sexta-feira, 25 de novembro de 2016


Oração do idoso

 

Bem-aventurados aqueles que compreendem os meus passos vacilantes e as minhas mãos trêmulas.

 

Bem-aventurados os que levam em conta que meus ouvidos captam as palavras com dificuldades, por isso procuram falar-me mais alto e pausadamente.

 

Bem-aventurados os que percebem que meus olhos já estão nublados e as minhas reações são lentas.

 

Bem-aventurados os que desviam o olhar, simulando não ter visto o café que, por vezes, derramo sobre a mesa.

 

Bem-aventurados os que sorriem e conversam comigo.

 

Bem-aventurados os que nunca me dizem: "Você já me contou isso tantas vezes!"

 

Bem-aventurados os que me ajudam, com carinho, a atravessar a rua.

 

Bem-aventurados os que me fazem sentir que sou amado e não estou abandonado, tratando-me com respeito.

 

Bem-aventurados os que compreendem quanto me custa encontrar forças para aguentar minha cruz.

 

Bem-aventurados os que me amenizam os últimos anos sobre a Terra.

 

Bem-aventurados todos aqueles que me dedicam afeto e carinho fazendo-me, assim, pensar em Deus.

 

Quando entrar na Eternidade, lembrar-me-ei deles, junto ao Senhor! Amém!

 

(Autor desconhecido)

quinta-feira, 24 de novembro de 2016


 

Os Dois Coveiros da Maçonaria

Por Ricardo Vidal

Meus prezados Irmãos!

Meus amados irmãos Aprendizes e Companheiros!

Mais de uma década de rica experiência na Maçonaria, de convívio com pessoas que pensam e agem das mais diversas maneiras; de observação, pesquisa, investigação e busca incessante da verdade, permitiu-me identificar inúmeros tipos de maçons, dois  dos quais são altamente deletérios à saúde da nossa sublime instituição, fonte de seus principais problemas: o místico supersticioso e o vaidoso arrogante. Conhecer um pouco da personalidade desses dois impostores,  existentes em nosso meio em razoável número, bem como as desordens psicológicas que definem o comportamento  anormal e antimaçônico de ambos, é uma boa maneira de proteger-se deles, em especial em situações em que não é fácil ou possível evitá-los.

Estou certo de que o presente trabalho será de grande valia para os irmãos mais novos, sobretudo para aqueles que ingressaram em nossa instituição com a mente cheia de pensamentos honestos e ideais elevados. Servirão também para fazer corar de vergonha aqueles que se enquadram em nossa análise, persuadidos de que estão a salvo dos olhares atentos de irmãos mais esclarecidos.

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PARTE I

O MÍSTICO SUPERSTICIOSO

(O paraíso do idiota é o mundo de ilusões por ele criado)

Antes de iniciarmos a análise desse tipo de maçom, seria interessante passarmos os olhos em alguns princípios fundamentais da Maçonaria que ele contraria ou ignora, total ou parcialmente:

a) A Maçonaria não impõe limites á livre INVESTIGAÇÃO DA VERDADE e exige de todos a maior TOLERÂNCIA;

b) A Maçonaria é acessível a homens de todas as CLASSES, CRENÇAS RELIGIOSAS E OPINIÕES POLÍTICAS, excetuando-se aquelas que privem o homem da liberdade de consciência, restrinjam os direitos e a dignidade da pessoa humana, ou que exijam submissão incondicional aos seus chefes, ou, ainda, PRIVEM O HOMEM DA LIBERDADE DE MANIFESTAÇÃO DO PENSAMENTO;

c) O objetivo da Maçonaria é COMBATER A IGNORÂNCIA em todas as suas modalidades;

d) E o FANATISMO e as paixões que acarretam o OBSCURANTISMO (*)

_________________________________

(*) Ritual do Simbolismo do Aprendiz Maçom do Rito Escocês Antigo e Aceito, págs.1-2. (Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo-GLESP).

(a) Intolerância e mediocridade

Violador contumaz dos regulamentos acima, e de dezenas de outros que disciplinam as nossas relações, incluindo os landmarques, o maçom supersticioso é inimigo da verdade e amante da mentira. A facilidade com que se entrega aos encantos de certas imposturas – algumas fabricadas por bárbaros e alucinados que viveram na Idade do Bronze–, chega, em alguns casos,  a ser revoltante. Preguiçoso  mental por excelência – característica notória de todo indivíduo supersticioso –, ele nunca se dá ao trabalho de investigar o que lhe apregoam ou as falsidades que instila deliberadamente na própria cabeça,  permanentemente cheia de minhocas e voltada para o mundo das coisas extravagantes. Ele absorve dogmas, fábulas e teorias mirabolantes sem jamais submetê-las ao crivo da razão. Quanto mais fantástico e absurdo é o mito que lhe apregoam, mais fácil e avidamente ele o devora. Para ele as coisas irreais valem mais  do que as reais; as invisíveis, mais do que as visíveis. Runas, mantras, chacras, cristais, sefirotes, bruxedos, pentagramas e amuletos valem mais do que pontes, pomares, diques, vacinas, adubos, medicamentos, escolas, asilos, Filosofia, Matemática, Medicina etc. A Ciência não é objeto de suas preocupações, a Filosofia o aborrece e da realidade ele foge como a barata das  cerdas de uma vassoura. São coisas incompatíveis com o seu cérebro indolente e obscuro, porque a Ciência requer investigação, a Filosofia  exige estudo e reflexão e a realidade não combina com a covardia. No seu tosco entendimento, esses assuntos maçantes devem ser deixados a cargo dos desprezíveis materialistas,  indivíduos afastados de deus.

O maçom supersticioso não vê com bons olhos o progresso da Ciência e raro é o que têm respeito pelos irmãos que só aceitam o que ela ensina e a experiência confirma. Nesses  costuma lançar a pecha de ateus, ímpios, descrentes e outros termos rebaixados, cujas etimologias muitas vezes nem conhece.  Autênticas e dignas de louvor são para ele apenas a confissão religiosa que professa, as quimeras que fermentam em seu cérebro, e as divindades nas quais crê. Tudo o mais ele rechaça como coisa vil e falsa.

Quais são os ídolos do maçom supersticioso? Os irmãos Francisco Miranda, George Washington, Simon Bolívar, San Martin e Gonçalves Ledo, que sacudiram o jugo do colonialismo e libertaram o continente americano de seus opressores europeus? Não, são os impostores Cagliostro e Saint-Germain, dois assíduos frequentadores de cadeias que perambulavam pela Europa no séc. XVIII, aplicando golpes por onde passavam! Por esses nutre um amor todo especial, ainda que em suas respectivas folhas de serviço não conste o registro de um único ato comprovado praticado em prol da humanidade.

Em quem se espelha esse tipo de maçom? Nos irmãos Tomas Jefferson, Tomas Paine e Lafayette, que fundaram a nação mais poderosa e próspera do planeta, os Estados Unidos da América? Talvez ele nem saiba quem foram esses três gigantes! Sua preferência é por gente ignota, paspalha e sem biografia, tais como Martinez de Pasqually e o Barão de Tschouldy, dois impostores que inundaram a coreografia maçônica de graus fraudulentos!

Quais são os “líderes espirituais” do nosso maçom? Algum filósofo que contribuiu para içar a humanidade das trevas da ignorância, abrindo-lhe as alamedas do progresso, tais como os irmãos Montesquieu e Voltaire? Não, são os visionários Emmanuel Swedemborg e Luís Claude de Saint-Martin, que em seus livros descreveram os mistérios da criação com a mesma autoridade que algumas doses de aguardente confere a um bêbado, que fala o que lhe vem na cabeça quando fica fora de si!

Nas palavras de quem nosso personagem dá crédito? Nas que se acham nas páginas monumentais deixadas pelos cientistas maçons Alexander von Humboldt e Samuel Hahnemann? Não, interessam-se mais pelas depravações saídas da pena de libertinos  como Charles Leadbeater e Aleister Crowley, dois notórios maníacos!

Quais são os poetas preferidos do maçom em exame? Os imortais e insignes irmãos Pushkin, Lessing e Goethe?  Não, conhece-os apenas pelo nome, quando os conhece! Em  compensação, tem na ponta da língua cada parágrafo escrito pelos impostores e visionários Eliphas Levi, Papus, Madame Blavastky e Anne Besant, que poluíram a Maçonaria com suas teorias absurdas!

Quais são as preferências musicais desse nosso irmão sonhador? Alguma sinfonia composta pelos irmãos Haydn, Liszt ou Mozart? Não, prefere ouvir ruídos eletrônicos conhecidos no mercado como música New Age, ou, opcionalmente, compassos repetitivos e distorcidos produzidos pela cítara de algum faquir esquelético!

