segunda-feira, 21 de agosto de 2017


Manuscrito “The Cologne Charter” (1535)

Introdução

É a primeira metade do século XVI. A Europa estava se recuperando da notícia histórica da descoberta de um novo continente, por Cristóvão Colombo (1451-1506), na redondeza da terra demonstrada por Ferdinand Magellan (1480-1521), grande parte da Alemanha foi convertida ao protestantismo pelo monge reformista Martinho Lutero (1483-1546) e Francisco I da França (1494-1547) se revelou um determinado construtor de castelos e um opositor ferrenho ao imperador Charles V (1500-1558).

E, em 1535, os mestres eleitos da Fraternidade dedicada a São João, membros da Maçonaria, se reuniram na cidade de Colônia (Koln em alemão), a maior cidade do estado da Renânia do Norte-Vestfália, para elaborar um novo documento (Estatuto), que se preocupava mais com a Maçonaria dos Aceitos do que com a prática manual do Ofício.

Com 19 assinaturas na carta, foram feitas dezenove cópias do documento (1), entre elas estão as de Philippus Melanchthon, grande amigo de Lutero, Herman de Viec, Arcebispo eleito de Colônia, Jacobus de Antuérpia, Reitor dos Agostinianos da cidade, e o de Gaspard de Coligny, o líder do partido Calvinista na França. Isso não é surpreendente, afinal, como é hoje universalmente admitido, a “Carta de Colônia” não é genuína e os nomes desses líderes e poderosos europeus estavam lá para dar ao documento um falso status.

A farsa

Embora o próprio documento seja datado de 24 de junho de 1535, não está claro quando o documento realmente foi criado. O consenso é que provavelmente foi escrito na França durante a segunda metade do século XVIII, talvez na década de 1780. É provável que tenha sido escrito para contrariar as últimas Bulas Papais e outras declarações religiosas ou políticas da época, que criticavam a Maçonaria.

Onde e por quem? Ninguém sabe.

A carta recebeu, por muito tempo, apoio massivo dos maçons e não-maçons, que defendiam sua autenticidade. Entretanto, ela contém uma longa lista de declarações e informações curiosas, se não fantasiosas: a personalidade dos signatários, a existência de uma desconhecida Irmandade de altos graus maçônicos, a evocação de ligações entre maçons e templários, as atividades maçônicas em Edimburgo, Hamburgo, Rotterdam e Veneza. Além disso, a carta, embora destinada a ser amplamente distribuída, é escrita em latim medieval e apresentada em uma substituição cifrada de caracteres “maçônicos”, que foi inventada durante o século 18.

O texto (2)

Para maior glorificação do Deus Todo-Poderoso

Nós, os Mestres escolhidos da honorável e distinta Fraternidade de São João, ou membros da Ordem dos Maçons, chefes das Lojas que foram estabelecidas em Londres, Edimburgo, Viena, Amsterdam, Paris, Lyon, Frankfurt, Hamburgo, Antuérpia, Rotterdam, Madrid, Veneza, Ghent, Konigsberg, Bruxelas, Danzig, Middleburg, Bremen e Colônia,

Temos na cidade de Colônia, no ano, mês e dia mencionados abaixo, montado um capítulo sob a presidência do Mestre da Loja deste lugar: um irmão adorado, instruído, sábio e discreto, que em consequência de nosso pedido unânime, aceitou conduzir este relatório, e fazer para as Lojas nos lugares acima mencionados, e para os Irmãos que atualmente pertencem ou posam aderir à Ordem, a seguinte declaração.

Levando em consideração que, em tempos difíceis, cheios de discórdia civil e outros conflitos, nós e as Fraternidades acima mencionadas, e todos os irmãos pertencentes à Maçonaria ou Ordem de São João, foram acusados publicamente ou em segredo, de realizar certos projetos e opiniões, que são igualmente contrários aos nossos sentimentos, isolada ou coletivamente e completamente oposto ao espírito, objetivo e preceitos desta Irmandade.

Sabendo-se que nós, os membros desta Ordem (principalmente porque estamos unidos por um vínculo indissolúvel de sigilo), ficamos mais expostos às revelações de não-iniciados, profanos e a calúnia pública em geral, temos, portanto, o seguinte delito, dito ser de nossa responsabilidade, que “Nós temos o desejo de reviver a Ordem dos Cavaleiros Templários” e que, por esta razão, fomos acusados ​​publicamente diante do mundo:

“Que nós tivéssemos sido obrigados a jurar como membros daquela Ordem, para recuperar suas propriedades e posses, e para vingar a morte violenta do último Grão-Mestre sobre os descendentes daqueles Reis e Príncipes que foram culpados de seu assassinato, e foram os autores da ruína da Ordem. ”

Por este motivo, tivemos divisões excitadas na Igreja, motim e rebelião nos impérios e reinos do mundo. Fomos inflamados com ódio e inveja contra o Papa, como chefe do clero e contra o Imperador e todos os governantes. Que não reconhecemos a autoridade de outros chefes, senão consagrados, e mestres eleitos de nossa Fraternidade, espalhados por todo o globo terrestre, e que executamos seus mandamentos secretos, comunicados por misteriosos mensageiros em letras cifradas, e que não admitimos ninguém em nossos mistérios, exceto aqueles que tenham sido atormentados, experimentados e aprovados, e obrigados a jurar um abominável compromisso de sigilo.

Por isso, e em consideração a tudo o que aqui foi citado, consideramos muito necessário e oportuno, mostrar claramente, a verdadeira condição e origem de nossa Ordem e o objetivo desta instituição benevolente na forma como foi reconhecida e confirmada por seus mais distintos membros, tanto individual, quanto coletivamente, os Mestres mais experientes da Ordem, iluminados pelas verdades genuínas que sua arte imprime no espírito, e depois distribuir este documento composto, elaborado, subscrito e ratificado por nós, entre os diferentes Capítulos e Lojas da nossa confederação. Que um testemunho perpétuo possa estar à mão da renovação de nossa aliança e da pureza imaculada de nossas intenções.

