em todos os campos do idealismo evangélico.

Natural o tom festivo das nossas manifestações de confiança renovada, entretanto, não podemos olvidar o trabalho renovador a que o Natal nos convida, cada ano, não obstante o pessimismo cristalizado de muitos companheiros, que desistiram temporariamente da comunhão fraternal.

E o ensejo de novas relações, acordando raciocínios enregelados com as notas harmoniosas do amor que o Mestre nos legou.

E a oportunidade de curar as nossas próprias fraquezas retificando atitudes menos felizes, ou de esquecer as faltas alheias para conosco, restabelecendo os elos da harmonia quebrada entre nós e os demais, em obediência à lição da desculpa espontânea, quantas vezes se fizerem necessárias.

È o passo definitivo para a descoberta de novas sementeiras de serviço edificante, através da visita aos irmãos mais sofredores do que nós mesmos e da aproximação com aqueles que se mostram inclinados à cooperação no progresso, a fim de praticarmos, mais intensivamente, o princípio do “amemo-nos uns aos outros”.

Conforme a nossa atitude espiritual ante o Natal, assim aparece o Ano Novo à nossa vida.

O aniversário de Jesus precede o natalício do Tempo.

Com o Mestre, recebemos o Dia do Amor e da Concórdia.

Com o tempo, encontramos o Dia da Fraternidade Universal.

O primeiro renova a alegria.

O segundo reforma a responsabilidade.

Comecemos oferecendo a Ele cinco minutos de pensamento e atividade e, a breve espaço, nosso espírito se achará convertido em altar vivo de sua infinita boa vontade para com as criaturas, nas bases da Sabedoria e do Amor.

Não nos esqueçamos.

Se Jesus não nascer e crescer, na manjedoura de nossa alma, em vão os Anos Novos se abrirão iluminados para nós.

domingo, 17 de dezembro de 2017


Medicina do Futuro
 
Justifica-se o esforço dos experimentadores da medicina tentando descobrir um caminho novo para atenuar a miséria humana; todavia, sem abstrairmos das diretrizes espirituais, que orientam os fenômenos patogênicos nas questões das provas individuais, temos necessidade de reconhecer a imprescindibilidade da saúde moral, antes de atacarmos o enigma doloroso e transcendente das enfermidades físicas do homem. (Emm.)
 
Analisando-se todos os descobrimentos notáveis dos sistemas terapêuticos dos vossos dias, orientados pelas doutrinas mais avançadas, em virtude dos novos conhecimentos humanos com respeito à bacteriologia, à biologia, à química, etc., reconhecemos que, com exceção da cirurgia, que teve com Ambrósio Paré, e outros inteligentes cirurgiões de guerra, o mais amplo dos desenvolvimentos, pouco têm adiantado os homens na solução dos problemas da cura, dentro dos dispositivos da medicina artificial por eles inventada.
Apesar do concurso precioso do microscópio, existem hoje questões clínicas tão inquietantes, como há duzentos anos. Os progressos regulares que se verificam na questão angustiosíssima do câncer e da lepra, da tuberculose e de outras enfermidades contagiosas, não foram além das medidas preconizadas pela medicina natural, baseadas na profilaxia e na higiene. Os investigadores puderam vislumbrar o mundo microbiano sem saber elimina-lo. Se foi possível devassar o mistério da Natureza, a mentalidade humana ainda não conseguiu aprender o mecanismo das suas leis. É que os estudiosos, com poucas exceções, se satisfazem com o mundo aparente das formas, demorando-se nas expressões exteriores, incapazes de uma excursão espiritual no domínio das origens profundas. Sondam os fenômenos sem lhes auscultarem as causas divinas. (Emm.)
 
A medicina do futuro terá de ser eminentemente espiritual, posição difícil de ser atualmente alcançada, em razão da febre maldita do ouro; mas os apóstolos dessas realidades grandiosas não tardarão a surgir nos horizontes acadêmicos do mundo, testemunhando o novo ciclo evolutivo da Humanidade. (Emm.)
 