Que livros figuram na estante do maçom supersticioso? Algum escrito pelos luminares maçons Franklin, D´Alembert e Knigge? Não, prefere orná-la com engendros sensacionalistas e inúteis do tipo Conceito Rosacruz do Cosmos (Max Heindel), O Casamento Alquímico de Christian Rozencreutz (autor desconhecido), A Força Oculta (Helena P. Blavatsky),  Dogma e Ritual da Alta Magia (Eliphas Levi), Eram os Deuses Astronautas (Erich von Daniken), O Despertar dos Mágicos (Jacques Bergier e Louis Pauwels) e outros lixos congêneres que usa para adubar diariamente o jardim do mundo de ilusões em que vive!

O que é comum encontrarmos na cabeceira da cama onde se deita o nosso maçom, quando ele nos convida a conhecer a sua residência?  Algum livro útil que fortaleça as funções do cérebro? Alguma obra que aperfeiçoe e aguce o raciocínio? Algum material útil à sociedade e ao progresso do país? Não,  mais fácil é acharmos amuletos de toda a natureza ou, como eu mesmo já tive oportunidade de presenciar, copos contendo pedaços de cristais imersos em água, cuja função é, segundo ele, atrair “vibrações positivas” e as “forças cósmicas do Universo”. (**)

(**) E também fêmeas de insetos e mosquitos transmissores de pragas e doenças contagiosas.

Inconsciente de sua própria pequenez, incapaz de enxergar um palmo na frente dos olhos embotados pelo véu da ignorância, ao discorrer sobre os enigmas da criação o maçom supersticioso acaba se revelando uma criança atrevida, quando não um perfeito idiota. Ele fala da criação dos mundos com uma fluência tal que torna difícil conter o riso. Da maneira como descreve o Grande Arquiteto Universo, chega a passar a impressão de ser o próprio, ou pelo menos de alguém com quem diariamente toma um trago no bar da esquina. No íntimo, ele não crê  nem aplica os pontos das doutrinas quiméricas que apregoa, sobretudo aqueles que versam sobre a prestação de ajuda aos pobres. Raro é o que não se omite nesse particular. Ele costuma deixar a máscara cair quando um irmão necessitado solicita a sua ajuda ou uma criança pobre aparece-lhe na frente mendigando algo para comer ou para se vestir.

(b) Lixeiros e Mercadores de Ilusões

O maçom supersticioso age como lixeiro na Maçonaria, só que de maneira inversa ao do valoroso funcionário do serviço público de limpeza, que cuida do asseio de nossas ruas. Toda a porcaria que consegue catar no esterco místico da sociedade ele traz para dentro da sua loja para fortalecer suas arengas,  conquistar sequazes, e gente com quem compartilhar suas  fantasias excêntricas. Se a loja dispõe de uma biblioteca, ele logo a transforma em depósito de lixo, em uma réplica quase idêntica da que possui em casa, entulhando-a com títulos iguais ou semelhantes aos citados lá atrás.

Por fanatismo, inocência, ou mesmo princípio de loucura, nosso personagem assim age porque julga ser uma criatura especial,  um verdadeiro “iniciado”, um iluminado com missão divina na Terra, quando na verdade não passa de um desequilibrado emocional, de um visionário movido por “delírios de poder”,  de um infeliz que nutre certo desprezo pela vida na Terra. Seu  comportamento proselitista, contrário ao regulamento que proíbe toda e qualquer discussão de caráter político ou religioso em loja, compromete o maior tesouro que a Maçonaria “ainda”  possui, único no planeta, que é o de poder reunir, sob um mesmo teto, irmãos de todas as nacionalidades, etnias e religiões.

Ao lado desse irmão não poderia faltar, é claro, o onipresente  mercador de ilusões, o maçom falsário que vive com ele em permanente estado de simbiose, que lucra com a sua credulidade. Este embusteiro começa a sua carreira na Maçonaria construindo pacientemente uma auréola mística em torno de si, deixando transparecer aos desavisados ser um homem sábio e virtuoso, de ser o “conhecedor da verdadeira Maçonaria”.  Sua única intenção é mais tarde colocar à venda no mercado as porcarias que vai  escrever com a sua pena fraudulenta, a partir de concepções  quiméricas geradas nos antros obscuros do seu cérebro ou de  material sensacionalista publicado dentro e fora do país.   Mais do que lixeiro, o mercador de ilusões atua na Maçonaria da mesma forma que o proxeneta na zona do baixo meretrício. Não há nada que fique a salvo de suas prostituições:   nossa filosofia maçônica de vida, nossos símbolos, nossas reuniões, nossas alegorias, nossas comemorações, nossos banquetes e,  lamentavelmente, nossos irmãos Aprendizes e Companheiros. Esses são as suas maiores vítimas, pois enquanto não adquirem resistência intelectual e conhecimentos maçônicos suficientes  para rechaçarem as suas imposturas (alguns não adquirem  nunca!), eles as assumem como verdades sublimes e, o que é pior, passam a apregoá-las por toda parte como tais, inclusive  no mundo profano, expondo nossa instituição ao ridículo. Em tudo esse defraudador põe o seu dedo ruinoso para corromper e mistificar, jamais se lembrando, porém, de usá-lo para ressaltar o real, simples, mas magnânimo propósito de nossas alegorias, QUE É O DE FAZER COM QUE O MAÇOM  (pedreiro por definição) JAMAIS SE ESQUEÇA DO SEU PAPEL DE CONSTRUTOR SOCIAL. Com o tempo, palavra dele vai adquirindo ares de autoridade e os erros que dissemina nas  calamidades que escreve passam a triunfar sobre a verdade.

 (c) Comportamento e atuação como Mestre Maçom

Como Mestre esse tipo de maçom desencoraja a livre  e sadia investigação dos fatos, de modo a fazer com que os Aprendizes e Companheiros assumam como verdadeiras suas  ridículas superstições. Por ser um zero intelectual, costuma tratá-los como crianças, apregoando-lhes pseudociências, anedotas místicas pueris, e bobagens de fácil assimilação. Só recebem o seu aplauso os trabalhos que estiverem floreados com as quimeras com as quais está de acordo. Ao mesmo tempo opõe-se aos Mestres que se esforçam para ministrar-lhes ensinamentos  maçônicos úteis. Sua estupidez ele a demonstra quando é questionado a respeito das doutrinas que tenta propagar em loja. Quando não as ignora por completo, como é de praxe, conhece-as muito superficialmente, limitando-se apenas a repetir chavões surrados assoprados em seu ouvido por outros visionários tão ou mais ingênuos do que ele. Com frequência, e às vezes sem se dar conta do desrespeito com que o faz, o maçom supersticioso costuma inserir  seus irmãos no âmbito de suas fantasias místicas particulares, negando esse mesmo direito aos outros quando está em seu poder fazê-lo. Como orador, ou mesmo quando pede a palavra nas reuniões, é quase sempre para arengar uma impostura que absorveu sem exame ou uma frase feita colhida em algum dos “livros” que enumeramos há pouco. Como Venerável, recorre com frequência ao expediente arbitrário da censura para defender da destruição uma fábula qualquer que cultiva no cérebro, ou mesmo para silenciar um irmão que tente incinerá-la com a tocha da razão.  Por fim, o maçom supersticioso tem carinho especial pelas “verdades reveladas” que, a rigor, nada mais são do que anedotas destituídas de sentido impressas em papel pintado, transmitidas em sonho por criaturas do além a um número seleto e reduzido de bárbaros que supostamente viveram nos pródromos da civilização. Esse amor é de certa forma compreensível porque, primeiro, essas “verdades” são brechas que facilitam o enxerto de imposturas (de  fabricação própria ou de terceiros) em nossas alegorias e manuais de instrução; segundo porque os rituais de alguns “altos graus”, que ele assume como maçônicos, acham-se repletos delas, de forma velada ou explícita, o que pode encorajar o seu “instinto reformador” a torná-los ainda mais fraudulentos do que já são, se estiver em seu poder fazê-lo, tal como muitas vezes ocorreu no passado; terceiro porque elas permitem-no transformar a Maçonaria – pelo menos em sua imaginação–,  em uma espécie de local de culto particular, em apêndice de alguma religião que o frustra ou frustrou. Quando se compara os rituais modernos com os originais – ou mesmo os atuais em circulação–, nota-se de imediato a enorme quantidade de invencionices grosseiras que foram sendo introduzidas ao longo dos anos por impostores como Cagliostro, Saint-Martin, Fessler, Willermoz e outros, de modo a adequá-los às suas personalidades excêntricas.  Não é demais sublinhar aqui que essas “verdades reveladas”,  que se esfarelam facilmente quando recebem o bafejo de um raciocínio bem aplicado, durante séculos foram empregadas para atrasar a marcha da Ciência, cobrir o planeta de místicos e monges inúteis; escravizar a humanidade; derramar rios de sangue e lágrimas; encher o mundo de órfãos e viúvas, inventar instrumentos de tortura e dor; destruir civilizações inteiras,  acender as chamas da perseguição; encarcerar cientistas, investigadores, poetas e filósofos honestos (muitos maçons); promover guerras; atiçar levantes sangrentos; semear o ódio e fazer milhares de vítimas por toda parte.