E por causa da crescente suscetibilidade diária, dos cidadãos e das nações, para o ódio, a inveja, a intolerância e as lutas, é muito mais difícil para os Irmãos manterem sua Constituição e forma original de governo, pura e incorrupta, para se propagar em diferentes partes do mundo, e para manter a sua integridade inviolável, quando melhores tempos surgirem, se não todas as cópias, mas pelo menos exista uma cópia ou outra, desta epístola circular, que a Sociedade possa adotar como um guia e regra de conduta e pela qual, quando abalada a seus próprios alicerces, possa remodelar-se e, se estiver em perigo de degenerar ou se afastar de seu objetivo e propósitos originais, ela possa ser levada de volta ao verdadeiro espírito que deve guiá-la e dirigi-la.

Por esta epístola, dirigida a todos os verdadeiros cristãos, tirada das mais antigas escrituras e das memórias existentes, de opiniões, costumes e hábitos da nossa Ordem secreta, pelas razões acima referidas, nós escolhemos os Mestres das nossas Ordens, e todos com um objetivo a saber, a obtenção da luz verdadeira, nós carregamos todos aqueles nossos companheiros no trabalho, em cujas mãos esta carta possa cair, pelo seu voto mais sagrado, que eles nunca renunciariam a este testemunho da verdade confiada a eles.

De igual modo, certificamos e damos a conhecer ao mundo iluminado e não iluminado, cujo bem-estar está próximo do nosso coração, estimulando-os a continuar o nosso trabalho, ativamente e zelosamente, o que segue:

A – Que a Fraternidade, ou a Ordem dos Maçons, unida pelos votos sagrados de São João, não tem sua origem na Ordem dos Cavaleiros Templários, nem de qualquer outra Ordem Espiritual ou Secular de Cavalaria, nem de uma única ou de várias unidas. Ela não tem a mais remota associação com nenhum deles, direta ou indiretamente, mas é mais antiga do que qualquer Ordem desse tipo, pois existia na Palestina e na Grécia, bem como em uma porção ou outra do Império Romano, antes mesmo das Cruzadas, e antes do tempo em que os cavaleiros que acabamos de mencionar foram para a Palestina. Isso tem sido provado para nós em diferentes documentos e notoriamente bem autenticados nos registros antigos.

Nossa Fraternidade existia naquela época, quando um grande corpo de pessoas consagradas se separava da ética contraditória da doutrina cristã, porque lhes tinha confiado o verdadeiro ensinamento moral e a mais legítima interpretação dos mistérios religiosos. Pois, naquele período de sua separação, acreditava-se por aqueles indivíduos eruditos e iluminados, que eram cristãos inteiramente livres da heresia pagã,

“Que uma religião poluída com heresia, só poderia causar e disseminar divisões religiosas e guerras abomináveis, em vez de promover a paz, a tolerância e o amor. ”

Eles, portanto, são obrigados por um juramento sagrado, a preservar com maior pureza, as doutrinas fundamentais desta religião, promovendo grandemente esse amor, à virtude inerente à raça humana, dedicando-se inteiramente à boa obra, que a luz possa surgir no meio das trevas, dispersar as névoas da superstição e estabelecer entre os homens, todas as virtudes da humanidade, da paz e da prosperidade geral.

Os mestres desta Confederação foram chamados de Irmãos de São João, pois escolheram João Batista, o precursor da Luz do Mundo, o primeiro dos mártires que sofreram espalhando esta luz, como sua origem e exemplo. Com o passar dos tempos, aqueles homens que se distinguiram por seu conhecimento superior em seus escritos, foram chamados de Mestres. Estes eram escolhidos entre os mais experientes eruditos, companheiros em seus trabalhos, de onde surgiu o nome de Companheiro. O restante daqueles, mas não especialmente escolhidos, estando de acordo com a moda entre os filósofos hebreus, gregos e romanos, eram distinguidos pelo nome de erudito ou Aprendiz.

B – Nossa confederação como era antes, e agora ainda é, se constituí por esses três graus, Aprendiz, Companheiro e Mestre, este último, igualmente chamado de Eleito ou Mestre Eleito. Todas as outras associações e fraternidades que admitem outras denominações e divisões de seus graus, ou atribuem-se a outra origem, interferindo em intrigas políticas e eclesiásticas, e juram solenemente odiar qualquer um, quer assumam os nomes de maçons ou irmãos, que afirmam estar cumprindo os princípios sagrados de São João ou de qualquer outra pessoa, todos eles não pertencem à nossa Ordem, mas são negados e repudiados por nós como cismáticos.

C – Entre os professores e mestres desta Ordem, que estudaram matemática, astronomia e outras ciências, um intercâmbio de seu avanço no conhecimento ocorreu quando eles foram espalhados por toda a Terra. Isso levou à seleção de um, do corpo de Mestres Eleitos, que deveria assumir a autoridade sobre o resto e ser honrado como o Mais Nobre e Sublime Mestre ou Patriarca, mas conhecido apenas como tal, pelos Mestres Eleitos, de modo que este escolhido, possa ser considerado o guia visível e invisível da nossa Ordem.

Em conformidade com esta condição, mesmo em nossos dias, um Mestre Superior e Patriarca realmente existe, embora conhecido por poucos.

