domingo, 14 de julho de 2013

O Homem e a Liberdade do Homem

 
 
O Homem e a liberdade do homem

Escrito por Juvenal Antunes Pereira

Porque habituados com as regras do encarceramento, mesmo na sociedade livre, e ainda que aprendam a obedecer sem as ameaças do chicote, os escravos permanecem escravos, porque na escravidão eles já estavam acostumados com ela e não se rebelavam contra a restrição em razão do seu arraigado espírito de servidão.

A verdadeira Liberdade, num contexto maior, não é só a liberdade física nem a liberdade política, mas também aquela que constituiu o ideal da Revolução Francesa e se tornou o dístico da Bandeira dos Inconfidentes, cujo movimento buscava ainda a Liberdade de pensamento, para que o Homem pudesse cultivar todas as suas potencialidades positivas de modo que sua personalidade pudesse se alicerçar e se projetar em todas as dimensões. Em países sufocados pelo fanatismo religioso, o destino das pessoas é pior do que a morte.

Enfim, é a que se confunde com um estado de consciência que vai desencadear nos aspectos culturais, sociais, religiosos e espirituais do povo, o seu bem maior depois da vida.

O estudo do tema sobre o Homem e a Liberdade sugere o repensamento do proceder humano, pois a exacerbação hoje em dia, do fanatismo, da tirania, da injustiça, da miséria e da violência, mostra como precisamos de homens cuja mensagem infatigável seja a defesa do direito à justiça e à equidade, do direito ao desenvolvimento e ao bem-estar, do direito à paz. Esta, a sublime missão de quem tem o dever de velar pela paz e harmonia entre os homens!

Nota: Na elaboração deste trabalho buscou-se informações em várias fontes, daí serem de diversos pensadores muitas das ideias apresentadas. A eles nossas homenagens.

Liberdade! O que é a Liberdade? Ela é sentimento comum a todos os homens? Tem a mesma dimensão em todas as culturas? E nas ditaduras, o que ela significa para os oprimidos que nunca a tiveram? Qual seria o seu valor para quem já a teve e a perdeu pelo jugo dos tiranos? A Liberdade é somente do corpo ou é também do espírito? Para que o Homem seja efetivamente livre é preciso que ele esteja liberto das amarras da servidão, seja física, política, religiosa, cultural ou da própria consciência? Ou a Liberdade é algo maior, que leva o Homem que a perdeu a lutar por ela e até a morrer para reconquistá-la?

O homem livre é o que não deve satisfação a ninguém nem está sujeito a restrições da lei, ou é o que não está algemado, nem encarcerado, nem aterrorizado como o transgressor em face do iminente castigo? Ou ainda, é quando não está impedido de fazer aquilo que deseja porque não há lei que o constrange? Será que é livre o homem que não sofre coação, mas vive sem segurança e não consegue emprego para o seu sustento? Afinal, Liberdade é razão, inspiração ou direito, segundo o seu significado em filosofia, arte ou política. O amor a ela pode fazer os homens indomáveis e os povos invencíveis. Falando sobre a Liberdade política, o Presidente George Bush afirmou que o poderio da América está numa ideia vibrante, porém simples: Que o povo é capaz de grandes feitos quando se lhes dá liberdade.

Entre nós, a doutrina que a Escola Superior de Guerra divulga afirma a condição de liberdade plena do homem, grandeza inerente à dimensão de seu espírito. Foi exatamente essa doutrina que impediu o Brasil de incorrer no grande equívoco marxista-leninista, dramático pesadelo do qual recentemente despertou o leste europeu aturdido e envergonhado. E a principal conclusão desse episódio turbulento é que não há força capaz de segurar a ânsia de liberdade individual do ser humano, nem de liberdade coletiva dos povos e nações.

A resposta a essas indagações induz à busca do significado da palavra Liberdade, para então se estabelecer o seu verdadeiro conceito segundo os valores da cultura ocidental, e examinar alguns fenómenos relacionados com a capacidade dos homens de serem livres.

Um deles traz a ideia de que a Liberdade é a soberania do homem sobre si mesmo, podendo agir livremente fazendo o que a lei não veda e a moral e os bons costumes não condenam, de modo a não ultrapassar a linha que divide esses direitos dos direitos de outrem. A cegueira dos radicais e dos fanáticos impede-os de conhecerem essas divisas.

Castro Alves, ao cantar a Liberdade, disse que "A praça é do povo, como o céu é do condor". E a ONU ao se referir à Liberdade na Declaração dos Direitos dos Povos, proclamou que "os povos não são propriedade de ninguém". Assim, a Liberdade tal como é conhecida na América, é o consenso de um povo livre, manifestando-se livremente.

Mas a liberdade não é só a do corpo, bem diferente da do espírito, pois só avaliamos a liberdade do corpo quando a perdemos; e a do espírito, somente quando a conquistamos.

Enfim, a Liberdade parece ser um sentimento que não se sabe de onde veio nem como defini-lo, pois apenas pode ser demonstrado. Nesse plano de ideias, vale a observação de Victor Hugo, de que a Liberdade tem as suas raízes no coração do povo, como as tem a árvore no coração da terra; e como a árvore, estende os seus ramos pelo espaço, desenvolve-se sem cessar e cobre as gerações com a sua sombra benfazeja.

