domingo, 9 de agosto de 2020

 Se há tanta Paz


 Se há tanta paz no azul que o céu abriga,
 E há tanto azul que tanto bem nos faz,
 Se há tanto azul e há tanto céu, me diga
 Por que é que o homem não encontra a paz?
   
  Se há tanta paz no verde-mar da onda
Que faz-se verde e em branco se desfaz,
Se há tanta onda pelo mar, responda:
Por que é que o homem não encontra a paz?
   
Se há tanta paz no olor das multicores
Flores: orquídeas, rosas, manacás...
Se há tanta paz em cada flor e há tantas flores,
Por que é que o homem não encontra a paz?
  
Se há tanta paz nos cânticos suaves
Que entoam na alvorada os sabiás,
Se há paz num canto de ave e há tantas aves,
Por que é que o homem não encontra a paz?
   
Se há tanta paz na brisa que desliza
Sobre as folhagens, tímida e fugaz;
Se há tanta paz na brisa e há tanta brisa,
Por que é que o homem não encontra a paz?
   
Se há tanta paz nas expressões tão mansas
Que ao vir ao mundo uma criança traz,
E cada dia existem mais crianças,
Por que é que o homem não encontra a Paz?
   
Se há tanta paz nos corações com fé
Que atrai o bem e afasta as coisas más,
Então oremos juntos, todos de pé,
Para que o homem encontre um dia a paz!

Luma Fernandes

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

 


Novos tempos

“Aguardamos novos céus e nova Terra, em que habita a justiça.” (2 Pedro, 3:13.)

Quando grandes aflições se avolumam sobre a Terra, quando a desesperança castiga o coração humano, quando multidões ficam reféns de passageiros consolos materiais, sem que a luz possa fazer-se em suas mentes enegrecidas de pensamentos negativistas, perguntamo-nos: onde há de chegar a soma das mazelas deste mundo? O caos, que aparentemente possa estar triunfando em todas as esquinas e praças públicas, nada mais é que o mal se debatendo contra a força magnânima das leis universais que traz sempre e irrevogavelmente o progresso retificador.

Não deixemos o pavor bater em nossas portas, neste momento tão delicado e grave para a história da sociedade humana e de nossas histórias individualizadas. Todos aqueles que sentiram, ao ouvir a voz e as palavras encorajadoras de Jesus, o Cristo, exortando-nos à prática do amor em todas as circunstâncias, buscam hoje, com tanto maior empenho e fé, quanto nos tempos do martírio, trabalhar por um mundo renovado; portanto, nada de temermos em nos alistar no fronte de batalha, onde esses irmãos nos convidam a seguir sua marcha.

Tomemos de nossas armas: fé, esperança e caridade, com a consciência esclarecida de que há ainda muito suor e lágrima a se derramar, mas não tenhamos dúvida de que é chegado o tempo de habitar novos céus e nova Terra, onde junto do nosso coração redimido há de habitar a justiça plena de Deus, nosso Pai.

FRANCISCO VALJUAN

quarta-feira, 5 de agosto de 2020


O IRMÃO DA CARIDADE

Frei Damião vivia numa choça,
A mais humilde que idear se possa,
Um recanto perdido, entre serros perdidos,
Amparando aos doentes e aos caídos.
Mãos calosas na gleba, ele mesmo produz
O pão que come e a roupa que o reveste
E agora mais cansado, mais sozinho,
Acolhe os viajantes do caminho
Quais se fossem Jesus.

Era assim que vivia o servo do Senhor:
Coração transformado em pousada de amor.
Aos romeiros sem lar, de visita à choupana,
A lhe pedirem rumo, amparo e vida nova
Sabia atenuar os rigores da prova,
Doando-lhes consolo à rude estrada humana.

Fosse ao pranto de mãe, fosse a triste mendigo,
Aos enfermos sem fé que o desespero alcança,
Aos famintos de pão, às almas em perigo
Entregava o socorro e a benção de esperança.

Assim envelhecera Frei Damião
Sentindo Jesus Cristo em cada coração.

Quanto tempo vivera não sabia,
Auxiliava a todos, noite e dia...

Mais tarde, adoeceu... E, mesmo assim,
Curvado para a Terra, erguia as mãos trementes,
Socorrendo viajores e doentes,
Embora sempre a febre a recordar-lhe o fim...

De corpo gasto e desarticulado,
Numa noite de gelo, ele escuta um chamado:
- Damião, Damião, há mau tempo, abre a porta,
Liberta-me do frio que me corta!...

Levanta-se o velhinho e abre a cabana estreita,
Vê diante de si um enfermo que se arrasta,
Nota-se o corpo em lepra, a desfazer-se todo,
É um pedinte de estrada em chagas, sangue e lodo...

 - Abriga-me hoje só – ele diz, suplicante

Damião não vacila e dá-lhe o próprio teto.
Lá fora, a ventania é o tumulto completo.
Ulula o furacão desatado e violento,
Tombam troncos viris aos arrancos do vento...

- Tenho fome, Damião – clama o recém-chegado
O velhinho febril treme, avança, tateia,
Procura o pão guardado
E dá-lhe o pão que tem, entre o prato e a candeia.

- Tenho sede, Damião, pede o estranho viajor,
trago a garganta em fogo, em tremenda secura...
Damião traz-lhe um pouco de água pura

E o pobre continua, em voz lenta e magoada:
- Tenho frio, Damião, sofri muito na estrada...
O irmão da caridade não hesita,
Dá-lhe a pele de urso que o recobre,
Entretanto, o infeliz, tão triste quanto pobre
Exclama: - estou cansado, a inquietação me agita,
Ajuda-me a dormir
Quero um leito, Damião...
Damião dá-lhe o leito e se deita no chão.
Mas o pobre na cama, agasalhado e quente
Roga em pranto: Damião, tenho o corpo doente,
Aquece-me, por Deus, tenho a carne ferida,
Vem a mim!... Teu calor pode salvar-me a vida!...