Depois de ter demonstrado estes fatos, que recolhemos da rica coleção de antigos pergaminhos e documentos da nossa Ordem, decretamos e ordenamos, com a permissão, aprovação e sanção do nosso Patriarca, seguindo os textos dos documentos sagrados, que no futuro permanecerá sob a tutela fiel de nosso Superior e seu sucessor.

D – A conduta de nossa Confederação e a maneira e método pelo qual os raios da estrela flamejante serão trazidos para casa e dispersos entre os iluminados Irmãos e a porção não iniciada da humanidade, são conferidos aos Mestres Eleitos e Escolhidos.

Eles devem guardar e vigiar isso, para que os Irmãos, qualquer que seja sua posição, não possam empreender nada contrário aos princípios fundamentais de nossa confederação.

Esses diretores têm igualmente que defender a associação e preservar e assegurar sua continuidade. Se for necessário, devem mesmo proteger a instituição pelo sacrifício de seus bens mundanos e pelo perigo de suas vidas, contra todos os assaltos e ataques de fora.

E – Não temos nenhum testemunho convincente de que esta Fraternidade, tenha tido outro nome que o dos Irmãos de São João, antes de 1450, mas, conforme os documentos que reunimos, começou a ser chamada de Fraternidade de Maçons em Valenciennes Flandres, no período em que em alguns distritos do Hainaut, Hospitais e Enfermarias começaram a ser erguidos às custas dos Irmãos, para os pobres que sofriam do fogo de Santo Antônio. (3)

F – Embora, ao exercitar nossa benevolência, não estejamos acostumados a considerar nenhuma religião ou qualquer país, mas julgamos aconselhável e mais seguro não admitir nenhum em nossa Ordem, aquele que em sua vida profana e no mundo dos não-iluminados fizeram uma profissão de cristianismo.

Não recorrer a torturas corporais ao examinar os Candidatos para a iniciação ao primeiro grau, mas recorrer-se-á a provas que demonstrem mais claramente quais são os poderes, as inclinações e a característica principal dos iniciados.

G – Entre os deveres estritamente enunciados e que devem ser acompanhados de um juramento solene, estão a fidelidade e a obediência às autoridades seculares legalmente instituídas, que têm domínio sobre nós.

H – As leis introdutórias que orientam nossas ações, e todos os nossos esforços, em qualquer canal que possam ser dirigidos, são expressas nos dois preceitos seguintes:

“Amem e valorizem a todos os homens como fazem a seu irmão, e suas relações de sangue. – Apresenta a Deus as coisas que são de Deus, e a César as que são de César. ”

I – Os segredos e mistérios, que escondem nossos propósitos, são apenas com este único ponto de vista: fazer o bem sem ostentação e cumprir nossas resoluções até os mínimos detalhes.

J – Todos os anos celebramos uma festa em honra de São João, o mensageiro de Cristo, e o protetor de nossa Ordem.

K – Estas e outras cerimônias semelhantes, que dizem respeito à nossa Ordem, são representadas por certos sinais ou palavras ou alguns símbolos ou outros conhecidos pelos Irmãos, mas diferindo inteiramente das cerimônias eclesiásticas.

L – Somente é reconhecido como um Irmão de São João ou Maçom, aquele que, segundo a lei, sob a orientação e supervisão de um Mestre Eleito, assistido por pelo menos sete Irmãos, seja iniciado em nossos segredos e seja capaz de provar sua Iniciação pelo uso desses sinais e palavras de reconhecimento, praticados pelos Irmãos.

Com estes estão incluídos os sinais e palavras habituais de Edimburgo e nas Lojas e “Bauhütten” filiados a ela, também em Hamburgo, Roterdã e Veneza. Cujas funções e negócios, na verdade, são realizados no ritual escocês, mas cuja origem, objetivo e arranjo fundamental não diferem dos que prevalecem em nossa comunidade.

M – Nossa Ordem como um todo é governada por um único Superior universal, mas as assembleias dos Mestres, que compõem essencialmente esta confederação, devem ser reunidas de muitos países e estados diferentes, portanto nada é mais necessário do que um certo grau de conformidade, que deve prevalecer nas Lojas espalhadas sobre a face de toda a terra, como membros únicos de um grande todo, e isso pode ser efetuado por meio de uma troca animada de correspondência e de emissários, que em todos os lugares terão uma só mente, ensinando uma doutrina. Por isso, essa escrita, que registra o caráter e a forma de nossa associação, será transmitida a todos os Mestres, e colégios de nossa Ordem, tantos quanto existem.

Por estas razões, esta epístola circular, da qual 19 cópias foram literalmente feitas, foi emitida, confirmada e ratificada por nossos nomes e assinaturas.

Em Colônia, no Reno, no ano de mil e quinhentos e trinta e cinco, no vigésimo quarto dia do mês de junho, calculado de acordo com o cálculo do tempo, denominado a era cristã.

Assinaram o texto: (4)

Harmanus – Carlton – Jo.Bruce – Fr.V. Upna – Cornelis Banning – de Colligni – Virieux – Jean Schroder – Hoffman – Icobus Prepositus – A.Nobel – Ignatius della Torre – Doria, J.Utti­nhove – Falck – Nicolas van Noot – Philippe Melanthon – Huys­sen – Wormer Abel.

Notas

1 – Dezenove cópias para dezenove signatários. Uma delas está preservada nos arquivos do Grande Oriente da França, em Paris.

2 – O texto latino da Carta de Colônia foi publicado pela primeira vez nos Anais Literários e Históricos da Maçonaria dos Países Baixos, no ano de 1818, em duas versões, uma em latim “literal” (contendo muitos erros, devido a criptografia), e outra em latim “usual” (ou seja, corrigido pelo tradutor), ambas as versões sendo acompanhadas por uma tradução francesa.