Para alguns, a Liberdade consiste em se fazer apenas o que devemos e não, tudo o que queremos. Ela é como a saúde, que só quando nos falta é que lhe damos o justo valor. Outros acham que as grades de uma prisão constituem a linha divisória entre a liberdade e a servidão, pura e simplesmente, sem qualquer outra conotação. Mas há outros que mesmo sem liberdade aceitam as condições da sociedade em que vivem, pois não mais se incomodam com os guardas, se conformam com as restrições impostas e levam uma segura e até normal existência dentro das normas gerais de seu encarceramento.

Sem dúvida que homens assim não adquirem a liberdade pela simples libertação. Normalmente, fora da "prisão" se tornam desajustados porque perderam o referencial do regulamento prisional a cuja observância já estavam habituados.

Daí, o entendimento de que não se liberta um escravo apenas com uma carta de alforria, porque acostumado a obedecer e a servir, ele agirá durante muitos anos ou talvez por toda a vida, como se ainda fosse escravo. É o caso dos cidadãos que nasceram e viveram sob o jugo dos seus tiranos governantes sem conhecer a Liberdade!

A libertação dos negros é mais retórica do que real, pois a cultura escravista ainda hoje não sabe conviver com liberdade, pois os escravos só conheceram a coerção.

Assim, a Lei Áurea ainda é uma ilusão para a população negra do Brasil, que vive em sua maioria em condições de pobreza igual ou pior à que ostentavam há um século, que continua sem educação, sem teto, sem alimentação, e que fornece 80% ou mais da população penitenciária ou das vítimas da repressão policial.

Aspectos da Liberdade - psicossociais, políticos e económicos:

  • No nível do sentir: liberdade de crença, liberdade de expressão, liberdade individual;
  • no nível do pensar: liberdade de opinião;
  • no nível do agir: livre iniciativa.

A liberdade de pensamento e também a de manifestação da opinião pessoal, é um dos pilares do sistema democrático, visto seu papel insubstituível na formação de opinião pública e na construção de convicções individuais.

Enfim, a liberdade pressupõe a capacidade do agente para praticar a coisa que tem vontade, pelo modo como tem vontade e quando tem a possibilidade disso.

É certo que esta Liberdade se dirige no sentido de não se tolher o homem de fazer o que a sua vontade e a sua consciência liberta determinam, mas o seu conceito não se resolve apenas com a simples negação de restrições externas.

Liberdade que significa ausência de qualquer obediência, qualquer limitação e de qualquer governo, será a anarquia total, o pisoteio do mais forte sobre o mais fraco, o abuso do poderoso sobre o humilde, a vitória da desordem sobre o equilíbrio.

Sobre a Liberdade, disse Clóvis Bevilacqua: "Creio na Liberdade, porque a marcha da civilização, do ponto de vista jurídico-político, se exprime por sucessivas emancipações do indivíduo, das classes, dos povos e da inteligência, demonstrando ser ela altíssimo ideal, pois somos impelidos por uma força imanente nos agrupamentos humanos, consistente na aspiração do melhor que a coletividade obtém estimulando energias psíquicas do indivíduo. Mas a Liberdade há de ser disciplinada pelo Direito para não perturbar a paz social".

Sobre o tema, vários pensadores já disseram que a Liberdade foi sempre o fundamento e a meta de toda a organização política e social da América, pois é a mais nobre característica da civilização americana como o consenso de um povo livre, manifestando-se livremente.

Sendo assim, a Liberdade individual é área em que o Estado jamais poderá penetrar, nem pelo brilho do ouro, nem pela força das armas, pois se trata de fortaleza intransponível da convicção do homem livre de que ela é o mais precioso dom da natureza inteligente.

As algemas e as grades de uma prisão podem contribuir para a incapacidade de ir e vir, mas não são suficientes para descrever ou explicar o fenómeno da liberdade do indivíduo livre delas.

Enfim, homem livre é aquele com capacidade de agir e de fazer outros agirem.

O anseio de liberdade leva os cidadãos de um país a tomarem das armas em rebelião, cujas ações visam o direito de resistir ao uso ilegítimo do poder.

Tem-se a impressão de que a verdadeira Liberdade, num sentido figurado, não é somente tirar do Homem as "algemas" da vida e dizer-lhe que está totalmente livre doravante.

Parece que para se ser efetivamente livre é preciso que o Homem queira ser livre e esteja liberto das amarras da servidão, seja física, política, religiosa, cultural, ou da consciência, já que a liberdade do indivíduo não se destrói pela coerção, nem a restrição em si mesma torna uma sociedade tolhida de liberdade. Assim, um paciente acometido de neurose de coação pode ser mais livre no asilo do que fora dele, daí a noção de que a liberdade não é mensurável pela severidade ou frouxidão do regulamento, mas sim pelos seus objetivos.

Homem livre é o que quer ser livre, luta por isso e não fica esperando favores de outrem para sobreviver, segundo as regras do convívio social do meio em que está inserido.