Quando o homem espiritual dominar o homem físico, os elementos medicamentosos da Terra estarão transformados na excelência dos recursos psíquicos e essa grande oficina achar-se-á elevada a santuário de forças e possibilidades espirituais junto das almas. (Com.)
PALAVRAS  DE  EMMANUEL
 
 
FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
EMMANUEL
 

sábado, 16 de dezembro de 2017


A Máquina Divina

Emmanuel

 

Meu amigo,

O corpo físico é a maquina divina que o Senhor nos empresta para a confecção de nossa felicidade na Terra.

Os vizinhos do bruto precipitam-na ao sorvedouro da animalidade.

Os maus empregam-na criando o sofrimento dos semelhantes.

Os egoístas valem-se dela para esgotarem a taça de prazeres fictícios.

Os orgulhosos isolam-na sem proveito.

Os vaidosos cobrem-na de adornos efêmeros para reclamarem o incenso da multidão.

Os intemperantes destroem-na.

Os levianos mobilizam-na para menosprezar o tempo.

Os tolos usam-na inconsideradamente, incentivando as sombras do mundo.

Os perversos movimentam-lhe as peças na consecução de desordens e crimes.

Os viciados de todos os matizes aproveitam-lhe o temporário concurso na manutenção da desventura de si mesmos.

Os indisciplinados acionam-lhe os valores estimulando o ruído inútil em atividades improdutivas.

O espírito prudente, todavia, recebe essa maquina valiosa e sublime para tecer, através do próprio esforço, com os fios da caridade e da fé, da verdade e da esperança, do amor e da sabedoria, a túnica de sua felicidade para sempre na Vida Eterna.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Biblioteca

Charles Evaldo Boller

Caridade, Prática do Amor ao Próximo


O maçom está obrigado a praticar a Caridade como parte de sua formação moral, porque pratica-la não lhe é livre. Neste mundo cheio de maldade, tirania e opressão a Caridade não é facultativa ao franco maçom, semelhante à Justiça, ela é obrigatória.
 
Principalmente depois que ele se dispôs por juramento a pratica-la. Enquanto Justiça é aplicada pela força, porque justiça sem força não existe, a Caridade deve emanar das fibras mais íntimas do coração, de um fogo aceso lá por característica de projeto, idealizado pelo Grande Arquiteto do Universo. Dicotomizando sobre o tema a partir da Caridade como a predisposição da alma em distribuir o bem sem olhar a quem nem buscar recompensa, esta deve ser praticada com o coração sem constranger ao beneficiário, senão, ao invés de ser considerado ato de amor o mesmo não passa de mera expressão da vaidade e uma espécie de massagem no ego.
 
Caridade não pode destruir a liberdade do outro, convertendo-o em dependente ficando o autor da Caridade com uma espécie de tutela sobre o beneficiado. Caridade tem grande possibilidade de gerar ódio no coração do beneficiado se feita de forma a constranger. Por isso é melhor que o receptor da Caridade ignore de onde vem o benefício. Se a Caridade for objeto de projeção pessoal do doador, o beneficiado, ao invés de gratidão desenvolverá ódio, ficando o ato da Caridade como simples obrigação moral ou dever de consciência do doador.
 
Para a maioria dos que recebem Caridade composta de bens materiais diversos, até de dinheiro, o ato de Caridade não passa de mera obrigação do doador, isto porque para o mesquinho, o doador o faz por obrigação, porque tem demais e o pouco que cai de sua mesa não lhe faz falta. Então é habitual os receptores contumazes desenvolverem, além de apatia e preguiça para irem à luta pela sobrevivência, um sentimento de ódio pelo doador, o que fazem surgir ideologias políticas como o Comunismo e Anarquia. No mínimo o doador é presenteado de volta com indiferença: o que constitui o contrário do amor.
 