3 – Fogo de Santo Antônio, ou ergotismo – Envenenamento, às vezes fatal, devido à ingestão de ergot, um fungo encontrado no centeio e outros grãos.

4 – É curioso notar que os redatores da Carta, cuidaram de esconder os termos de seu texto usando um alfabeto de cifra maçônico, desconhecido no século XVI, mas afixaram abertamente sua assinatura habitual no final do documento.

Fonte:

Tradução livre por Luciano R. Rodrigues, do manuscrito Cologne Charter, encontrado em: http://www.anciensdevoirs.com/page-09.html

domingo, 20 de agosto de 2017


CARGOS DE LOJA - O ORADOR

 
Um dos mais belos e importantes cargos de uma Loja Maçônica é o cargo de Orador, ou, como agora também é denominado, o cargo de Membro do Ministério Público Maçônico na Loja.
A importância do Orador é fundamental na performance de toda e qualquer Oficina e os requisitos essenciais para o seu bom desempenho são múltiplos, devendo a escolha dos Irmãos recair, sempre que possível, em um Mestre Instalado que, pela sua vivência e experiência maçônicas, já enfrentou e solucionou praticamente todos os problemas que as Lojas costumam apresentar.
Também é desejável, embora não seja obrigatório, que o Irmão escolhido para esse cargo eletivo seja versado em ciências jurídicas, que tenha familiaridade com leitura e interpretação de textos legais, leis, regulamentos e regimentos, e que saiba diferenciar, por exemplo, o que vem a ser uma lei, um ato ou um decreto.
O Orador, nos Ritos que dispõem desse cargo, é a quarta Dignidade na hierarquia da Loja, toma assento no Oriente, à direita ou à esquerda do V.’.M.’., conforme o Rito e pede a palavra diretamente a ele.
Apenas para fins didáticos, vamos dividir as funções do Orador em três grandes grupos:
Primeiro: como membro do M.’.P.’. Maçônico.
Segundo: como Orador propriamente dito, isso é, como aquele Irmão encarregado de discursar, ou, como se diz no linguajar maçônico, de apresentar peças de arquitetura nas solenidades da Loja, sessões magnas, festivas e públicas.
Terceiro: como partícipe das atividades ritualísticas nas sessões litúrgicas, na abertura e fechamento do L.’.L.’., na conferência do saco de PP.’. e Inf.’. e na Cadeia de União. Esses procedimentos ritualísticos, diga-se de passagem, variam de acordo com o Rito adotado pela Oficina.
Vamos examinar, agora, essas funções separadamente:
Primeira:
O Orador, como membro do M.’.P.’., tem suas atribuições definidas no art. 122 do RGF.
São elas:
I – Observar, promover e fiscalizar o rigoroso cumprimento das leis maçônicas e dos rituais, lembrando que, tal como no mundo profano, não há crime sem lei anterior que o defina.
II – Cumprir e fazer cumprir os deveres e obrigações a que se comprometeram os membros da Loja, à qual comunicará qualquer infração e promoverá a denúncia do infrator. Percebam aqui que o Orador não pode coibir o erro eventualmente cometido, mas apenas advertir e, em último caso, denunciar.
III – Ler os textos de leis e decretos, permanecendo todos sentados, inclusive o Orador.
IV – Verificar a regularidade dos documentos maçônicos que lhe forem apresentados, inclusive conferir a assinatura, ou ne varietur, dos visitantes, apostas no livro de presença, com os documentos profanos que esses deverão lhe apresentar.
V – Apresentar suas conclusões no encerramento das discussões, sob o ponto de vista legal, qualquer que seja a matéria.
VI – Opor-se, de ofício, a qualquer deliberação contrária à lei e, em caso de insistência na matéria, formalizar denúncia ao poder competente. Cabe aqui lembrar que, ao constatar um erro, ou uma decisão equivocada da Loja, ele deverá se opor, não de um modo brutal ou prepotente, mas de uma maneira esclarecedora e fraternal, dizendo um não tão delicadamente como se dissesse um sim.
VII – Manter arquivo atualizado de toda a legislação maçônica. Lembrando aqui da importância de estar sempre atualizado o seu arquivo com as emendas constitucionais e alterações do RGF publicadas nos boletins oficiais.
VII – Assinar as atas da Loja, tão logo sejam aprovadas.
IX – Acatar ou rejeitar denúncias formuladas à Loja, representando aos poderes constituídos. Em caso de rejeição, recorrer de oficio ao tribunal competente.
Para o bom desempenho dessas atribuições específicas, é sim necessário que aquele que a exerça tenha amplo conhecimento de todo o arcabouço legal da Maçonaria, ou seja:
·         Constituição do GOB
·         RGF
·         Código Eleitoral Maçônico
·         Código Penal Maçônico
·         Lei Penal Maçônica
·         Constituição Estadual do G.’.O.’. Estadual à que pertença sua Loja
·         Regimento Interno de sua própria Loja
No desempenho dessas atribuições, o Irmão que ocupa esse cargo deverá ser ponderado, sereno, conciliador e justo.
Para isso, é importante e necessário que conheça alguns princípios jurídicos básicos, tais como a hierarquia das leis, isto é, quando conflitantes, leis federais prevalecem sobre as estaduais, e ambas prevalecem sobre o Regimento Interno da Loja.
Como Membro do M.’.P.’.M.’. o Orador pode e deve falar sentado, por analogia com o Secretário da Loja, pois sua fala é quase sempre acompanhada de consultas ou citações das leis ou dos rituais.
É oportuno esclarecer também que o Membro do Ministério Público pertence ao Poder Executivo e não ao Judiciário, como equivocadamente alguns imaginam.
Finalizando essa primeira parte, é bom lembrar que o Guardião da Lei deve ser um dos espelhos da Loja, esforçando-se por apresentar uma conduta impecável e um compromisso inarredável com a verdade e a lei.
Examinemos, agora, a segunda função do Orador de Loja, ou seja, como Orador propriamente dito:
Segundo os dicionários, orador é aquele que ora ou discursa em público e aqui cabe uma primeira observação: quando discursa, o Orador deve permanecer em pé, como sempre o fizeram os grandes oradores.
Falando em pé, o Orador pode utilizar melhor seus braços e suas mãos para dar ênfase e dramatização à sua fala, além de melhor aproveitar a sua aparelhagem respiratória e vocal.
O bom Orador saberá ser eloquente em seus discursos e conciso em suas conclusões como guardião da lei. Para isso, a nobre arte da oratória exige, daqueles que a ela se dedicam, o domínio de três grandes ciências e artes: a lógica, a gramática e a retórica, o trivium. (os Irmãos ainda se lembram das sete ciências e artes liberais da antiguidade, ministradas no grau de companheiro?)
Vamos recordar?
A lógica, que nos ensina a pensar corretamente.
A gramática, que nos ensina a escrever corretamente.
E a retórica, que nos ensina a falar corretamente.
Somente quem pensa e escreve corretamente conseguirá se expressar corretamente, desenvolvendo um raciocínio e uma seqüência lógica na exposição de suas idéias, fazendo com que elas tenham clareza e se organizem linearmente, tendo princípio, meio e fim.
A terceira atribuição do Orador é participar de atividades ritualísticas, como já foi mencionado. Nessas atividades, ele deverá ser um verdadeiro exemplo e espelho para a Loja, obedecendo rigorosamente ao que prescreve o Ritual, nada lhe acrescentando ou suprimindo. Nas Lojas que adotam o R.’.E.’.A.’. A.’. o Orador tem, ainda, outra atribuição, quase esquecida, mas que consta nos rituais:
O Tempo de Estudos será preenchido pelo V.’.M.’. ou pelo Orador, ou ainda por um Irmão previamente designado.Mas dificilmente vemos na prática isso acontecer. O V.’.M.’. ou o Orador preenchendo o Tempo de Estudos.
E muito difícil ser Orador de Loja?
É difícil!
Vale à pena?
Vale.
Como disse Fernando Pessoa: “tudo vale a pena, quando a alma não é pequena.”
 