Enfim, a Liberdade e o direito de ser livre não podem ser figuras de retórica, mas um estado social no qual o Homem mesmo amordaçado ou distante, permanece fiel ao que ele mais acredita e no pleno juízo de sua consciência, de forma integral, física, moral, cultural e espiritual.

De qualquer forma, qualquer que seja sua definição, a Liberdade não é uma condição simples, pois ela depende da ordem social, das crenças dos homens acerca de si mesmos e de seu lugar no universo. Sobre o extremismo cerceador da liberdade, já foi dito que existem destinos piores do que a morte em países sufocados pelo fanatismo religioso.

Segundo Thomas Hobbes, homem livre é "aquele que não é impedido de fazer o que tem vontade no que se refere às coisas que pode fazer por sua força e capacidade", estando nesse conceito a conjugação da vontade do homem, com a ausência de qualquer constrangimento que o impossibilite de realizar essa vontade.

Para o entendimento do que seja Liberdade, necessário se torna saber em que medida as circunstâncias da ação humana caracterizam efetivamente um constrangimento que impeça o homem de fazer o que tem vontade. Se a ação for restritiva, não é possível a liberdade.

De dois tipos são os constrangimentos a que o homem está sujeito: o constrangimento físico e o constrangimento moral ou psicológico. O constrangimento físico impede o homem de ir e vir. Já o constrangimento moral é passível de superação por um esforço da vontade.

Uma outra concepção de liberdade se traduz pela capacidade de autodeterminação, intrínseca ao homem e que persiste ainda que em condições adversas.

A ideia de liberdade interior corresponde à limitação da liberdade do indivíduo pelo próprio indivíduo. E não depende das circunstâncias, mas só das qualidades morais do indivíduo.

A verdadeira liberdade decorre de um condicionamento da vontade que só poderia se inclinar para o que fosse bom e justo. Daí, a ideia de que a liberdade interior corresponde à limitação da liberdade do indivíduo pelo próprio indivíduo, que se compele a reprimir os impulsos oriundos de desejos que não se coadunem com uma determinada norma de ação, aceita como valor maior em favor daqueles que, estando em conformidade com a moral e a razão, seriam os credenciados como contributos da vontade.

Mas a Liberdade sonhada pode ser como a descrita no artigo final do Os Estatutos do Homem, de Thiago de Mello: "...A partir deste instante a Liberdade será algo vivo e transparente como um fogo ou um rio, ou como a semente do trigo, e a sua morada será sempre o coração do homem".


 

sexta-feira, 12 de julho de 2013

A História da Morte

Dúvidas sobre o momento da morte surgiram no século 18, quando  relatos de pessoas enterradas vivas assustavam a Europa. 
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Em 1740, o anatomista francês Jacques-Bénigne Winslow publicou um artigo levantando dúvidas sobre como comprovar que alguém estava de fato morto. 
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em 1785, o médico britânico William Tossach provou que um homem afogado (e dito morto) poderia ser ressuscitado ao encher seus pulmões de ar.

Nesse período foram inventados os mais bizarros métodos para verificar o óbito. A técnica do médico francês Jean Baptiste Vincent Laborde consistia em puxar a língua do defunto por 3 horas. 

Mais tarde, ele inventaria uma máquina à manivela que executava a tarefa. Para a elite da época, o medo de ser enterrado vivo justificava qualquer esforço. 

Hannah Beswick, que morreu no final do século 18, deixou uma generosa quantia para que seu médico não deixasse que a enterrassem por 100 anos. Todos os dias, ele e duas testemunhas examinavam o corpo embalsamado à procura de sinais de vida. 

Como nada acontecia, o médico transferiu o cadáver para um caixote, que ele abria uma vez por ano. E, quando morreu, passou a missão a outro médico. 
Somente em 1868 o corpo da senhora Beswick foi sepultado.
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Mas a maioria dos médicos da época mantinha-se fiel à antiga técnica de verificação de morte: a putrefação. Na Alemanha, cidades construíam câmaras mortuárias onde os cadáveres eram vigiados e mantidos até começarem a apodrecer. 
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Apenas em 1846 começaram a ser estabelecidos os critérios para determinar o fim da vida. Naquele ano, o francês Eugene Bouchut ganhou um prêmio da Academia de Ciências de Paris pelo “melhor trabalho sobre os sinais da morte e as formas de prevenir sepultamentos prematuros”. 

Sua proposta: observar durante 10 minutos 3 sinais da morte – ausência da respiração, dos batimentos cardíacos e da circulação. 

“Essa ficou conhecida como a tríade de Bouchut e passou a ser adotada pela medicina de um modo geral”, diz Marcos de Almeida, professor de medicina legal e bioética da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). 

Foi assim que o coração ganhou status de órgão principal da vida e sua parada, uma indicação definitiva da morte.
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Mas já no final do século 19 o legista Paul Brouardel verificou que o  coração de pessoas decapitadas continuava a bater por até uma hora. Concluiu, então, que a morte não era uma questão de coração e pulmão, mas de sistema nervoso central. 

Ou seja, é impossível que um indivíduo sobreviva sem cabeça, ainda que seu coração funcione. A observação de dano ao sistema nervoso central foi somada à tríade: se, sob um forte feixe de luz, a pupila estiver dilatada, quer dizer que as funções neurológicas não existem mais. 
É sinal de morte.