De onde se pode deduzir que a Caridade pode desenvolver sentimentos e vícios se não for aplicada com sabedoria. Lendo a Caridade como objeto filosófico da Maçonaria, ela sustenta a loja como base de três colunas herméticas junto à fé e esperança.
 
Caridade é a que mais robustece a prática maçônica porque sua prática humaniza o franco maçom e lhe possibilita o desenvolvimento e manutenção da esperança e fé. Por isso Caridade é algo imposto ao obreiro diligente com sua construção e desconstrução, onde fé e esperança lhe fornecem a força motriz e perseverança para continuar na jornada. É primeiro e último dever do franco maçom.
 
A Caridade pode ser praticada sem que se empenhem valores financeiros, pois Caridade material sempre acaba no dia seguinte. O melhor da Caridade é ensinar aos outros os meios para que suas necessidades básicas de subsistência sejam sempre atendidas de modo que não se torne submisso aos poderosos. Outra forma de Caridade é conviver: simplesmente ouvir ao que os aflitos têm a dizer é uma forma de Caridade superior.
 
A Caridade moral é outra forma de prática que não prejudica ao beneficiado e tem como resultado o amor do Grande Arquiteto do Universo, pois expressa apenas aquilo que já existe dentro de cada um: o amor ao próximo.
 
Dizem que o homem é o único animal que desenvolve compaixão e que esta vem da inclinação natural de praticar a Caridade. É o que distingue o homem e lhe oferece a possibilidade de evoluir como ser consciente e racional. Inclusive sua fé deve ser raciocinada para não enveredar ao fundamentalismo e fanatismo de modo que possa persistir em praticar a Caridade alimentada pelo coração.
 
Caridade é o doar-se para os outros sem que os beneficiados o peçam e independente do fato de os oportunistas dela se valham para tirar vantagens do doador. Doar-se, ouvir, estar presente não exige aporte de valor monetário algum, é apenas deixar fluir o companheirismo, a fraternidade que conduzem a bons pastos e paz duradoura.
 
Fazer aplicação da Caridade, em virtude de sua diversificação é uma arte, uma ciência do bom viver. Ela pavimenta o caminho do homem em permanente evolução no conhecimento de si mesmo. Caridade é característica desenvolvida que humaniza, a mais pujante demonstração de amor ao próximo que existe latente em cada coração.
 
O píncaro da glória para o praticante da Caridade vem da possibilidade dada a cada ser humano de velar por sua família em todas as situações. Esta é o suprassumo das Caridades!
 
A Franco maçonaria mostra isso ao declarar que apenas através da fraternidade é possível construir uma sociedade sadia onde se colocam diversas pessoas das mais variadas origens debaixo de um mesmo teto vivendo em paz. Isto serve de modelo para o franco maçom levar em sua mochila para casa onde coloca a Caridade em prática para com os seus mais chegados: avós, pais, filhos, esposa.
 
Todos podem ser objeto de Caridade, mesmo que não lhes falte o essencial das necessidades básicas de vida esquematizadas por Maslow. O homem que pratica a Caridade dentro da própria casa já está de bom tamanho para atingir o objetivo escrito de forma indelével no coração pelo Grande Arquiteto do Universo.
 
A virtude teologal da Caridade não carece de miseráveis e pobres para ser praticada. Ouvir ao pai ou à mãe quando estes se queixam é uma forma de Caridade e não custa nada. Ouvir as queixas do irmão na loja é Caridade igualmente. Ouvir a esposa, filhos, barbeiro, faxineira, ou qualquer um é uma forma de Caridade. Agora, se o ato de ouvir vier acompanhado de conselhos proativos e até de ações que demandem desembolsos que impliquem em sacrifícios, então o efeito é multiplicado.
 
Não há necessidade de afirmar que a Caridade é uma predisposição da alma para o bem: isto já está lá dentro de cada um. E o homem é uma alma vivente, que possui vibrando dentro de si energias que desconhece e que o identificam e assemelham ao gerador da vida que é o Criador. Caridade não é apenas para dar esmolas aos miseráveis, trata-se de um tesouro que é acumulado para si mesmo e esta riqueza o ladrão não leva. É parte daqueles tesouros guardados na alma, torna-se parte intrínseca do ser como valores eternos gravados na alma. É a perfeição das virtudes do homem que lustra sua pedra para honra e à glória do Grande Arquiteto do Universo.
 