Enviado pelo Ir.’. Carlos Basílio Conte
Autor de: “O Livro do Orador”
Madras Editora

sábado, 19 de agosto de 2017


REFLEXOS DA ÉTICA MAÇÔNICA

Sinopse: Objetivo da ética maçonicamente orientada.

O Rito Escocês Antigo e Aceito tem rica filosofia da qual o maçom dispõe para sua autoconstrução. Este cabedal filosófico reflete-se na sociedade na forma de mudanças que promovem libertação do sistema humano que subjuga o pensamento das pessoas. E todas as mudanças sociais e políticas ocorrem antes na mente e depois se materializam na forma de ações e produtos em constante evolução e graus de complexidade.

A transformação é obtida aos saltos pelos que trabalham os neurônios constantemente. Abruptamente, despertam, fixam-se e mudam conceitos, verdades.

Ao longo da história humana os saltos intuitivos sempre foram influenciados por fatores ambientais, genéticos e culturais. O software da mente gravado no hardware do cérebro humano só progride em resultado da troca de informações entre indivíduos em debates, conversas ou leituras.

O método maçônico visa estes saltos intuitivos de seus adeptos para encontrar a solução de problemas que se refletem na sobrevivência pacífica da espécie humana.

O homem sempre usou dos pensamentos de seus semelhantes para desenvolver máquinas, escrita, arte, ciência e toda a cultura existente. O maçom usa seus companheiros para deles extrair e desenvolver pensamentos que mudem sua forma de pensar e agir no campo moral.

Da camaradagem desenvolvida nas reuniões brota a força que muda intelecto, emoção e espiritualidade. É a energia condicionadora que o grupo social exerce sobre o indivíduo.

E isto é realidade desde a época das cavernas, onde um ser humano influiu na educação do outro, até acumular no presente toda a vasta cultura política, metafísica, social e tecnológica. O maçom é multiplicador da filosofia político-social da Maçonaria.

Do conjunto de atividades do filosofar maçônico ele desenvolve posturas que constituem o código de ética que dirige seus passos e que se reflete no meio social.

E como ética e moral se confundem, pois é tênue a sua diferença e profundo o seu alcance, convém esclarecer o que é a ética maçonicamente orientada.

Na conceituação da Ética é possível identificar dois grandes campos de concepções fundamentais: Na primeira concepção, “o bem seria para onde se dirigiria o homem”, e na segunda concepção, “o bem seria uma realidade, embora não inscrita na natureza, humana e alcançável” (Abbagnano, 1998, página 380 e 381).

A Ética, um ramo da Filosofia que busca os princípios ou fundamentos da natureza das ações humanas, pode também referir-se a princípios que fundamentam o pensar humano, sem formular ações ou regras de conduta, precisas e fechadas.

Ética, também chamada de Filosofia da Moral, é caracterizada por ser um pensar reflexivo dos princípios ou fundamentos que determinam os valores e as normas que governam a conduta humana.

Nesta perspectiva, a Ética enquanto Filosofia da Moral mantém ampliadas ligações de natureza prática com outras áreas do conhecimento humano, dentre as quais, a biologia, a antropologia, a economia, a sociologia, a teologia, a história e a política. São áreas do conhecimento caracterizadas por serem disciplinas regidas pela lógica cartesiana da sistematização, com ordenamento racional e perda do caráter sagrado, portanto ciências descritivas ou experimentais.