Em 1968, um comitê foi formado na Universidade de Harvard para estabelecer critérios mínimos de morte. O grupo determinou que a parada total e irreversível das funções encefálicas equivale à morte total.

A idéia é que existe um ponto a partir do qual a destruição das células do tronco cerebral é de tal ordem que o indivíduo não tem mais como se recuperar. 

Esse momento engloba toda a atividade encefálica, não apenas lesões que deixam uma pessoa em coma ou inconsciente para sempre.

Desde então, o padrão de Harvard vem sendo adotado pela maioria dos países, inclusive o Brasil.

O Longo Caminho da Morte

1) Morte do cérebro
Se o sangue deixar de fluir no cérebro por mais de 4 minutos, os neurônios do córtex param de funcionar e a pessoa deixa de sentir e pensar. Depois, o tronco cerebral entra em pane. Sem ele, cessam os movimentos involuntários do corpo – principalmente a respiração.

2) O coração pára
Com ajuda de um respirador, o coração pode ser mantido batendo e o sangue circulando. E apesar de clinicamente morto, o paciente pode suar e reagir a cortes. Mas se os aparelhos forem retirados, coração e respiração param.

3) As células estancam
O sangue pára de circular e as células deixam de se reproduzir. Cabelo, barba e unhas interrompem o crescimento.

4) O fim dos órgãos
Com o fim da circulação, o sangue começa a coagular nos órgãos e tecidos, deixando-os inviáveis para transplantes. Algumas exceções: as córneas, que podem ser retiradas até 3 horas, e os ossos, que resistem até 6 horas após o fim da respiração.

5) O cadáver
Cerca de 3 horas após a parada cardíaca, o corpo toma o aspecto conhecido como morte. O fim da circulação deixa a pele pálida. O sangue estaciona, produzindo a rigidez cadavérica, que começa no pescoço e termina nos pés. O calor do corpo cai cerca de 1 0C por hora, até ser regulado pela temperatura ambiente.

6) O esqueleto
O corpo começa a se comportar como um objeto físico. A membrana das células não funciona mais e o cadáver começa a perder água. Dezoito horas depois da parada cardíaca, as bactérias começam a decompor o cadáver e iniciam a putrefação. Depois de 8 semanas, resta apenas o esqueleto.

fonte: Casulo Universitario)
Fonte: Re-tecendo a Vida
 
P.S.: Na atualidade, na França, o sepultamento somente ocorrerá depois de dez dia de declarado morto, trata-se de lei federal francesa.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Resultado de um encontro


 
 
 

Capítulo VII 
 
Resultado de um Encontro
 
O banho da mulher tem sido, através da história, o espetáculo mais atrativo e sedutor. Davi enamorou-se perdidamente de Bethsabéa ao vê-la no banho. Suzana, nua, quando se banhava, seduziu dois anciãos. Imrou e lKais, o pai da poesia árabe, deixou sua tribo e seguiu sua prima, depois de vê-la no banho. E Friné ia ser condenada à morte, quando Péricles, o seu notável advogado, pô-la nua, na frente dos seus juízes, recebendo, então, em troca, a concessão de viver. Na Europa, a nudez é coisa muito natural e isso tem dado à arte um grande incremento; porém, no Oriente é impossível. Há, na Síria e no Líbano, escritores e poetas que são pérolas valiosas na coroa da Literatura; músicos que constituem gemas preciosas, que adornam a fronte da pátria. porém, sírios e libaneses, até à época desta narrativa, não contavam, em seu seio, um único pintor notável. Porque a formosura, na arte pictória, consiste na formosura do nu, e, segundo os costumes dos países do Oriente, o nu é inconcebível. A mulher da Europa e da América pode ter os mesmos direitos que o homem, ao passo que a mulher na Ásia suspira por um pouco de ar livre. (Não sei qual das duas é mais digna de compaixão.) As européias se mostram aos homens quase nuas; as orientais velam seu corpo e as maometanas até seu rosto. A moda de exibir os seios e as espáduas, pelo decote do vestido, espalhou-se por todo o mundo, mas não no Oriente. O nu é necessário para embelezar a arte e, por isso, foram mestres os egípcios e os gregos, que puderam inspirar-se no nudismo natural. Contudo, nós, escritores e leitores, podemos entrar onde não entra o vulgo e ver o que está oculto.
* * *
- Maria! – perguntou Joana. – Que tens?... Desde que entramos na água não pronunciaste uma só palavra.- Não sei porque, mas me sinto triste desde que chegamos. - Será, talvez, a recordação do que sucedeu ontem? - Pode ser – respondeu Maria, ocultando-se num mergulho. O banho da fonte era um recinto fechado por três lados, ao passo que o quarto era aberto a partir da altura de um metro do fundo. Não havia, portanto, possibilidade de afogar-se. Enquanto as jovens riam e brincavam na água, Joana levantou a cabeça e viu o advogado sentado à sombra deum salgueiro. Disse  então às suas companheiras:
 