Damião, não vacila, ergue-se com carinho,
Ele conhece a dor dos tristes do caminho...
Lembra outras noites más, chuvosas e nevoentas,
E abraça-lhe, ao deitar-se, as chagas purulentas...

Mas nisso a choça escura se ilumina...
Damião sente um choque... E busca o itinerante
Mas já não vê o pobre suplicante...

Erguera-se o mendigo,
Mostra um rosto diverso e um sorriso sereno...
Ajoelha-se, à pressa, o irmão dos infelizes
E no pranto a banhar-lhe o rosto em cicatrizes,
Reconhece no estranho o Mestre Nazareno.

Ele fita em Damião o olhar de amor e luz,
E enquanto a tempestade estraçalha o arvoredo,
Como quem sente o Céu em divino segredo,
Damião deslumbrado,
Tendo o Amigo Celeste, lado a lado,
Diz apenas: Jesus!...

O Mestre se aproxima e fala-lhe, de manso:
- Damião, vem comigo,
encontrarás agora o tempo do descanso...

No outro dia, mais cedo, outro irmão aparece
Vem rogar a Damião a benção de uma prece,
Mas verifica em mágoa e desconforto:
O irmão da caridade estava morto,
No entanto, qual se o corpo imóvel resguardasse
Recôndito vigor,
Trazia na algidez da própria face
Uma expressão de paz e um sorriso de amor.

Autora: Maria Dolores

segunda-feira, 3 de agosto de 2020


AFORISMOS

Desgostos, chagas e angústias,
Martírio rude e violento,
São rebolos invisíveis
De santo aprimoramento.

Ser rico e ser justiceiro
Na virtude sem disfarce,
É como viver no fogo,
Respirando sem queimar-se.

Dois apoios precisamos
Na jornada de ascensão:
A lanterna da bondade
E o trilho da retidão.

Cumpre o dever que te assiste,
Servindo, ditoso e crente.
Da consciência tranquila
Nasce a calma permanente.

Aprende, ensina e esclarece.
Trabalha, ajuda e auxilia.
Não há maior desventura
Que a da existência vazia.

Não tornes por humildade
A vileza fraca e nula.
A humildade serve sempre,
Mas a vileza bajula.

Faze o bem ainda que o bem
Não seja bem que te agrade.
Resume-se a fé cristã
Na palavra – caridade.

Que lisonja por mais linda
Não te seduza o interesse.
O mérito é como a luz –
Por si mesmo resplandece.

Cultiva o bem, sem cessar,
Ao longo de teu caminho.
Terra boa, desprezada,
É mãe do mato escarninho.

Nas lições da vida inteira,
Sê firme, animado e forte.
Quem desiste de aprender
Começa a buscar a morte.

Casimiro Cunha

sexta-feira, 31 de julho de 2020


GOTAS

Insultos, provocações,
Não retenhas na memória.
A inveja é sempre um tributo
Que a mesquinhez rende à glória.

Não te esqueças da bondade
No trato com toda a gente.
É tão difícil ser justo
Que mais vale ser clemente.

Quando estamos dominados
Pelo egoísmo vibrante,
O mal alheio é um cabelo
E o nosso é sempre um gigante.

Humilhações do caminho
São golpes e ulcerações.
Mas quem humilha a si mesmo
Recolhe grandes lições.

Realmente, somos donos
Dos olhos, dos pés, dos braços,
Mas Deus é sempre o Senhor
Da força de nossos passos.

A riqueza que garante
Bondade, paz e alegria,
Caminha por toda a parte
Como o Sol que se irradia.

Foge à sombra da tristeza
E ao gelo do desengano.
Amargura dentro d’alma
É como a traça no pano.

Alma grande consagrada
À virtude meritória
Converte todo fracasso
Em plantação de vitória.

A luz só encontra a luz
No brilho do próprio seio.
Quem muitas nódoas possui
Vê nódoas no rosto alheio.

Miséria parada e escura
É sempre triste labéu,
Mas pobreza que trabalha
É condução para o Céu.

Casimiro Cunha

segunda-feira, 27 de julho de 2020


NOTAS RIMADAS

As bolotas de carvalho
Produzem copas divinas.
Atende ao dever miúdo,
Olha as coisas pequeninas.

Se procuras neste mundo
A luz de valor mais raro,
Caleja as mãos trabalhando
E aprende a pagar mais caro.

Entre um monte de ouro puro
E meio quilo de pão,
A fome, que é verdadeira,
Não padece indecisão.

Não te agastes, vida afora,
Seja a quem for, faze o bem.
Cada tonel do caminho
Somente dá do que tem.

Seja teu verbo na vida
Bem sentido, bem pensado,
Quem dorme, acusando os outros,
Desperta caluniado.

Administras? Diriges?
Sê claro, justo, fiel...
O juiz muito piedoso
Faz o povo mais cruel.

Cuidado, se peregrinas
A beber e pandegar.
O copo afoga mais gente
Que toda a extensão do mar.

Há muita boca que fala
E muita língua que exorta,
Mas à Casa do Serviço
Quase ninguém chega à porta.

Por mais negra seja a hora,
Continua calmo e crente.
Não há guerra ou tempestade
Que durem eternamente.

Trabalho, estudo, oração,
Preguiça, paixão e vinho,
São processos diferentes
Que mudam qualquer caminho.

Casimiro Cunha