(d)  Prejuízos à Maçonaria

Essa fé que ordena-nos crer cegamente no que nos dizem, que não permite o emprego da razão, é a fé do ignorante; ou do estúpido que se converte em fácil instrumento dos demais. O homem que não estuda o que não compreende, que aceita sem exame o que lhe dizem, degenera sua condição, igualando-se ao bruto.

(Ritual do Grau 18o – Cavaleiro Rosa Cruz – Rito Escocês Antigo e Aceito)

A fé no desconhecido é patrimônio da ignorância.

(Ritual do Grau 19o – Grande Pontífice – Rito Escocês Antigo e Aceito)

O maçom supersticioso difere-se do obscurantista religioso apenas na arte da dissimulação e no que diz respeito aos seus objetos de culto. Ambos são inimigos da liberdade de expressão e amigos da censura e da arbitrariedade: o primeiro no íntimo e  o segundo de forma manifesta. No resto, são iguais em quase tudo.

Julgando-se acima da lei, nosso personagem não compreende que para que a “Fraternidade dos Maçons Livres e Aceitos” continue merecendo assim ser denominada e funcionando, é mister que seus membros guardem para si suas fantasias e crenças particulares, bem como respeitem outras formas de fé e maneiras de pensar, tal como mandam os nossos regulamentos.  Teimoso, intolerante e insolente, ele chega às vezes ao extremo de agir como um velho decrépito, não importando a sua idade e o ridículo que o seu comportamento  suscita. Em qualquer esfera da vida, ante um fato novo e  incontestável, uma descoberta científica que lança por terra uma  quimera que fermenta em seu cérebro, ele passa a odiar o fato e,  sobretudo quem o descobriu. Na Maçonaria, procede de modo idêntico: mesmo estando demonstrada a incompatibilidade de suas concepções com a realidade,  com a história e filosofia maçônicas, continua a defendê-las com unhas e dentes, caso creia nelas. De maneira alguma se curva às evidências e aos fatos, que falam mais alto do que qualquer opinião.

Os Landmarques 19, 20 e 21, que estabelecem, respectivamente, a obrigatoriedade do maçom crer em um “princípio criador”, crer em uma vida futura, e crer nas verdades reveladas em algum “Livro da Lei”, parecem ser os únicos regulamentos que o nosso maçom costuma obedecer, ou melhor, supõe-se que o faça, pois não há como saber no quê ele realmente crê na intimidade, sobretudo se for um hipócrita. E hipocrisia é o que não falta no meio religioso. (***)  Além do mais, como são bastante vagos nesses três pontos, esses landmarques obsoletos –que por estarem em frontal contradição com a liberdade de pensamento há muito tempo já deveriam ter sido suprimidos–, podem ser  interpretados de inúmeras maneiras e, por isso mesmo, serem empregados para impor o arbítrio a um irmão que professa uma crença incomum (ou nenhuma), censurar concepções a respeito da vida além-túmulo diferentes das que estão na moda, criticar o que alguns entendem como “revelação” e, ainda, anatematizar grupos religiosos minoritários que manifestem suas crenças particulares, ainda que de maneira honesta. Tente o leitor afirmar,  por exemplo, que crê em um deus diferente do judaico-cristão e observe o semblante de desaprovação do maçom em exame! Melhor ainda, diga com ar de seriedade que crê nos deuses indianos (Brahma, Ganesha, Xiva etc.) e veja o como o seu rosto se retorce! Teste a tolerância que ele diz praticar rejeitando a Bíblia como “Livro da Lei” e exigindo a sua substituição pelo Alcorão! Questione os dogmas e os sofismas que ele apregoa em loja dirigindo-lhe uma pergunta bem simples: com que autoridade você afirma isso? Peça pelas credenciais dos impostores cujas doutrinas abraçou e observe o seu tartamudear!

(***) É mais fácil fazermos passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que encontrarmos um crente que já se deu o trabalho de estudar o livro sagrado do credo que abraçou (ou que lhe foi imposto), usado geralmente como enfeite em prateleiras.

*    *    *

Com raras exceções e em inúmeros particulares, todo maçom supersticioso é um ser nocivo à Maçonaria, não importando que seja um cidadão de boa índole e honesto. Sua mentalidade irracional, sua intolerância, sua mediocridade, seu desprezo pela Filosofia, seus incontroláveis impulsos proselitistas, terminam por afugentar irmãos sóbrios e esclarecidos, causando um prejuízo incalculável à nossa instituição.  Por serem incapazes de conviver em harmonia com a diversidade, estes maçons buscam a companhia somente daqueles que creem nos mesmos devaneios místicos; que padecem dos mesmos preconceitos e desordens psicológicas. Com o tempo passam a constituir grupelhos de gente hipócrita e insuportável, excluindo de suas relações irmãos que cultivam valores com os quais não estão habituados, sobretudo aqueles que utilizam a Razão como guia e a Filosofia como farol nos caminhos da vida. Depois, fundam lojas não para trabalharem em prol da sociedade, da nação, da família, e de si mesmos, mas para entupirem-se de crendices e falsidades, prostituírem os objetivos da nossa Veneranda Instituição, e imbecilizarem-se mutuamente.

PARTE II

O VAIDOSO ARROGANTE

(a) Baixa autoestima e complexo de inferioridade

Nenhum ditador provocou ou vêm provocando tanto dano à Maçonaria quanto o maçom vaidoso, este sapador inveterado, este Cavalo de Tróia que a destrói por dentro, sem o emprego de armas, grilhões, ferros, calabouços, e leis de exceção. Ele é indiscutivelmente o maior inimigo da Maçonaria, o mais nefasto dos impostores, o principal destruidor de lojas. Ele é pior do que todos os falsos maçons reunidos porque se iguala a eles em tudo o que não presta e raramente em alguma virtude.

Uma característica marcante que se nota neste tipo de maçom, logo ao primeiro contato, é a sua pose de justiceiro e a insistência com que apregoa virtudes e qualidades morais que não possui. Isso salta logo à vista de qualquer um que comece a comparar seus atos com as palavras que saem da sua boca. O que se vê amiúde é ele demonstrar na prática a negação completa daquilo que fala, sobretudo daquilo que difunde como qualidades exemplares do maçom aos Aprendizes e Companheiros, os quais não demora muito a decepcionar. Vaidoso ao extremo, para ele a Maçonaria não passa de uma vitrine que usa para se exibir, de um carro de luxo o qual sonha um dia pilotar. E, quando tem de fato este afã em mente, não se furta em utilizar os meios mais insidiosos para tentar alcançá-lo, a exemplo do que fazem nossos políticos corruptos.

Narcisismo em um dos extremos, e baixa autoestima no outro, eis as duas principais características dos maçons vaidosos e arrogantes. No crisol da soberba em que vivem imersos, podemos separá-los em dois grupos distintos, porém idênticos na maioria dos pontos: os toscos ignorantes e os letrados pretensiosos.

A trajetória dos primeiros é assaz conhecida.

Por serem desprovidos do talento e dos atributos intelectuais necessários para conquistarem posição de destaque na sociedade, eles ingressam na Maçonaria em busca de títulos e galardões venais, de fácil obtenção, pensando com isso obter algum prestígio. Na vida profana, não conseguem ser nada além de meros serviçais; de mulas obedientes que cedem a todos os tipos de chantagem. Por isso, fazer parte de uma instituição de elite como a Maçonaria (isso mesmo, de elite!)  produz neles a ilusão de serem importantes; ajuda a mitigar um pouco a dor crônica que os espinhos da incompetência e da mediocridade produzem em suas personalidades enfermas.

O segundo em quase tudo se equipara ao primeiro, porém com algumas notáveis exceções.

Capacitado e instruído, em geral ele é uma pessoa bem sucedida na vida. Sofre, porém, desse grave desvio de caráter conhecido pelo nome de “Narcisismo”, que o torna ainda pior do que o seu êmulo sem instrução. Ávido colecionador de medalhas, títulos altissonantes e metais reluzentes, este maçom é uma criatura pedante e intragável, que todos querem ver distante. No fundo ele também é um ser que se sente rejeitado; sua alma é um armário de caveiras e a sua mente um antro habitado por fantasmas imaginários. Julgando-se o centro do Universo, na Maçonaria ele obra para que todas as atenções fiquem voltadas para si, exigindo ser tratado com mais respeito do que os irmãos que atuam em áreas profissionais diferentes da dele. Pobre do irmão mais jovem e mais capacitado que cruzar o seu caminho, que ousar apontar-lhe uma falta, que se atrever a lançar-lhe no rosto uma imperfeição sua ou criticar o seu habitual pedantismo! O seu rancor se acenderá automaticamente e o que estiver ao seu alcance para reprimi-lo e intimidá-lo ele o fará, inclusive lançando mão da famosa frase, própria do selvagem chefe de bando: Sabe com quem está falando!!! Desse modo ele acaba externando outra vil qualidade, que caracteriza a personalidade de todo homem arrogante: a covardia.