- Parece que é hora de sairmos da água. E ela, antes das outras, começou a secar  seu corpo, para poder vestir-se. Enquanto suas amigas saíam do banho, apressou-se em reunir-se a João Bakal. - Que sugere você que eu diga à senhorita Maria? – perguntou sorridente, pelo prazer de falar com o homem a quem amava. - É muito simples, Joana. Diga-lhe: “João Bakal deseja falar-lhe sobre um assunto muito importante.” Depois venha você com ela.- Não serei demais? – perguntou timidamente Joana. - Não – respondeu João, sorrindo – sua presença é necessária. A jovem voltou ao lugar onde estavam suas companheiras e, aproximando-se de Maria, lhe disse: - Venho diante de ti como mensageira e devo cumprir minha missão. - Que queres dizer, querida Joana – perguntou Maria, admirada. - Quero dizer que o Dr. João Bakal, que se acha sentado a poucos metros daqui, encarregou-me de pedir-te uma entrevista em seu nome, pois necessita falar contigo sobre um assunto de grande importância. Maria enrugou as sobrancelhas e fixou seu olhar em Joana, como se quisesse investigar a verdade ou encontrar a resposta para a sua curiosidade, no coração da moça.- Que deseja de mim esse atrevido?
  – perguntou quase colérica. – Não quero vê-lo! - Perdoa, Maria, porém és muito injusta, chamando-o assim... Não sei o motivo da entrevista; em todo caso, és livre de ir ou não... Porém, posso assegurar-te que o assunto é importante, pois o doutor o disse e ele não pode mentir. - Oh, sim! Suas palavras são infalíveis... - Podes criticar quanto quiseres, mas eu estou convencida da sua lealdade. Maria sorriu e depois perguntou: - Pediu ele uma audiência secreta? - Eu quis que fosse secreta, mas ele não concordou e disse: “Uma vez que vocês são duas amigas, podem presenciar e ouvir nossa conversa”. - Pode ser que tenhas razão, Joana; vamos ver esse senhor. As jovens dirigiram-se para o lugar onde João as esperava. Ao vê-las chegarem, ele levantou-se e, com seriedade e respeito, inclinou-se, dizendo: - Senhoritas, não posso oferecer-lhes  outros assentos senão os da Natureza. Sentemo-nos. Todas se acomodaram como puderam, menos João que, depois de olhar para Maria fixamente, disse, sem tirar os olhos dela:
 
- Deus sabe, senhoritas, que nunca tive a intenção de molestá-la com uma entrevista, principalmente depois do que aconteceu no nosso primeiro encontro. Porém, ontem mesmo teve um outro acontecimento que só a senhorita poderá remediar. Todos nós sabemos que o homem é um joguete nas mãos do destino, e este nunca o deixa em liberdade para realizar o que deseja; todos os seus atos são dirigidos pela Fatalidade, apesar do seu tão apregoa do livre arbítrio. Antes de chegar ao ponto essencial, para o qual solicitei esta entrevista, é necessário começar com um prólogo que poderá parecer-lhe enfadonho, porém é indispensável para chegarmos ao fim. Eu, senhorita, sou um dos que crêem na boa justiça, acompanhada da paixão e da devoção unidas ao anelo.
Isto é raro e o raro é a medida dos poetas; os
homens por isso, se desviam do reto caminho, e a mão da perplexidade começa a perturbar seus desejos, seus costumes e até mesmo sua vontade... Baseado neste princípio, tenho contradito os demais, pois em tudo sou diferente deles, porque não compartilho dos seus sonhos e dos seus ideais. Amo o que os outros detestam e odeio o que os outros apreciam... Creio que a humanidade é uma árvore daninha, porém terrível por sua robustez e força: suas raízes estão plantadas nas profundezas da terra, suas flores são ambição e maldade, e seus frutos desgraças... Alguns reformadores quiseram mudar a natureza dessa árvore, por meio de enxertos, porém foram vencidos por ela: uns morreram lapidados, outros crucificados e o resto em lôbregas prisões. Pois bem, a quem tem essa crença não se pode repreender a “grosseria” de caráter... Intencionalmente frisei a palavra “grosseria” para ter a ocasião de pedir-lhe perdão pelo aborrecimento que lhe causei ontem. Maria havia escutado as palavras de João com arrebatamento. Seu espírito dilatou-se, afastou-se do corpo e seguiu, com as palavras do advogado, às regiões da poesia e da filosofia. Mas quando ouviu João pedir-lhe perdão pelos acontecimentos da véspera, sentiu que seu espírito regressava a seu corpo e, já senhora de si, respondeu: - O que já passou, passado está, doutor... Peço-lhe continuar a exposição. João sorriu e prosseguiu: - Um companheiro de Universidade me dizia que, para ser feliz, o homem deve viver como ermitão no meio da Sociedade, porém como isso é difícil! Mas é a pura verdade. Tenho pensado muito nas desgraças da humanidade e cheguei à conclusão que, para seus males, não há remédio. Porque esse enfermo, muitas vezes secular, crava o punhal no peito de seu médico, mata-o e logo fecha os olhos, dizendo tranquilamente: “Na verdade, era um bom médico.” Assim fizeram os judeus com Jesus: crucificaram-no e depois disseram: “Verdadeiramente era o Filho de Deus...” Os ocidentais nos criticam; entretanto são eles os mais dignos de compaixão, porque chamam de civilização uma miragem no deserto de sua vida, e de progresso, um fantasma que frequentemente lhe aparece à noite. Chamam de civilização as construções elevadas, os templos suntuosos e as largas avenidas, e de progresso, o viajar de avião, a exploração da terra, a construção de canhões e outros aperfeiçoados engenhos bélicos que espalham a morte e a desolação. - Então nega o senhor os proveitos da civilização moderna? – perguntou Maria, admirada com o discurso de João.
- Eu não sei, senhorita, se devemos chamar de civilização a selvageria refinada, porque quando pergunto ao meu íntimo o que é a civilização, ele me repete a pergunta, como se não a entendesse. A vida não consiste em aparências acidentais, mas sim na essência, na substância das coisas. Os homens não são julgados por suas fisionomias, mas sim por seus corações; a religião, por sua vez, não pode ser apreciada pelas suas exterioridades e pelos seus ministros, mas sim pela sua doutrina e pelos seus efeitos, ocultos nas almas. Assim, a arte musical não é um conjunto de notas graves ou agudas, que ouvimos em uma canção; a poesia também não é a sucessão das palavras de uma composição poética, nem tão pouco a pintura uma mistura de cores. Não; a arte não é isto, que é apenas seu corpo, mas sim o espírito que o anima: na música são os intervalos musicais; na poesia, o ritmo e o sentimento oculto na alma do poeta; e na pintura,
 