Charles Evaldo Boller

terça-feira, 12 de dezembro de 2017


 "O ALCOÓLATRA - O MAIS DOENTE DOS HOMENS"


- Não me diga que eu não sou um alcoólatra


Por favor, não me diga que eu não sou um alcoólatra. Você põe em perigo a minha vida se o fizer. Se você me convencer a tomar um gole, "apenas unzinho", eu poderia morrer por causa dele.

Estou escrevendo este artigo porque eu sou um alcoólatra, um dos cinco milhões neste país e amigos bem-intencionados continuam a me dizer que eu não sou. "Um alcoólatra? Não seja bobo! Você, não!", eles dizem. "Oh, talvez você tenha bebido um pouco demais, mas você estava sob um bocado de tensão naquela hora. Isso já acabou agora. Vamos lá, cara - diga até onde eu viro".

Já conheci alcoólatras, esforçando-se para eliminar o álcool de suas vidas, que vacilaram e que disseram "até onde virar". Já vi a triste armadilha deste vicio se fechar sobre eles novamente. Já os vi morrer disto. A maioria dos alcoólatras morre disto.

- Os equilibristas da corda bamba

Isto, porque o alcoolismo é uma doença fatal, caso se permita seguir o seu curso. Ela pode ser retida caso a vítima pare de beber, mas não pode ser curada! Uma longa abstemia não faz diferença alguma. Um alcoólatra que não tocou em bebida durante vinte anos é tão alcoólatra quanto sempre havia sido. Dizer a tal pessoa que ela não tem uma doença incurável e fatal é absolutamente uma loucura - e quase sempre é exatamente o que a vítima quer ouvir.


Ninguém fica contente em ser alcoólatra. A maioria de nós que está fazendo um programa de recuperação - e nós representamos apenas uns patéticos 6 ou 7% dos cinco milhões vitimados - temo-nos esforçado para aceitar dolorosamente um fato nu e cru: nós somos FISICAMENTE DIFERENTES em nossa reação ao álcool. NÓS NÃO PODEMOS BEBER. Do reconhecimento constante desta realidade depende nossa felicidade, nossa sanidade e nossas vidas. Mas nós somos tais como equilibristas na corda bamba: um pequeno empurrão pode nos mandar voando lá para as profundezas.

Porque, então, são as pessoas bem-intencionadas culpadas, algumas vezes, de nos darem este empurrão?




Em primeiro lugar, amigos que gostam da gente não querem que sejamos alcoólatras por causa da má repercussão que tal palavra ainda causa. A ciência médica finalmente rotulou o alcoolismo justamente como ele é: uma doença. Portanto, quando um amigo tenta lhe dizer que você não é um alcoólatra, ele pensa que está sendo gentil com você.


Em segundo lugar, muita gente ainda concebe uma visão fixa e estereotipada do que é um alcoólatra - um lixo humano caído na sarjeta ou um imprestável milionário convalescendo, numa boa, em Campos do Jordão. Se você não se enquadra em nenhuma destas duas categorias, eles acham impossível acreditar que você perdeu a sua tolerância ao álcool.


Em terceiro lugar, a admissão que é um alcoólatra perturba alguns de seus amigos porque é uma ameaça aos hábitos de beber de alguns deles mesmos. " Se esse cara é um alcoólatra", eles dizem a si mesmos com um certo desconforto, "eu, o que sou?"

Existe pouca lógica em tal reação. Somente um em quinze ou dezesseis bebedores se torna um alcoólatra. Mas eu tenho tido uma nítida impressão, em muitas ocasiões, de que a pessoa que me está assegurando, em voz alta, que eu não poderia ser um alcoólatra, estava verdadeiramente tentando assegurar-se a si próprio.