O número de irmãos que detesta ou despreza este tipo de maçom é condizente com a quantidade de medalhas que ele acumula na gaveta ou usa no peito. Na vida profana seus amigos não são verdadeiros; são cúmplices, comparsas, associados e gente que dele se acerca na esperança de obter alguma vantagem. E nisso se insere a mulher com a qual vive fraudulentamente. Todos os que o rodeiam, inclusive ela, estão prontos a meter-lhe um merecido chute no traseiro tão logo os laços de interesse que os unem sejam desfeitos. O seu casamento é um teatro de falsidades e o seu lar um armazém de conflitos. Raramente familiares seus são vistos em nossas festas de confraternização. Quando aparecem, em geral contrariados, não conseguem esconder as marcas indeléveis de infelicidade que ele produz em seus rostos.

Em sua marcha incessante em busca de distinções sociais, que supram a sua insaciável necessidade de autoafirmação, é comum vermos este garimpeiro de metais de falso brilho farejando outras organizações de renome, tais como os clubes Lyons e Rotary, e gastando nessas corridas tempo e dinheiro que às vezes fazem falta em seu lar. A Maçonaria, que tem a função de melhorar o homem, a sociedade, o país, e a família, acaba assim se convertendo em uma fonte de problemas para os seus familiares; e ele, em uma fonte de problemas para a Maçonaria.

Um volume inteiro seria insuficiente para catalogar os males que este inimigo da paz e da harmonia pratica, este bacilo em forma humana que destrói nossa instituição por dentro, qual um cancro a roer-lhe as células, de modo que limitar-nos- emos a expor os mais comuns.

(b) Comportamento em loja

Incapaz de polir a Pedra Bruta que carrega chumbada no pescoço desde o dia em que nasceu, de aprimorar-se moral e intelectualmente, de lutar para subtrair-se das trevas da ignorância e dos vícios que corrompem o caráter; de assimilar conhecimentos maçônicos úteis, sadios e enobrecedores, para na qualidade de Mestre poder transmiti-los aos Aprendizes e Companheiros, o que faz o nosso personagem? Simplesmente coloca barreiras em seus caminhos, de modo a lhes retardar o progresso! Ao invés de estudar a Maçonaria, para poder contribuir na formação dos Aprendizes e Companheiros, de que modo ele procede? Veda a discussão sobre assuntos com os quais deveria estar familiarizado, fomentando apenas comentários sobre as vulgaridades supérfluas do seu cotidiano! Ao invés de encorajar o talento dos mesmos, de ressaltar suas virtudes e estimular o seu desenvolvimento, o que faz ele? Procura conservá-los na ignorância de modo a escamotear a própria! Ao invés de defender e ressaltar a importância da liberdade de expressão e da diversidade de opiniões para a evolução da humanidade, como ele age? Censura arbitrariamente aqueles cujas ideias não estejam em harmonia, ou sejam contrárias às suas! Ao invés de fomentar debates sobre temas de importância singular para o bem da loja em particular e da Maçonaria em geral, como age ele? Tenta impedir a sua realização por carecer de atributos intelectuais que o capacitem a participar deles! E, nos que raramente promove, como se comporta? Considera somente as opiniões daqueles que dizem “sim” e “sim senhor” aos seus raramente edificantes projetos!

Tal como o maçom supersticioso, este infeliz em cujo peito bate um coração cheio de inveja e rancor nutre ódio virulento e dissimulado pela liberdade de expressão, que constitui um dos mais sagrados esteios sobre os quais repousam as instituições democráticas do mundo civilizado, uma das bandeiras que a Maçonaria hasteou no passado sobre os cadáveres da intolerância, da escravidão e da arbitrariedade.

Dos atos indecentes mais comumente praticados por este falsário, o que mais repugna é vê-lo pregando “humildade” aos irmãos em loja, em particular aos Aprendizes e Companheiros, coberto da cabeça aos pés de fitões, joias e penduricalhos inúteis, qual uma árvore de natal. Outro é vê-lo arrotando, em alto e bom som, ter “duzentos e tantos anos de Maçonaria” e exibindo o correspondente em estupidez e mediocridade. O terceiro é vê-lo trajando aventais, capas, insígnias, chapéus e colares, decorados com emblemas que lembram tudo, exceto os compromissos que ele assumiu quando ingressou em nossa sublime e veneranda instituição.

Cego, ignorante e vaidoso, nosso personagem não percebe o asco que provoca nas pessoas decentes que o rodeiam.

Como já foi dito, a Maçonaria serve apenas de vitrine para ele. Como não é possível permanecer sozinho dentro dela sem a incômoda presença de outros impostores – os quais não têm poder suficiente para enxotar–, ele luta ferozmente para afastar todo e qualquer novo intruso, imitando alguns animais inferiores aos humanos na escala zoológica, que fixam os limites de seus territórios com os odores de suas secreções e não toleram a presença de estranhos. Qualquer irmão que comece a brilhar ao lado desta criatura rasteira é considerado por ela inimigo. A luz e o progresso do seu semelhante o incomoda, fere o seu ego vaidoso. Por este motivo tenta obstaculizar o trabalho dos que querem atuar para o bem da loja; por isso recusa-se a transmitir conhecimentos maçônicos (quando os possui) aos Aprendizes e Companheiros, sobretudo aos de nível intelectual elevado, ou os ministra em doses pífias, para que futuramente não sejam tomados como exemplos e ofusquem ainda mais a sua mediocridade. Um maçom exemplar, íntegro, que cumpre rigorosamente os compromissos que assumiu quando ingressou em nossa instituição, não raro converte-se em alvo de suas setas, pois seus olhos míopes não conseguem ver honestidade em ninguém; sua mente podre o interpreta como potencial “concorrente”, que nutre interesses recônditos semelhantes aos seus.

O maçom arrogante mal conhece o significado de nossas belas e simples alegorias. Se as conhece, as despreza. Sua mente acha-se preocupada unicamente com o sucesso de suas empreitadas, em encontrar maneiras de estar permanentemente ao lado das pessoas cujos postos ambiciona. Fama e poder são os seus dois únicos objetivos, tanto na vida maçônica, como na profana. As palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que compõem a Trilogia Maçônica, não fazem parte do seu vocabulário, e com frequência é visto pisoteando os valores que elas encerram. A história, a filosofia e os objetivos da nossa Veneranda Instituição não lhe despertam o menor interesse, pois é frio, calculista, e não tem sensibilidade nem conhecimento para compreendê-los e assimilá-los. Ele é diametralmente oposto ao que deve ser o maçom exemplar, em todos os pormenores. É a antítese de tudo o que a Maçonaria apregoa e deseja de seus membros: uma criatura vil e rasteira que semeia a discórdia, afugenta bons irmãos, e termina por destruir ou fragmentar a loja (ou lojas), resultado às vezes de anos de trabalho árduo, caso ela teime em não se colocar sob a sua batuta ou se mostre contrária às suas aspirações egoístas.

A insolência desse tipo de maçom – e também o asco que destila–, vai crescendo conforme ele vai “subindo” nos altos graus (ou graus filosóficos), lixo maçônico fabricado por impostores no passado unicamente para explorar a estupidez e a vaidade de homens como ele. Sentindo-se importante por ter sido recebido em determinado grau, com a pompa digna de um rei, ele passa a considerar-se superior aos irmãos de graus “inferiores”, em particular aos Aprendizes e Companheiros, ignorando o que reza o segundo landmark, que estabelece a divisão da Maçonaria Simbólica em apenas três graus. Mas reservar um tempo para dedicar-se à sua loja, um momento para confraternizar com irmãos íntegros e honestos, ler algo de útil que possa servir de instrução a si e aos demais, essas são as suas últimas preocupações. O seu tempo disponível ele o reserva inteiramente às festinhas fúteis, nas quais pode ser notado e lisonjeado, onde pode ajuntar-se a outros maçons falsos e vulgares, prontos para lhes enterrar um punhal nas costas na primeira oportunidade que surgir. Perceba o leitor com que velocidade esse “irmão” deveras atarefado arruma tempo quando é chamado para arengar em um tablado representando a Maçonaria! Note a pontualidade com que chega à passarela onde vai desfilar e ser fotografado com os seus paramentos. Observe como ele fica cheio de si quando é agraciado com uma rodela de lata qualquer ou vê o seu lindo rosto estampado nas páginas de alguma revista maçônica! Perceba como se curva aos pés dos que tem mais prestígio e poder do que ele! Note como ele os bajula!