A Ética, enquanto Filosofia da Moral, ao contrário, busca a determinação dos fundamentos ou princípios que justificam a natureza de teorias normativas e estando determinados os fundamentos ou princípios, aplica-os, se necessário, e quando for o caso, aos dilemas morais.

Algumas áreas do conhecimento que eram objeto de estudo da filosofia, em especial da Ética, após a revolução industrial e a consequente profissionalização e especialização do conhecimento, estabeleceram-se como disciplinas independentes e científicas.

Assim, pôde a Ética ser definida como a área da filosofia que estuda as normas morais nas sociedades humanas e que pretende explicar e justificar os costumes de uma determinada sociedade, bem como, solucionar dilemas a ela inseridos.

A Moral é um conjunto de normas e regras estabelecidas por cada sociedade e aplicadas ao cotidiano de cada pessoa. A moral ocorre em dois planos: o normativo e o factual. De um lado, nela encontramos normas e regras que tendem a regulamentar a conduta dos homens e, de outro lado, um conjunto de atos humanos regulamentados por eles; cumprindo assim a sua exigência de realização (Vásquez, 1998, página 51-64). A Moral, com suas normas e regras que orientam e julgam as ações do indivíduo sobre o que é certo e errado, bom e mau, moral e imoral. Um pensar sobre a conduta.

A Ética investiga justamente o significado e propósito desses adjetivos, tanto em relação à conduta humana, como em seu sentido fundamental e supremo. Um pensar a partir de princípios ou fundamentos. Um infindável pensar, refletir e construir.

Noutra perspectiva, existe a Moral como primazia exclusiva, defendida por um sistema filosófico, o Moralismo, que fundamentou ideologias de intolerância, de preconceito e de puritanismo.

Para alguns, a palavra Moral foi desqualificada por esta associação a Moralismo e, deste modo, justificaram a preferência em associar à palavra Ética, as regras e os valores por eles consagrados. No campo das ideologias, não se pode deixar de apontar a diferença que se estabeleceu entre a lógica dos que associaram a palavra Ética às regras e valores por eles consagrados e a lógica dos moralistas, onde a Moral aparece como primazia exclusiva. Passou a referir-se a julgamentos éticos, ou princípios éticos, quando seria mais pertinente falar de juízos morais ou princípios morais.

Assim, existem pessoas que possuem um valor e por um processo psicológico que legitimam as normas ou regras decorrentes e pautam sua conduta por elas, sem controle externo, só porque estão emocionalmente convictas de que, essa regra representa um bem moral. Outras pessoas por costume e por hábito validam certas condutas.

Há aquelas que consideram determinadas condutas como boas, e assim, devem ser praticadas. Aqui o juízo de valor como matriz para a legitimação das normas. São exemplos de conduta Moral, de Moralidades.

Existem pessoas em que os processos inconscientes seriam os determinantes da conduta moral, que são oriundos da sua individualidade pessoal e social, responsável pela forma habitual e constante de agir do caráter e da personalidade. Este é um exemplo de Ética, enquanto Filosofia da Moral.

A partir do final do século XIX, da era dos sofistas e início do século XX, observa-se na Ética ocidental três perguntas constantes: seriam os juízos éticos reflexos dos desejos dos que os criam ou verdades inseridas neste mundo; seria a ação boa, fruto da racionalidade construída, introjetada ou inculcada ou simplesmente ação vinculada ao interesse próprio; e ainda, qual seria a natureza do certo, do errado e do bem.

Desde o início do século XX estes temas desenvolveram-se nas mais variadas formas, com ênfase na aplicação da Ética para problemas práticos e descritos como Ética normativa, Ética aplicada e Meta-ética. Esta última como estudo que, diferente de prender-se à análise de teorias éticas ou julgamentos morais, dedica-se à busca da natureza dos juízos morais, se objetivos ou subjetivos.

Por óbvio, pode-se estar inserindo aqui a Ética Maçônica como estudo contemporâneo e ajustado ao paradigma deste milênio, quando ela busca ajudar os irmãos a legitimar intimamente valores, pela introjeção de princípios ou fundamentos que os farão conduzir-se coerentemente por normas e regras, consagradas como boas e virtuosas. Abordam-se os princípios ou fundamentos filosóficos que pretendem ser valores intimamente legitimados pelos maçons e passem a ser sistema de regras e normas que os norteiem e os qualifiquem nas relações entre irmãos e sociedade.

Considera-se que o maçom aperfeiçoa-se gradativamente, lentamente acordando dentro de si mesmo, pela autoeducação, autoconhecimento e relações fraternas, esta ética maçonicamente orientada, onde algumas etapas o levam a evoluir como pessoa humana pertencente a um único corpo vivo e interdependente ao qual se denomina humanidade.

E esta humanidade é o que o maçom desenvolve em si em sua caminhada, em sua busca por religação ao divino e para cumprir a especificação de projeto do Grande Arquiteto do Universo.

A ética maçônica tem reflexos imediatos na vida do cidadão formado nas colunas da Maçonaria.

O maçom que muda a si mesmo influencia o Universo inteiro e não apenas a circunvizinhança. Isto é perceptível em sua vida quando ao mudar paradigmas torna-se dono de seu próprio futuro.

Charles Evaldo Boller e Carlos Alberto Peixoto Baptista

Rito: Rito Escocês Antigo e Aceito

Grau do Texto: Aprendiz Maçom.

 

 

sexta-feira, 18 de agosto de 2017


Veneráveis e Veneralatos

Tal como o Rui Bandeira sabiamente explanou nos seus últimos dois textos e que se reportavam à vida interna das Lojas maçônicas, também é de fulcral relevância salientar o contributo que os Veneráveis Mestres (VM) (“presidentes da Loja”)  têm em relação à vida interna destas Lojas.