o ideal sublime que o pincel exprime e matiza, permitindo-nos, assim, ver a sublime formosura do que a tela é apenas um reflexo, mais ou menos fiel. Da mesma forma, a civilização não consiste em acompanhar a moda, em fingir sorrisos hipócritas, em inclinar-se diante de uma mulher até tocar o solo com a fronte e outras frivolidades. A civilização consiste no progresso espiritual e moral, na liberdade, na fraternidade, na igualdade... Talvez me perguntará: “Acaso a moderna civilização não trouxe consigo a liberdade e outros dons celestes?” A uma tal pergunta responderia: a igualdade que equipara o homem aos animais, porque comete seus crimes sob a égide da liberdade. Sessenta séculos atrás, Caim mata Abel e agora, por toda parte e em todos os homens, encontramos o estigmada raça maldita do fratricida. Há quarenta séculos, vimos à mulher da Babilônia obrigada a entregar seu corpo, ainda que fosse uma só vez, a um estranho qualquer; e hoje vemos a parisiense oferecer voluntariamente o seu, para gozo do primeiro que aparecer, a troco de uma moeda de inferior valor. Há trinta séculos, vimos um Faraó atormentar os judeus, e hoje vemos um Faraó em cada capitalista e um judeu em cada trabalhador. Onde está o progresso espiritual?... A civilização nos deu a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Não podemos negá-lo, porque as encontramos em nossa própria degradação e na corrupção das nossas atitudes. É por isso que a mentira não se transformará em verdade, mesmo que seja vestida de seda; e o crime nunca poderá ser virtude, ainda que se lhe corte as unhas. Assim, a diferença entre o homem civilizado do Ocidente e o do Oriente é a mesma que existe entre o leão e o tigre. Seus governantes e os nossos tiranizam o povo, autorizados pelas leis; e o rico do oriente, como o do ocidente, absorve com seu dinheiro o sangue do pobre... O homem é sempre o mesmo em todas as partes do mundo e suas leis são também as mesmas, favorecendo sempre o rico contra o pobre. Devo parecer-lhe, senhorita, um homem louco ou, pelo menos, raro, porque é esta a opinião que formei da humanidade inteira. Porém, que quer, senhorita?... Como diz o adágio: “Deus tem em suas criaturas maravilhosos exemplares”, e eu fiz a promessa, desde que me formei em direito, de unir-me ao fraco, para defendê-lo contra o forte, para restabelecer os direitos dos oprimidos contra o tirano que o escraviza. E nesta luta que declarei à opressão e à injustiça, farei o possível para triunfar; mas se perder, não será por minha culpa... Deus não pede o impossível: cumprirei meu juramento e lutarei contra essa humanidade transviada, até sucumbir no combate da vida... - Faz o senhor muito bem, doutor – respondeu Maria. - Senhorita, não lhe disse tudo isso para obter seu elogio, que, aliás, tenho em grande estima, mas sim porque é necessário para explicar minha atitude no caso que vou referir agora. Ontem, depois de separar-me de vocês, tomei o caminho do povoado. Entrei na casa de Pedro Farrau para visitá-lo e, ao entrar, percebi que o ancião e sua esposa choravam. Compreende a senhorita o que significa o pranto de um velho? Creio que sim, porque as mulheres possuem um coração mais compassivo que o dos homens. Ao vê-los em tal estado de desconsolo, corri a abraçá-los e fiz o possível para confortá-los. Eu os quero muito e dói-me ver sofrer aqueles que embalaram meu berço, quando menino, e satisfizeram os meus desejos de adolescente – e acrescentou emocionado – principalmente a velha Sara, que fez o possível para suprir a falta do amor materno, quando perdi minha mãe... E João fez um movimento brusco, como se quisesse afastar a tristeza que lhe causava aquela tragédia, sucedida nos albores da sua existência. - Não queriam dizer-me a causa do seu pranto – prosseguiu o advogado. Porém, eu lhes exprobrei sua falta de confiança e ameacei retirar-me de sua casa. Então, me obrigaram a ficar, dizendo: “Filho querido, acaso já não é bastante o nosso infortúnio, para entristecê-lo também, com nossa desgraça?” Eu respondi: “Se me consideram como filho, devo partilhar convosco as alegrias e as tristezas”. “Nosso mal não tem remédio – me disse Pedro – mas uma vez que nos obrigas a contar-te nosso infortúnio, satisfaremos o teu desejo: choramos porque somos fracos e não temos quem nos proteja, porque, abusando