Este prevaricador vagabundo não trabalha e não deixa os outros trabalhar para não ter de arregaçar as mangas também. Quando se mete a ministrar instruções aos Aprendizes e Companheiros ele o faz de modo precário, sem estar familiarizado com elas. Raramente sabe responder questões que os irmãos lhe dirigem. Tergiversa sempre com a mesma resposta: É preciso pesquisar! Ele não faz nada porque não sabe fazer nada, não quer aprender nada, e no íntimo não gosta da Maçonaria e não ama seus irmãos! Nossas reuniões são para ele um fardo. Nas vezes que comparece em loja, exige ser ouvido e jamais dá atenção ao que falam os demais, obrando para que a sua palavra sempre prevaleça nas decisões a serem tomadas. Quando o seu nome não consta na Ordem do Dia – o que significa que não terá a oportunidade de exibir a sua hipocrisia ou arengar as suas imposturas–, retira-se antes da reunião terminar ou, quando permanece, o faz com o olhar fixo no relógio.

Campeão em faltas e em delitos, quando este falso maçom comparece à loja ele o faz para dar palpites indevidos, censurar tudo e todos, propor projetos mirabolantes e soluções inconsistentes com os problemas que surgem em nossas relações. Jamais faz uso de críticas sadias e construtivas, aquelas que apontam erros e sugerem soluções para os mesmos.

(c) Comportamento na Sociedade

Passemos agora à exposição do comportamento deste detestável impostor na sociedade, outra praia onde adora se exibir, embora poucos o notem.

Ele circula pelas ruas do bairro onde vive de nariz empinado, cheio de empáfia, tentando vender a todos, sobretudo aos mais humildes, a falsa imagem de alguém assaz importante. Ostentando correntes, anéis, gravatas, broches e outros adereços maçônicos – alguns com peso suficiente para curvar o tórax–, tão logo se acerca de uma roda de amigos, ou melhor, de gente com paciência para aturá-lo, ele passa a ensejar conversas maçônicas desnecessárias, fazer alarde de sua condição de maçom e de ser membro de uma poderosa “gangue”, com o único propósito de colocar-se acima deles. Quando, porém, um profano lhe dirige algumas perguntas a respeito de nossa instituição, movido por uma sadia e natural curiosidade, ele responde geralmente o que não sabe, fitando-o de cima para baixo, com desprezo, como se estivesse encastelado sobre um pedestal de ouro.

Como o caracol, este tipo de maçom costuma deixar um rastro visível e brilhante por onde trafega, tornando muito fácil a identificação sua e do seu paradeiro, que é o que ele efetivamente deseja, embora afirme o contrário. Mas, para a sua infelicidade, pouca gente dá importância aos seus recados vaidosos. O automóvel, o lar e o local onde trabalha correspondem ao exoesqueleto deste animal, ao passo que os adereços e os objetos maçônicos que ele usa e espalha por todos os lados à gosma que libera. Impulsos provenientes de regiões recônditas do cérebro onde se alojam o seu complexo de inferioridade e a sua baixa autoestima dizem a ele onde derramá-la.

Do mesmo modo que prostitui nossa instituição, transformando-a em templo da vaidade, ele corrompe também a natureza de muitos objetos inanimados, desvirtuando os propósitos para os quais foram concebidos. Os vidros do automóvel não servem para proteger os passageiros do vento e da chuva, mas para ostentar adesivos maçônicos escandalosos que avisam os transeuntes e os motoristas dos carros que estão na retaguarda que “alguém muito importante” maneja o volante. As paredes da sua casa não servem como divisórias, mas de outdoors para a colagem de diplomas maçônicos que levam o seu nome. O isqueiro ele usa para tentar acender um cigarro que talvez nem fume ou sabendo que ele não funciona mais (o importante é as pessoas notarem o compasso e o esquadro colados nele!). A caneta com compasso encravado na tampa ele usa para mostrar que é maçom àquele que está perto do papel no qual finge estar escrevendo alguma coisa. O relógio da sala não serve para mostrar a hora certa, mas para dizer aos visitantes que o seu dono é maçom. As estantes da sala não servem para acomodar bons livros, mas para armazenar troféus, medalhas, placas comemorativas, mimos e tudo o mais que avise que há um maçom por ali. O mesmo vale para pratos, talheres, lenços, gravatas, bonés, bolsas, bonecos, malas, bengalas e, pasmem, até revólveres e espingardas! (ver fotos) Enfim, qualquer objeto que possa lhe servir de propaganda ele o corrompe.

d) Prejuízos

O Maçom arrogante sabe muito bem que é um desqualificado moral, que carece das virtudes necessárias para dirigir homens de caráter, mas mesmo assim quer assumir o cargo de Venerável e nele perpetuar-se por tempo indeterminado, se possível. Insolente, julga-se o único com aptidão para empunhar o malhete, menoscabando a capacidade dos demais irmãos. Sempre que pode procura manobrar as eleições para que os cargos em loja sejam preenchidos por integrantes de sua medíocre camarilha, que, uma vez empossada, vai aprovar seus atos malsãos e alimentar a sua vaidade. Dessa maneira ele trava as rodas da loja, impedindo-a de progredir, de desfraldar as suas velas.

Nosso personagem costuma mais faltar do que comparecer às reuniões, como já foi dito. Quando o faz, é quase sempre para tentar colocar-se em destaque, humilhar alguém, violar regulamentos, e fazer prevalecer os seus caprichos pessoais. É claro que ele não age só, pois se assim fosse a sua eliminação seria fácil e sumária. Ele conta com o respaldo de pequenos grupelhos de gente sórdida e submissa, que aprova suas ações, que corrompe e deixa-se corromper. Às vezes conta até com a cumplicidade dissimulada de alguns delegados, que, por motivos políticos ou de ordem pessoal, fazem vista grossa aos seus insidiosos manejos e prevaricam no que constitui uma das mais importantes missões dentro da Maçonaria.

Terminado o período de sua administração como Venerável, este impostor passa a meter o nariz em assuntos que não mais lhe dizem respeito, usurpando funções de outros irmãos da loja, incluindo as do seu sucessor. Quer mandar mais do que os outros, quer ser o dono da loja; quer admitir candidatos sem escrutínio para engrossar a sua camarilha; quer manobrar a todos e violar leis; expõe os Aprendizes e Companheiros a constantes querelas com outros Mestres, quase sempre motivadas pela vaidade e pela sede de poder.

Especialista em apontar erros nos outros, o maçom arrogante jamais admite um seu. Quando, porém, as circunstâncias tornam isso impossível, ele o faz rangendo os dentes e disparando setas em todas as direções, muitas vezes ferindo os poucos irmãos que o querem bem. Além de tudo é um indivíduo vingativo. Caso sofra uma contrariedade qualquer, ou veja descartada uma irracional conjectura sua, ele passa a fomentar intrigas e provocar cismas na loja. Aquele que for investigar as causas que levaram uma determinada oficina a abater colunas notará em seus escombros a marca indelével da sua mão, que muitas vezes deixa impressa com orgulho!

Elemento altamente desestabilizador e perigoso, o maçom vaidoso é o principal responsável pelo enfraquecimento das colunas de uma loja, pela fuga em massa de bons irmãos, e pela decadência da Maçonaria de uma forma geral. Quanto maior for o seu número agindo no corpo da Maçonaria, mais fraca, enferma e suscetível à contração de outros males ela se torna, mais exposta a escândalos e prejuízos ela fica. Sua eliminação é, portanto, condição si ne qua nom para a conservação da saúde da nossa Sublime Instituição.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Os Cataros II

Paulo Preti .·.

Nos meados do século XII, iniciou-se na Itália um movimento religioso denominado Catarismo (Albigenses), a doutrina dos cátaros era nitidamente diferente da Igreja Católica, numa reação à Igreja Católica e suas práticas, como a venda de indulgências, e a soberba vida dos padres e bispos da época.
 
Eles eram extremamente radicais e dualistas como os maniqueístas, acreditavam que a salvação vinha em seguir o exemplo da vida de Jesus, negavam que o mundo físico imperfeito pudesse ser obra de Deus, acreditavam ser o mundo criação do príncipe das trevas, rejeitavam a versão bíblica da criação do mundo e todo o antigo testamento, acreditavam na reencarnação, não aceitavam a cruz, a confissão e todos os ornamentos religiosos.
 
Com medo da repressão da Igreja, os Cataros mantiveram sua fé em segredo, porém em pouco tempo esta seita atraiu muitos seguidores. Cresceram bastante no sul da França e se estenderam a região do Flandres e da Catalunha, funcionaram abertamente com a proteção dos poderosos senhores feudais, capazes de desafiar até mesmo o Papa.
 
O chamado “Pays Cathare” (País Cátaro) se extendia pela zona chamada Occitania , atual Languedoc, em uma extensão fronteiriça com Toulouse até o oeste, nos Pirineus até o sul, e no Mediterráneo até o leste. Em definitivo, uma área política que, durante o século XIII, limitava-se com a Coroa de Aragão, França e condados independentes como o de Foix e Toulouse.
 