E, finalmente, os alcoólatras, muitas vezes, têm de encarar forte oposição por parte de parentes próximos, os quais pensam que admitir tal fato trará desgraça ou desaprovação para a família. Há pouco tempo, uma boa amiga minha morreu de alcoolismo. Com a idade de 43 anos, os médicos chegaram à conclusão de que suas deficiências físicas indicavam que ela era uma alcoólatra desde muitos anos. Ainda assim, seis meses antes dela morrer, o pai dela me disse impacientemente que ela não era uma alcoólatra e mencionou o nome de uma dúzia de mulheres que bebiam mais e se comportavam pior do que ela.


Todos os amigos e conhecidos dela também tinham lhe assegurado que ela não era uma alcoólatra. A maioria ainda pensa que ela morreu de um ataque do coração, uma mentira que os jornais fielmente reproduziram.


A única maneira pela qual o alcoólatra pode começar um programa de recuperação é através do reconhecimento da sua doença. Isto nunca é fácil, porque esta admissão, invariavelmente, carrega consigo uma tendência mortal de justificar, racionalizar e negar qualquer coisa que possa acarretar o fim da bebida. Acreditem-me, eu sei, eu mesmo passei por isto.


- Uma compreensão cruel


Há alguns anos, três bons amigos meus aparentavam ter problemas com a bebida; então eu obtive e li o livro "ABC sobre o alcoolismo" de Marty Mann, com a idéia de ajudá-los. Muitos anos depois, o meu próprio comportamento em relação ao álcool estava suficientemente anormal e deprimente para me fazer buscar novamente este livro. Eu o li de novo e li também "Apenas mais um" de James Lamb Free. Foi uma experiência trágica. Eu tentei freneticamente me esquivar. Busquei todas as maneiras de provar que eu não era um alcoólatra, mas a evidência era forte demais.

Que evidência? Bem, em um de seus estudos clássicos, o Dr E. M. Jellineck fez uma lista das características mostradas pela vítima do alcoolismo em três estágios sucessivos da doença. Eu descobri que muitas descrições eram aplicáveis ao meu próprio comportamento... Apagamentos, por exemplo. Estes são episódios que envolvem falta de memória, mas não devem ser confundidos com "desmaios". Houve muitas ocasiões quando eu pude jogar cartas competentemente a noite inteira e não me lembrar ou lembrar muito pouco disto no dia seguinte. Uma vez eu guiei 120 milhas de San Francisco até minha casa, em Pebble Beach e acordei no dia seguinte não me lembrando de ter feito tal viagem.

- O Remorso do dia seguinte


Muitos outros sintomas assinalados pelo Dr Jellineck apareciam na minha atitude de bebedor, apesar de que, assim como muitos alcoólatras, eu normalmente conseguia escondê-los de meus amigos. Bebidas escondidas, evasivas sôbre os hábitos de beber, remorso excessivo no dia seguinte - os sinais estavam muito claros. Eu ainda estava anos de distância da sargeta, mas já estava à caminho. Não aparentava ser um alcoólatra.


Obviamente não agia como tal. Mas quando finalmente descrevi os meus sintomas a um médico, ele confirmou meu receio - eu era um deles!


Lembro-me muito bem da reação de meus amigos íntimos. Foi quase violenta: escárnio, negativas, zanga, provas infinitas de que eu não poderia ser um alcoólatra. Calmas e maravilhosas palavras para um homem que implora por uma bebida!


Bem-vinda justificativa para começar tudo de novo!


Eu sei que essas reações eram baseadas na ignorância - concepções falsas do que é um alcoólatra e como a doença se manifesta. Ninguém sabe tudo sobre o alcoolismo; até para os especialistas, alguns aspectos dele continuam a ser um mistério. Permitam tentar corrigir algumas concepções das mais erradas.


Para começar, por favor, não considere o alcoólatra uma criatura moralmente fraca. Na verdade, ele pode ter mais força de vontade do que você. Mas ele é um doente - o mais enfermo dos homens.