da nossa fraqueza de velhos, nos querem arrebatar a herança de nossos pais e avós, que eu reguei com meu suor e minhas lágrimas.” “Deixa de falar tanto, tio – disse-lhe eu – e diga-me quem quer espoliar sua herança e sua propriedade?” E ele respondeu: “José Bey Harkuch. ”Cheia  de estupor, Maria, confundida e assombrada, se levantou e aproximou-se de João Bakal. - Meu pai?!! - Seu pai, senhorita. - Meu pai? - Ele mesmo – confirmou o advogado. Maria retrocedeu,  como retrocede a vítima ao ver brilhar na mão do assassino o punhal que ameaça cravar em seu peito. Com lentidão, sentou-se novamente e ocultou seu rosto com as mãos, na atitude de quem chorava ou meditava profundamente. Aproximaram-se dela suas jovens amigas, porém a filha do Bey as afastou com a mão, manifestando, por esse gesto, o desejo de que a deixassem só. João permanecia de pé, em frente de Maria e em seu peito lutavam dois desejos opostos: o de vê-la sofrer e chorar, desolada, e o de acercar-se dela e consolá-la. Vencendo este último, aproximou-se pressuroso, dizendo:
- Senhorita, eu sacrificaria uma parte do meu ser para não vê-la sofrer, quer seja minha amiga ou inimiga. Portanto, não posso vê-la neste estado, sobretudo sabendo que fui eu o causador. - Não doutor, o senhor não é o culpado, mas sim os meus. - Não se aflija assim, não é necessário... Para tudo há remédio. Maria foi recobrando a serenidade, pouco a pouco. Ergueu-se repentinamente e perguntou:- E que fez o senhor, depois? - Neste assunto, o importante é o que eu já lhe disse. O resto não merece ser mencionado. Maria Harkuch voltou-se para suas amigas e pediu: - Peço-lhes deixarem-me a sós com o doutor. Quando as moças se afastaram, voltou-se para João e disse: - Doutor, eu lhe peço que me diga a atitude que tomou neste caso. - Conduzi hoje o velho Farrau perante o tabelião e fi-lo outorgar-me uma procuração com poderes gerais. - E depois? - Depois quis apresentar a denúncia ao Tribunal; porém, antes de entrar no palácio da Justiça, refleti:  “É um crime obter uma coisa por mal, quando se pode obtê-la por bem.” Então voltei para casa, pensando no auxílio que a senhorita me poderia prestar. O coração de mulher é uma fonte de caridade e por isso procurei lançar mão desse remédio. - E não temeu o senhor a cólera de meu pai e dos seus amigos, o Bispo e o Emir? – perguntou Maria. - Senhorita, a melhor resposta para sua pergunta, é o que eu pensava ao regressar a minha casa. - Que pensava o senhor? - Enquanto caminhava, dirigia meu olhar para o céu e clamava: “Aceita minha obra, Deus meu, como o holocausto de Abel, embora tenha que morrer às mãos de Caim!” Aquelas palavras impressionaram Maria como um hálito fúnebre, pressagiando a morte de um ser querido. Depois disse: - Doutor,  sou muito infeliz porque nada poderei obter de meu pai neste particular, pois é impossível convencê-lo de seus erros. Devo, portanto, declarar-lhe, desde já, que a esperança que depositou no meu auxílio terá que se desvanecer. Com todo o prazer daria meu sangue para que meu pai mudasse de idéias e de costume; desejaria até mesmo ser um Deus para impedir seus atos que são contra a justiça... Mas isto não quer dizer, estimado doutor, que eu não tente alguma coisa em favor do velho Farrau. Esta noite farei ver a meu pai a injustiça do seu proceder, embora tenha a certeza de ser derrotada. Porém, é minha obrigação e intentarei tudo para demovê-lo.
- Senhorita – explicou João – considero-a um anjo celeste, seja quem for seu pai, e, antecipadamente, lhe agradeço sua intervenção no caso de Farrau, porque os Evangelhos nos dizem: “Segundo suas intenções serão recompensados.” - Doutor – disse Maria – quer apertar minha mão, depois do sucedido ontem? - Considero-me feliz, senhorita, e mais ainda se me permitir beijá-la, porém... - Fale sem receios, doutor. Que significa esse “porém”? Quererá, talvez, se referir ao adágio: “Beijar a mão e desonrar a barba”?...  - Oh, perdão senhorita! Minha intenção era outra: queria dizer-lhe que não é lícito beijar a mão que pertence a outro... Maria enrugou as sobrancelhas e João julgou que ia sobrevir outra tempestade. Porém, longe de se aborrecer, ela sorriu, perguntando:- A quem pertence minha mão? - Ao Emir Shafik. - Juro-lhe, doutor, que, enquanto eu viver, não lhe pertencerá minha mão. João guardou silêncio, porém sorria.