O mais curioso nesta cultura é a cautela por construir seus castelos e abadias em cima de precipícios e inacessíveis colinas, as mais elevadas possíveis, razão pela qual, na atualidade, os fazem muito atrativos por suas inabarcáveis vistas sobre o horizonte e pela observação de paisagens impressionantes.
 
Realizavam cerimônias de iniciação, suas cerimônias eram muito simples, consistia basicamente em um sermão breve, uma benção e uma oração ao Senhor, essa simplicidade influenciou posteriormente uma gama de segmentos protestantes. Possuíam duas classes ou graus.
 
Os leigos eram conhecidos como crentes, e a esses não eram exigidos seguir suas regras de abstinência reservada aos perfecti, ou bonhomes eleitos, que formavam a mais alta hierarquia do catarismo. Para ser um perfecti tinham que tanto homem quanto mulher, passar por um período de provas nunca inferior a 2 anos, e durante esse tempo, faziam a renúncia de todos os bens terrenos, abstinham de carne e vinho, não poderiam Ter contato com o sexo oposto, e nem dormirem nús. Depois deste período o candidato recebia sua iniciação conhecida com o nome de Consolamentum que era realizada em público. Essa cerimônia parecia com o batismo e continha também uma confirmação e uma ordenação.
 
Na idade média, marcada pela violência e pela sede de poder da igreja Católica Romana, o Catarismo chocou-se frontalmente com o dogmatismo da Igreja. A religião catara propunha, como aspectos básicos, a reencarnação do espírito, a concepção da terra como materialização do Mal, por encher a alma de desejos e prende-la às coisas efêmeras do mundo, e do céu como a do Bem, numa concepção dualista do mundo. Mas o principal ponto de discordância, e talvez o mais original, tenha sido a de que os cataros não admitiam qualquer tipo de intermediação entre o homem e Deus.
 
Esta crença chocou-se frontalmente com a religião hegemônica em toda Europa, a base da estrutura social, cultural econômica e religiosa do Feudalismo. Durante muito tempo os cataros foram relativamente poucos, com o tempo, começou a estender-se pela Occitania, até chegar a um ponto cujo resultado era demasiado incômodo tanto para Roma como para a França.
 
Um bastião religioso no centro da Europa não fazia mais que estorvar a cristalização do cristianismo de Roma no continente, e um território não católico era um pretexto ideal da Coroa da França para anexar as terras do Languedoc e expandir-se.
 
Por esta razão, e também pela força que assumiu o catarismo, a Igreja Católica fez tudo para combater sua expansão, classificando o movimento como heresia, em 1209, o infalível Papa Inocêncio II estimulou os fiéis a ir para as cruzadas contra os hereges, com cerca de 20.000 cavaleiros os cruzados massacraram o povo, muitos morreram torturados ou na fogueira, sendo esta a primeira cruzada feita contra cristãos e em território franco. O presente que o santo Papa prometeu em compensação para aqueles que participaram da campanha era a partilha e doação das terras aos barões que as conquistassem, ou seja, converter-se-iam em senhores feudais..
 
A Cruzada Albigesa (devido à cidade de Albi), comandadada por Simon de Montfort (1209 – 1224) e pelo Rei Luis VIII (1226-1229) durou 40 anos. A perseguição arrasou a região dos Cátaros, a resistência teve que enfrentar-se com duas forças enormes, o poder militar do Rei de França e o poder espiritual da Igreja Católica.
 
Na primeira fase da cruzada, foi destruída a cidades de Béziers (1209), onde 60.000 pessoas morreram. Destruída a cidade, os cruzados marcham para Carcassone, onde Simon de Montfort se apossa dos condados de Trencavel (Carcassone, Béziers), conquistando também Alzonne, Franjeaux, Castres, Mirepoix, Pamiera e Albi.
 
Em 1216, ouve outra investida contra os cataros. Simon morre em 1218, acabando também a cruzada, sem, entretanto, extinguir a heresia. Amaury, filho de Montfort, oferece as terras conquistadas por seu pai a Felipe Augusto, rei da França que as recusa, seu filho Luís VIII acabará aceitando as terras.
 
Em 1224 Luís VIII liderando os barões do norte, empreendeu uma nova cruzada que durou cerca de três anos alcançando muitas conquistas até chegar a Avignon, onde termina o cerco contra os hereges. O resultado dessa disputa foi um acordo imposto pelo rei da França aos Senhores feudais das áreas conquistadas e consequentemente os domínios disputados passariam para a coroa da França (Tratado de Meaux, 1229).
 
Militarmente, apesar de terem o apóio de pequenos condados, os cataros não conseguiram resistir ao genocídio das cruzadas, mas elas não conseguiram erradicar o Catarismo de forma definitiva. Foi a Inquisição, a instituição que realmente conseguiu exterminar definitivamente o catarismo.
 
No chamado País Cátaro viviam outras pessoas cuja religião era o catolicismo, Perguntado sobre como distinguir entre os hereges e os outros, o legado papal (inquisidor) respondeu:
 
“Matem-nos a todos. Deus se encarregará dos seus”.

terça-feira, 22 de novembro de 2016


Os Cataros – Rebeldes da Religião Institucional

Carlos Antonio Fragoso Guimarães
 
 
“On entend par fanatisme, une folie religieuse, sombre et cruelle; c’est une maladie qui se gagne comme la petite vérole.”
Voltaire
 
 
 
Monumento em forma de megalito às inocentes vítimas cátaras na cidade de Minerve, França.
 
Durante a imersão da Europa, pelo colapso cultural da Civilização Greco-Romana, na estagnação intelectual e sedimentação do poder feudal na Idade Média, apesar dos rígidos padrões de controle do pensamento e da reflexão pela estrutura eclesiástica, surgiram vozes que se levantavam contra o abuso e a arrogância do poder da Religião de Roma, vestígio do intento de Constantino de transformá-la no braço espiritual do Império. Ainda haviam pontos isolados de luzes e de pensamento, que, como centelhas dispersas, vez por outra se juntavam. Estes movimentos conheciam boa parte da tradição espiritual do ocidente, ecos do pensamento de Heráclito, Pitágoras e Platão, e procuravam recuperar a pureza do cristianismo primitivo, sem as pesadas roupagens da ritualística e dos dogmas romanos. Entre as mais famosas dessas correntes rebeldes, predecessoras da Reforma Protestante e do movimento de liberdade de consciência, base da separação moderna entre Igreja e Estado, temos o movimento da Igreja Cátara, que representou de fato – por sua proposta quase socialista, e da responsabilidade individual – uma séria ameaça à hegemonia da Igreja Católica. Outro movimento, porém de alcance menor e menos “subversivo”, mas não menos potencialmente renovador, parece ter sido o da Ordem dos Templários, contemporâneo dos Cátaros, de início, apoiada pela própria Igreja de Roma.
 
Antes de nos voltarmos a estas duas, temos de precisar o que foi e como se fez o poderio da Igreja Romana na Europa.
 
A Ascensão da Igreja Católica Romana
 
O movimento cristão – de início, um movimento emergido no seio do judaísmo na palestina, e logo espalhado por outras regiões do Império, Ásia Menor e Norte da África – deitou raízes em vários quadrantes, de onde surgiram vários grupos com suas próprias tradições interpretativas da mensagem de Jesus. As comunidades da Ásia Menor, da Grécia, de Alexandria e de Roma formavam Igrejas independentes, ainda que mantivessem contato umas com as outras. Porém, devido à sua localização, a comunidade de Roma tinha um certo destaque, que seria ainda mais reforçado quando Constantino reconheceu e oficializou o Cristianismo, tendo em mente, entre outras, a utilizá-lo como cimento espiritual do Império. Logo após, porém, Constantino dividiu o Império em duas partes, a do Ocidente, com capital e Roma, e a do Oriente, em Constantinopla. A Igreja igualmente teria duas cabeças principais, uma em Roma, tendo por língua oficial o Latim, e outra em Constantinopla, tendo por língua oficial a mesma que já vinha sendo a língua geral desde o início do Império, o Grego (que também foi a língua em que foram escritos e traduzidos os primeiros livros cristãos). Roma teria o Bispo, chamado posteriormente de Papa, e Constantinopla, de Patriarca. O que, de início, começou como uma religião dos oprimidos do império, indo dos povos colonizados, passando pelos escravos e grande maioria de plebeus, constituía, apesar da perseguição oficial do Império, uma crescente comunidade no sentido lato do termo, um comunismo autêntico, gerado pela compreensão da dor mútua e da partilha de ideais de igualdade e fraternidade. Porém, os dominados passaram a ser muito mais numerosos que os dominantes e, com a entrada destes, por interesses políticos diante da transformação do Império, os dominadores acabaram tornando-se novamente preponderantes e passaram a exigir que o Cristianismo abrigasse práticas e detalhes dos antigos cultos pagãos. Daí os sacerdotes católicos com seus altares, missais, estolas, mitras, etc. O fator político-econômico passou a moldar o Cristianismo oficializado, tendo seus aspectos originais sido deturpados pela simbiose Cristianismo de Constantino/religião pagã.
 