 

A própria dinâmica da Loja depende grande parte da dinâmica imprimida pelo seu Venerável Mestre bem como pela sua forma de gerir os “destinos” da Loja.

 

Uma larga maioria não consegue separar –  e isto não é crítica sequer – o mundo profano do mundo iniciático, ou seja, por defeito profissional, muitos nas suas vidas laborais gerem e dirigem pessoas, logo tenderão a agir na Maçonaria da mesma forma que o fazem no mundo profano. Sendo também, por isso mesmo, mais fácil para estes tomar a seu cargo os destinos de uma Loja e a gerir o que lá se passa no seu interior. Mas não releguemos também que a sua forma de agir e estar perante a Sociedade, a sua Educação e Formação Acadêmica também auxiliam e muito o seu (bom!) desempenho, nomeadamente na forma de lidar com a Loja e os seus membros.

 

Não existem manuais de sobrevivência para um “VM”, existirão sim pequenos guias ou opúsculos que algumas Lojas ou Obediências tenham escrito para facilitarem um pouco a vida de quem durante um ano (em média) terá a responsabilidade de gerir a Loja, mas o essencial para a gestão da Loja será a sua vivência e praxis maçônica. Sendo que uns serão mais “ritualistas” e outros mais “administrativos” no cumprimento das suas funções.

 

– Cada um como cada qual… –

 

Mas não obstante, esta diferenciação da forma de gerir e de estar, pois a cada identidade corresponderá uma forma de gerir, permite a vantagem mesmo que uma Loja tenha uma prática de trabalho homogênea, esta será sempre um pouco diferente de ano para ano, possibilitando aos seus membros não ficarem reféns de um certo marasmo que não lhes possibilite evoluir, seja maçônicamente quer pessoalmente.

 

Outra das vantagens que diferentes abordagens ou estilos de gestão permite, é que pelo facto de a presidência da Loja ser quase sempre anual e dependente de sufrágio pelos Mestres que compõem a assembleia da Loja,  impedirá, por certo(!), determinadas formas gestionais de cariz ditatorial prolongadas no tempo; resultando que se um dado “VM” desempenhar mal ou de forma nefasta o seu cargo, a Loja somente terá de o “aturar”  um ano – ou menos ! -, mas possibilitando a alguém que desempenhou um bom ofício, que soube conviver bem com as responsabilidades que lhe estavam inerentes, e que num bom português eu possa dizer que tenha levado a Loja a “bom porto”, deixando saudades e inclusive “fazendo escola”, criando assim alguns seguidores que queiram prosseguir nessa forma de (bem) gerir.

 

– E cada Loja é uma Loja, tal como cada maçom é diferente do seu semelhante -.

 

Cada Loja tem a sua identidade própria, podendo ser parecida ou não com as outras de uma mesma Obediência, até porque cada Loja é formada por gente que também pode ser diferente entre si. A heterogenia dos seus membros é uma das grandes qualidades que a Ordem Maçônica se pode orgulhar e enaltecer.

 

Mas por outro lado, e porque nem tudo “são rosas…”, nem sempre corre tudo bem ou como deveria ocorrer, dado existirem, por vezes, Lojas que não deveriam estar sequer em funcionamento dado que o que se passa no seu seio ser tudo menos maçônico, e quase sempre com a conivência do seu “VM”. – mesmo que ele não seja o responsável por tais atos, a Loja depende dele e ele será sempre a pessoa que dará a cara pela Loja! – E por causa disto é que um “VM” tem de ter características naturais de um Homem bom, Livre e com bons costumes,  – soa a “beato” mas é assim que tem de ser – para que tais situações menos nobres não ofusquem a Luz que deve resultar da Maçonaria e emanar na sociedade à sua volta.

 

Ser “VM” não é tarefa fácil, não é “bater malhete” como se queira… Existem determinadas regras a cumprir e a fazer por cumprir!

 

Logo, ser investido nas funções de Venerável Mestre não poder ser encarado de forma singela, mas antes como uma demanda tanto pessoal como coletiva. Pessoal porque tal é desempenhado através de um labor próprio e que depende intrinsecamente de si mesmo, e coletivo porque é feito a bem da Loja e da Obediência em geral.

 

Não é fácil esta tarefa, tal como salientei. E uma parte importante deste trabalho também e que não pode ser esquecida é o apoio que os obreiros da Loja dão ao seu “VM”, auxiliando-o na condução dos “trabalhos”, promovendo iniciativas em prol da Loja, produzindo Trabalhos/Pranchas  e debatendo respeitosamente a vida interna da Loja.

 

Apenas uma Loja com obreiros ativos e cujo “VM” seja alguém que possibilite a troca de ideias efetivas, terá um bom prenúncio na sua existência, pois as boas decisões nunca estão sozinhas e muitas das vezes para serem corretamente aplicadas dependerão daqueles que, por sinal, as terão de cumprir…

 

E por isto que anteriormente afirmei é que considero que uma Loja não é do seu Venerável Mestre, mas sim, que o Venerável Mestre é que é da Loja!

 

E quem não interiorizar isto, ou não sabe ao que se propõe ou não estará bem na Maçonaria…

 

Mas nem sempre quem já foi “VM” quis despir o seu cargo, isto é, são mestres que embora já não detenham essas funções, mas que mesmo assim desejam e insistem em o a continuar a o ser… Obstaculizando de forma premente o trabalho que o “VM” em exercício possa fazer. Condicionando este com atitudes ou ideias suas e acicatando os demais obreiros contra o desempenho do seu “VM”; considerando eu isto como uma forma de rebelião que não deveria ter lugar num espaço onde a fraternidade deveria ser um dos seus pilares fundamentais.