Em seguida, não limite a imagem na sua mente do alcoólatra ser um lixo nos últimos estágios da doença. Aí está lixo na sargeta, perto da insanidade e da morte. Foi recentemente que ele se tornou um alcoólatra? Não teria sido há cinco anos, quando se tornou lavador de pratos?


Não teria sido há dez anos, quando a mulher dele pediu o divórcio? Não teria sido há quinze anos quando ele perdeu o emprego no banco? Não foi há vinte anos, quando ele começou a beber escondido para se certificar de que obtinha "a conta certa"? Não foi há vinte e cinco anos, quando ele sofreu os primeiros apagamentos? A ciência moderna sabe que ele se havia tornado um alcoólatra vinte e cinco anos atrás e que era tão alcoólatra então, quanto é agora.


Tente se lembrar que o alcoolismo é uma doença como um iceberg - os sintomas estão, na sua maior parte escondidos, logo no começo. Na realidade, durante os primeiros cinco ou dez anos, os alcoólatras geralmente tomam muito cuidado em parecer bebedores sociais normais. È o bêbado da pesada ou um porrista eventual o que se comporta mal.


O alcoólatra aparentemente fica sóbrio, mas é ele que cai fora primeiro de uma festa de coquetéis, muitas vezes com o pretexto de "ter trabalho para fazer", mas vai para casa ou para um bar longe do caminho e satifaz a sua cruel necessidade compulsória.

Não se deixe levar pelas aparências. A minha mulher Virgínia, que se recuperou do alcoolismo quando tinha 29 anos, é uma mulher jovem e enérgica. As pessoas quando a conhecem e sabem da sua doença, invariavelmente protestam: "Você não pode ser uma alcoólatra; parece tão saudável quanto uma criança!" Ela é uma alcoólatra - e parece tão jovem quanto qualquer vítima da doença que muito cedo tenha sido abençoada por uma recuperação.

ALCOÒLICOS ANÔNIMOS deixa as estatísticas a cargo das autoridades médicas e dos grupos de pesquisa. Mas é geralmente um fato aceito, que no começo, 24 anos atrás, a média de idade dos membros AAs era 50 anos ou mais, porque somente os fins de linha eram considerados alcoólatras. Hoje, graças principalmente ao notável trabalho educacional do Conselho Nacional do Alcoolismo, pessoas mais jovens estão se juntando a vários programas de recuperação. A maioria dos recém chegados ao A.A. hoje em dia, varia desde adolescentes a pessoas de 20, 30 ou 40 anos. Eles estão reconhecendo a doença mais cedo.

- A linha invisível


Isto me leva a uma última recomendação. Algumas vezes, ao jovem alcoólatra recuperado é dito que ele deve ter tido um caso ligeiro, uma vez que o caso não progrediu muito e que ele certamente deve ser capaz de tomar uma cervejinha ou um vinhozinho. Em primeiro lugar, não existe um "caso ligeiro". O alcoólatra que atravessa a linha invisível é - e sempre será - um alcoólatra toda a sua vida. E não existe " o alcoólatra parcial".

Ou você é ou não é. Em segundo lugar, não importa se a bebida fatal é vinho, cerveja ou uísque Burbon 100º - ou até mesmo um xarope à base de álcool. É o alcool que causa dano, em qualquer forma.

Portanto, tente nos ajudar. Recomende àqueles que podem ser bebedores problema que escrevam ao Conselho Nacional do Alcoolismo ou para um dos seus 55 Comitês das Comunidades em todo o país, ou chame o A.A. Ou leia "O ABC sobre o alcoolismo", de Marty Mann, ou "Apenas mais um", de James Lamb Free. Mas não lhes diga que eles não são alcoólatras. Se você estiver errado e eles acreditarem, eles podem morrer.



Transcrito do Folheto impresso em Edição Comemorativa dos 40 Anos de A.A. no Brasil. SETEMBRO 1987