Ao longo do século V, porém, a Igreja Romana viveu sérias ameaças à sua sobrevivência e, por volta de 490, a situação tornou-se desesperadoramente precária, isto porque, com a mudança da maior parte das pessoas para Constantinopla, a ex-grande cidade ficava à mercê das invasões bárbaras do norte da Europa. E a igreja de Roma estava ainda muito longe de ter a hegemonia do poder espiritual na cristandade dentro e fora do Império, processo inevitavelmente ligado à implosão ocidental deste – agravada pelo fato de Constantino haver transferido a corte de Roma para Constantinopla. Pouco antes da transferência, entre 384 e 399, com o apóio oficial, o bispo de Roma já era denominado papa, mas isto não significava muito, pois sua condição oficial, em termos de cristandade, era bem diferente do que passou a ser alguns séculos mais tarde quando passou a desempenhar o papel de líder e cabeça suprema do cristianismo ocidental – Os gregos e outras comunidades do leste europeu e da África e Ásia jamais aceitaram esta condição, no que resultou no cisma entre as Igrejas Católica Romana e Católica Ortodoxa no século XI. Na verdade, até o século V o papa era uma figura que representava apenas uma função centralizadora de interesses velados do colégio eclesiástico romano, que já possuía e investia pesado em uma supremacia teológico-política. Mas esta era apenas uma escola dentre muitas outras linhas do cristianismo, todas lutando por manterem-se vivas e adotarem livremente seus pontos de vista a respeito da mensagem do Cristo. A Igreja de Roma, sob pressão de Constantino, que a rigor, continuava sendo um crente dos cultos a Mitra e do Dol Invictus, cuja festa máxima era comemorada no solstício de inverno, no dia 25 de dezembro, lutava desesperadamente para sobressair-se dentre as demais, combatendo uma grande variedade de pontos-de-vista teológicos diferentes dos seus. A pesar de encravada no coração do Império, de início a Igreja de Roma não possuía moralmente maior autoridade que outras, como, por exemplo, a Igreja Grega ou a Igreja Celta. E sua autoridade não era maior que a de outras correntes cristãs ainda mais distantes, do leste e o oeste de Roma.
 
Se a Igreja de Roma quisesse sobreviver à derrocada do Império (na verdade, tendo uma tentativa de manter alguma coisa deste) que se esfacelava diante das invasões bárbaras e, ainda, criar uma hegemonia sobre todo o pensamento cristão, exercendo uma grande autoridade e poder, ela necessitaria do apóio de um reino forte e de uma poderosa figura secular que pudesse representá-la resgatando um pouco da mística do Império dos Césares, impondo grande reverência e respeito. Daí que, para que o mundo cristão evoluísse segundo a doutrina romana, a Igreja Católica deveria ser disseminada, implementada e imposta por meio da força secular – uma força suficientemente poderosa para enfrentar e finalmente extirpar o desafio das outras escolas cristãs.Por volta de 486, um rei bárbaro, o rei franco-merovíngeo Clóvis, tinha expandido extraordinariamente a extensão de seus domínios, anexando reinos e principados adjacentes e vencendo várias tribos rivais. Cidades importantes passaram a fazer parte de seu reino, como Troyes, e Amiens, nas regiões da Gália. Em pouco mais de 10 anos de conquistas, Clóvis era o chefe mais poderoso da Europa Ocidental. E foi em Clóvis que a Igreja Católica tinha achado um campeão para seus interesses. E foi através de Clóvis que a Igreja Católica finalmente iria conseguir estabelecer uma supremacia que não foi seriamente questionada – devido à “Santa” Inquisição – na Europa por mais de mil anos.
 
O pacto estabelecido entre Clóvis e a Igreja assegurou um triunfo político para ambas as partes. Ao primeiro assegurava legitimidade numa época em que os ideais cristãos suplantavam os pagãos, e à segunda era assegurada sua sobrevivência, consolidando-a como igual, em condições, à Igreja Ortodoxa Grega, de Constantinopla (muito influente por conta do Império Romano do Oriente, vivo e palpitante até o século XV). Isto faria a Igreja de Roma estabelecer-se como a suprema autoridade espiritual – com base na força militar do reino franco-merovíngeo – na Europa Ocidental.
 
A conversão e o batismo de Clóvis marcariam o nascimento de um novo Império Romano, pretensamente cristão, baseado na Igreja de Roma e administrado, ao nível secular, pelo reino franco e pela linhagem merovíngea – posteriormente traída e derrubada pela própria Igreja. Com poderosa eficiência, a fé católica foi imposta pela espada, e os traços das outras igrejas foram, a partir de então, afrontados pela força e irremediavelmente apagados (em parte) da história; com a sanção da Igreja, o reino franco expandiu-se para o leste, englobando a maior parte da França, Alemanha e outros países modernos.
 
Dois séculos mais tarde, a Igreja já era suficientemente poderosa para achar que a linhagem merovíngea de Clóvis começava a ser um empecilho. Dagobert II, descendente de Clóvis, foi um rei forte que conseguiu domar a anarquia que, antes dele, começava a dominar o reino franco, restabelecendo a ordem, e reconhecendo os interesses políticos e, portanto, cada vez mais menos espirituais da Igreja. Tanto assim que ele parece ter abortado deliberadamente as tentativas desta de se expandir ainda mais. E, em virtude de se ter casado com uma princesa visigoda (cujo povo, apesar de declarar fidelidade a Roma, tinham um imensa simpatia por idéias consideradas “heréticas”, ou seja, por interpretações da mensagem de Cristo não aceitas pela ortodoxia latina) havia adquirido um imenso território, onde hoje é o Languedoc, região Sul da atual França e base dos futuros Cátaros. Dagobert parece ter adquirido algumas das tendências arianas que questionavam a autoridade da Igreja. Com tudo isso, não é de se estranhar que ele tenha obtido inúmeros inimigos políticos, entre eles seu chanceler, Pepino, o Gordo, que, alinhando-se com outros inimigos e com a Igreja, planejaram o assassinato de Dagobert e o extermínio da linhagem merovíngea. Cabe salientar que, dois séculos após sua morte, Dagobert II foi canonizado, como uma forma de encobrir a traição visível da Igreja ao pacto que fizera com Clóvis.
 
Os Cátaros
 
Nas palavras da Igreja Romana, no século XII a região do Languedoc estava “infectada” pela heresia de um movimento considerado por ela como nocivo, chamado de catarismo pela Igreja de “a lepra louca do sul”(não suportava a Santa Madre Igreja qualquer concorrência ao seu domínio espiritual e político nem tolerava qualquer interpretação espiritual fora das instruções romanas). Embora fosse sabido por todos, em especial nas regiões adjacentes ao Langedoc, que os adeptos dessa heresia fossem essencialmente pacíficos e muito estimados pela população local, tendo muitos nobres entre eles. Tal movimente se constituía, para os doutores do Vaticano, uma grave ameaça à autoridade romana, a mais grave que Roma encontraria nos três séculos seguintes, até a chegada de Martinho Lutero. Por volta de 1200, a popularidade do movimento era tal que havia realmente a possibilidade real de que o catolicismo romano fosse substituído, como forma predominante de cristianismo, no Languedoc, pelo catarismo que estava se irradiando para outras partes da Europa.
 
E, 1165 a Igreja havia condenado formalmente o catarismo na cidade de Albi, no Languedoc. Daí por que os conhecemos também por albigenses. Muitas de nossas informações sobre eles provêm de fontes eclesiásticas católicas, e criar um quadro correto dos cátaros a partir destes documentos é como compreender a resistência estudantil brasileira, no tempo da Ditadura, a partir dos relatórios dos militares e do DOI-CODI, ou compreender a Resistência Francesa, na Segunda Guerra Mundial, a partir dos relatórios da Gestapo. Em geral, os cátaros acreditavam na doutrina da reencarnação e reconheciam Deus não como um princípio com traços antropomórficos puramente masculino, mas como tendo, igualmente, princípios femininos. Na verdade, Deus estava bem acima das limitações do entendimento humano (o que nos remete, em parte, à doutrina dos Druidas e Pitágoras e Platão). Tanto que os pregadores e professores das congregações cátaras, conhecidos como parfaits, eram de ambos os sexos. Sendo o ser humano criação e filiação da divindade, as polaridades masculinas e femininas não seriam antagônicas, mas complementares, e, portanto, igualmente importantes.
 