 

Mas pior que isto, serão aqueles que nunca cumpriram tal ofício mas que acham que o desempenharam ou que detêm o direito de o vir a ocupar de forma unilateral, condicionando ativamente o desempenho que o “VM” deverá levar a seu cargo…

 

Enfim, há de tudo um pouco…infelizmente!

 

Até existem aqueles, sendo mestres ou não, que se acham a “voz da razão” e assim se acharem os “donos da Loja”, bloqueando tudo (ou quase…) aquilo a que se propusera a fazer o seu “VM”. E esta forma de inquinar uma Loja não deveria ser aceite pelos seus membros e muito menos ser feita com a complacência de um “VM”, pois foi ele o eleito para a direção da Loja e mais ninguém.

 

Uma coisa é um “VM”  aconselhar-se, outra diferente, é deixar outros executarem o seu trabalho.

 

E é por isto que amíude existem cisões e/ou “abatimentos de colunas” de Lojas com “adormecimentos” ou transferências de membros para outras Lojas, porque já não é possível a convivência entre si. Deixando eu à reflexão para os demais esta situação que é deveras importante para a sobrevivência de uma Loja.

Um “VM” que saiba desempenhar bem o seu cargo nunca permitirá que aconteça o que eu referi e saberá, ou pelo menos tentará, gerir os egos e diferenças de opinião que existem no seio da sua Loja. Essa sim, será talvez a maior dificuldade que poderá encontrar durante o seu veneralato, pois as questões rituais ou administrativas, quando não são graves, são facilmente tratadas ou ultrapassadas. E regra geral são as Admissões de profanos com as suas Iniciações, os “aumentos de salários/graus“, gestão corrente da tesouraria da Loja e pouco mais. Aqui sim, um “VM” pode pelas suas qualidades pessoais fazer diferente dos restantes que passam por essa função; a tal “dinâmica” que abordei.

 

Felizmente que a Respeitável Loja a que pertencem os Mestres “escritores” neste blogue conta nas suas colunas com gente com conhecimentos suficientes para fazer prosperar a Loja.

 

Apoiando-se nos seus membros mais antigos que com a sua experiência e sabedoria corrigem qualquer “desvio administrativo” ou erro ritual que possa surgir, bem como nos seus membros mais recentes, gente pronta a “arregaçar as mangas” e por-se a trabalhar, assim os deixem.


É somente devido a esta conflexão de “ideias e vontades”, convergindo numa ação perseverante e regular, é que uma Loja tem um bom futuro assegurado.

 

Não basta viver à sombra de feitos do passado, e esta Loja os tem feito; há que criar sempre novas dinâmicas e formas de gerir e a Respeitável Loja Mestre Affonso Domingues nº5 conta já no seu historial de mais de 25 anos de trabalho ininterrupto com gente capaz de o fazer por mais 25 anos e até mais… E gente que pela sua forma de estar, pela sua sensibilidade pessoal  e apoiada nos vastos conhecimentos de alguns dos seus Irmãos, podem ser “herdeiros naturais” da linha de sucessão criada à vários anos  na Loja e que ainda hoje em dia se utilliza.

 

E concluindo um texto que já vai longo, um Venerável Mestre como sendo alguém com a responsabilidade da gestão anual da Loja, nunca poderá pensar a curto prazo, apenas na gestão corrente, mas sempre com um pensamento a médio/longo prazo, para que a Loja não divirja nos seus destinos, não se preocupando em deixar um “legado pessoal” mas sim, algo sustentado pelo tempo. E por isso mesmo, deve ser alguém com vontade de trabalhar e com “espírito diligente” e rigoroso, sendo meticuloso e disciplinado no que faz, devendo ser o melhor “relações públicas” da sua Loja, pois ele é que dará a cara por ela; não devendo ter um perfil autocrático, mas antes um elevado sentido fraterno.

 

Em suma, ser alguém que goste de trabalhar e que o faça pelos outros, não esperando qualquer tipo de encómios à sua pessoa.

 

– Somente tendo uma postura humilde perante os seus pares, pode um “VM” ser exaltado pelos demais, e isto se assim o tiver de ser… –

 

Para além disso, terá de ser alguém capaz de estabelecer pontes entre os Irmãos que tenham divergências ou contendas entre si, sendo um bom ouvinte e confidente, para além de ter a capacidade em aconselhar os obreiros naquilo que necessitem do seu “VM”, e que saiba agir com a “parcimônia” necessária ao seu cargo, sem impulsos ou afins… pois terá de ter a ponderação necessária a cada decisão que tenha de tomar ou que venha a ter de aplicar em relação às funções a si designadas como representante da Loja na Obediência onde esta se encontra filiada. E chegando ao final do seu veneralato, ter a capacidade de fazer um auto exame de consciência e refletir no que se propôs a fazer, no que fez e no que poderia ter feito e extrair de aí as suas próprias conclusões, por forma a que quando se sentar no Oriente ao lado do próximo “VM”, poder ser ele, também, uma “voz” de e em auxilio a este, porque a função de Past-Venerável ou Mestre Instalado não é mais que isso, uma voz em auxilio do novo Venerável Mestre.

 

E como “VM” reconhecer que recebeu a Loja com um determinado funcionamento, em determinado momento, e que entregou ao seu substituto na “cadeira de Salomão” uma Loja que deverá ser mais coesa e mais forte do que aquela que terá recebido do seu antecessor, – esta é a sua obrigação! – o que nem sempre é simples de ser feito.

 

Não deixando nunca de ter sempre presente a noção de que por qual forma pretenderá  ser (re)conhecido no final do seu ano de trabalho, se por ter sido “Venerável” ou pelo seu “Veneralato”…

 

Fonte: http://a-partir-pedra.blogspot.com.br/