Seu principal texto teológico era o Evangelho de João e um outro texto (talvez o mesmo Evangelho de João) que eles chamava de o Evangelho do Amor. Ao mesmo tempo, rejeitavam veementemente a autoridade da Igreja Católica e negavam a validade das hierarquias clericais, ou de intercessores oficiais entre Deus e o homem. Diziam eles que não encontravam em parte alguma dos Evangelhos justificação para a estrutura eclesial romana. No centro desta oposição residia um principio extremamente importante: a fé só é real se vivida e sentida como uma experiência mística direta, sem passar por uma segunda mão. Além do mais, a única fé real era que produzisse obras, e os cátaros ficaram famosos e adquiriram imensa popularidade pela ação social que promoveram no Languedoc, dando tratamento gratuito de saúde e educação a todos, e sendo tolerantes com membros de outros credos, inclusive judeus, que viviam em paz na região. Em tal ênfase na experiência mística direta e aplicada em uma ética socialista vemos claramente a influência do neoplatonismo, em especial Plotino no pensamento captarão, mas talvez seja mais correto ainda dizer que aqui provavelmente a influência mais direta veio do Cristianismo puro. Hoje diríamos que os cátaros buscavam vivenciar uma experiência de comunhão com Deus, ou uma experiência de transcendência, num domínio Transpessoal, que, antes, chamávamos de místicas.
 
Esta experiência chamava-se gnosis, que em grego significa “conhecimento”, e era privilegiada sobre todas as outras formas de credos e dogmas pelos cátaros. A ênfase na experiência direta com o transcendente, o transpessoal, tornava supérfluos padres, bispos e quaisquer outras autoridades eclesiásticas.
 
Assim, a Igreja, sentindo-se realmente ameaçada, tomou a iniciativa de formar uma Cruzada (a primeira dentro da Europa e contra irmãos cristãos ocidentais, já que cristãos orientais foram trucidados, com as bênçãos de Roma, junto com árabes e judeus nas estúpidas Cruzadas clássicas à Terra Santa) com o fim de extirpar de vez com a “heresia” cátara: a Cruzada Albigense.
 
Em 1209, um exército de mais de 30 mil homens, desceu do norte da Europa em direção ao Languedoc, no sul da França, para executarem uma das maiores carnificinas da história humana. Na guerra que se seguiu, a população tomou a espada e defendeu com ênfase os cátaros contra o despotismo católico.
 
Diz-nos o professor Hermínio C. Miranda que:
 
“Na verdade, a calamidade que se abatera sobre a região atingia em cheio também os católicos (locais). E não apenas aqueles que davam certa cobertura aos ‘heréticos’ e os respeitavam e até tinham por eles claras simpatias. Em repetidas oportunidades, a população lutou (e morreu) unida, contra o inimigo comum – independentes de preferências religiosas. Aliás, como temos visto, o povo convivia muito bem com os cátaros, tinha entre eles amigos e parentes e deles recebia atenção, ensinamentos, assistência social, religiosa e tratamento de saúde, fossem ou não croyants” (MIRANDA, 2002, p 240).
 
Igualmente interessante é a observação do escritor H. G. Wells no volume II de História da Civilização, à página 380:
 
“E é assim que vemos o espetáculo de Inocência III a pregar uma cruzada contra esses desafortunados sectários e a permitir o alistamento de todos os desclassificados, vagabundos e desordeiros da época, na obra de levar o fogo e a espada, a violência e o rapto e todos os ultrajes concebíveis aos mais pacíficos súditos do rei da França. As descrições das crueldades e abominações dessa cruzada são de leitura bem mais terrível do que qualquer narração dos martírios dos cristãos pelos pagãos e possuem, além disso, o acrescido horror que lhes vem de as sabermos indiscutivelmente verdadeiras”.
 
A região do Languedoc, porém, era independente da França, tendo mais ligações com a Espanha. A cruzada, anexando toda a região à França, além das barbaridades cruéis contra pessoas de bem, revoltou ao extremo toda a população local, incluindo os católicos, que lutaram ao lado e a favor dos cátaros. Assim, quando finalmente o temido e odiado líder militar da cruzada, Simon de Montfort, foi finalmente abatido (conta-se, quando uma pedra de catapulta lançada por uma guarnição feminina da resistência lhe esmagou a cabeça), toda a cidade de Tolosa (atual Toulouse) explodiu de alegria. Uma canção popular da época, em língua Occitana, ou “Oc”, muito parecida com o português – daí Languedoc, ou língua de oc – assim comemorava:
 
Montfort
Es mort
Es mort
Es mort!
Viva Tolosa
Ciotat Gloriosa
Et Poderosa!
Tornan lo paratge et l’onor!
Monfort
Es mort!
Es mort!
Es mort!
 
Todo o território da região ao redor de Toulouse e Carcassonne foi pilhado e as cidades e vilarejos arrasados sem dó nem piedade. Fogueiras imensas eram acessas e nelas, homens, mulheres e jovens eram assados em uma selvageria e sede de morte sem igual. Em algumas cidades, mais de 400 pessoas morreram desta forma “cristã” em uma única noite. Esta febre fanática constituía o fervor cruzado, pois foi prometido pelo Papa que todos os que participassem da “Santa Cruzada” por 40 dias e demonstrassem eficácia contra a heresia teriam não só seus pecados perdoados, como ainda obteriam benefícios materiais legítimos pelo saque. Só na cidade de Beziers, por exemplo, 15 mil homens mulheres e crianças foram exterminados, muitos até mesmo dentro de igrejas. Quando um oficial perguntou a um representante espiritual do papa Inocêncio III, o cínico Arnaud Amaury, arcebispo de Narbonne, como ele iria reconhecer um herege dos crentes verdadeiros, a resposta foi: “Mate-os todos. Deus reconhecerá os seus”. Este ainda escreveu orgulhoso a Inocêncio III que “nem idade, nem sexo, nem posição foram poupados”…. Depois os hereges maléficos eram os cátaros….
 
Ainda assim, os inocentes cátaros e todos os que conviviam na região sofreram abusos indescritíveis. Mesmo assim, “como nos primeiros tempos do cristianismo, os cátaros continuavam a pregar suas idéias pelos campos, nos bosques, em esconderijos e em casas de um ou outro mais corajoso simpatizante e até nas cavernas, numa trágica simetria com as catacumbas frequentadas pelos cristãos primitivos. Não se entregavam, não renegavam suas idéias, nem mesmo quando se lhes oferecia a escolha final entre a vida e a fogueira, ou seja, entre a fé e a morte. A opção de todos – com ínfimas exceções, uma unanimidade – era pelo sacrifício supremo, sem um gemido, temor ou angústia” (MIRANDA, 2002, p. 252).
 
A guerra cruel durou cerca de quarenta anos. Quando terminou, toda a Europa caiu numa espécie de modorra e barbárie, e a Igreja se impôs, pelo espetáculo desumano que cometera, como a única legítima representante de Deus, exercendo poder até mesmo em assuntos civis e de estado, e para que se evitasse um ressurgimento da novas ameaças ao domínio da Igreja, foi criado uma das mais cruéis, vergonhosas e desumanas instituições da História: a “Santa” Inquisição, de triste memória, e que deu nomes de porte de um Torquemada. Oficialmente extinta, a Inquisição, porém, continua com outro nome: Congregação para a Defesa da Fé, tendo feito, no século XX, novas vítimas, entre elas Pierre Teilhard de Chardin e, mais recentemente, Leonardo Boff. O seu atual mentor se consolida na figura do Cardeal Joseph Ratzinger. Ainda não queimando mais corpos, ainda pode queimar obras e proibir idéias nas universidades católicas e nas editoras mantidas pela Igreja, usando ainda veículos impressos e outras mídias para anematizar que pensar diferente…
 
Tendo sedimentado seu total controle na Europa ocidental, a Igreja dominante constituía-se em uma instituição poderosa econômica, política e militarmente. Equiparava-se a um gigantesco feudo, e sua organização impunha uma violenta censura e controle espiritual e intelectual (ou crer ou morrer), submissão total 0à autoridade eclesiástica, etc. Em brutal e explícita oposição ao socialismo humanista dos primeiros cristãos, a Igreja de Roma punha-se com toda a violência que dispunha contra todos os que questionassem a legitimidade cristã de tais atitudes.
 
Um dos movimentos que mais tinha certas ligações com os cátaros era a Ordem dos Templários, criado na Terra Santa, e que representavam uma associação militar cristã, oficialmente protetora das peregrinações religiosas e responsável pela guarda e câmbio de bens, mas igualmente aberta ao estudo e discussão de assuntos místicos. Mas este é uma outra história, e aconselho o leitor a ler mais sobre ambas as ordens.
 
 
Bibliografia:
 
 
Michael Baignet, Richard Leigh e Henry Lincoln, cujo livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada, Editora Nova Fronteira, 1997, serviu de inspiração e motivação para esta página
Hermínio C. Miranda, em seu excelente livro “Os Cátaros e a Heresia Católica” faz um fabuloso e cativante resumo de quase tudo o que já foi escrito sobre o catarismo. Editora Lachâtre, 2002.
Graham Simmas, Marylin Hopkins e Tim Wallace-Murphy retomam a temática de O Santo Graal e a Linhagem Sagrada em seu excelente livro “Rex Deus”, aprofundando as motivações políticas da Igreja na perseguição aos cátaros e aos templários.