- Que tem, doutor?- Não sei se tenho direito de perguntar mais. - Já que me permite perguntar o que quiser, gostaria de saber quem é o feliz mortal que a pretende? - E o senhor chama de feliz aquele que pretende minha mão? - Quem a pretende propriamente não, porém sim quem a obtiver – corrigiu João, enquanto estreitava, entre seus dedos, a mão delicada de Maria; e logo ajuntou solenemente: - Sim, juro-o! - Se o senhor acha que a felicidade consiste em obter minha mão, pode ficar com ela. Como se fosse tocado por uma poderosa corrente elétrica, João se aprumou de um salto, suas pupilas se dilataram com uma expressão de assombro. - Que disse a senhorita? – perguntou ele, sem dar crédito ao que ouvia. - Não costumo repetir nem trocar minhas palavras. - Senhorita! - Suprima “senhorita”. João começou a depositar sobre a mão de Maria, que tinha entre as suas, uma interminável sucessão de beijos, e ela não opunha a menor resistência às carícias amorosas do advogado. Ao cabo de alguns instantes, perguntou: - E agora, ainda pensa em demandar contra meu pai?
João, admirado, respondeu em tom severo: - Que quer dizer com essa pergunta? - Quero dizer – replicou a filha do Bey – que lhe ofereço o meu amor, com a condição de não acusar meu pai. João contemplou longamente Maria. Seus olhos refletiam a tristeza de viajantes situado na encruzilhada de dois caminhos igualmente desconhecidos e perigosos... Em seguida, ergueu seu olhar e exclamou: - Meu Deus! Que culpa cometi para me castigares desta maneira?  Serei acaso um joguete nas mãos do destino, para que todos abusem de mim? Depois fixou seu olhar em Maria, dizendo-lhe: - Maria Harkuch,  estás muito enganada, acreditando que João Bakal é uma mercadoria como outra qualquer, que se vende ao primeiro que a procure... É verdade que fui um tolo, julgando que a filha de José Bey Harkuch se rebaixasse a amar um camponês desinteressadamente. Porém, graças a Deus, desperto-me a tempo de minha embriaguez. Agora, ouve minhas últimas palavras: não preciso mais de reconciliação!... Amanhã mesmo acusarei teu pai de usurpar
terras alheias! Ao terminar estas palavras, fez uma inclinação a Maria, em sinal de despedida. - Espera! – exclamou ela por sua vez. – Disseste tuas últimas palavras e eu também quero dizer as minhas. E voltando-se para as jovens, chamou-as:- Joana! Josefina! Venham cá! Admirado pelo procedimento da jovem, João dizia para si mesmo: “Que insulto ou ofensa me estará reservando?” No mesmo instante, acudiram as amigas de Maria ao seu chamado e esta lhes disse: - Há um momento indispus-me com este senhor, porque lhe ofereci carinho e minha amizade, em troca do seu silêncio, querendo assim livrá-lo da inimizade de meu pai, do Bispo e do Emir. Ele, porém, não aceitou e respondeu-me com insultos, pagando-me assim o bem com o mal. Por isso... Calou-se a jovem um momento e, aproximando-se de João, tomou-lhe o braço, continuando: - Terás teu castigo... João Bakal. Se tivesses consentido em não demandar contra meu pai, se me tivesse obedecido – e enquanto falava, Maria ocultava um sorriso – eu teria menosprezado e detestado. João escutava estupefato. A filha de José Bey Harkuch continuou:- João, és o maior homem que eu conheci no Líbano. Antes de conhecer-te, eras o alvo ao qual dirigia sempre o meu pensamento. Eras o herói de meus sonhos antes de despertar... Há alguns minutos, quando Joana me disse que querias falar-me, estremeci, como se pressentisse que, naquele minuto, esse sonho da minha vida seria transformado numa formosa realidade... Bendito seja o incidente de ontem, o encontro de hoje e também o casal Farrau, porque são os laços que nos ligam. Dize-lhes, em meu nome, que lhes darei tudo o que herdei de minha mãe... Há pouco me beijavas secretamente a mão; e agora eu retribuo teus beijos publicamente. Diante de Deus e destas duas mulheres, eu te juro que serei tua amiga, tua irmã, se quiseres, até a morte. E sem deixar-lhe tempo para responder, cobriu de beijos o rosto de João, que, submisso e silencioso, se assemelhava a uma criança que se deixava acariciar pela mãe. E quando Maria se cansou de exprimir seu afeto, disse a suas companheiras, abraçando-as:- Podem felicitar-me! Porém, não me invejem! Alegres, elas a abraçaram também, cobrindo-a de beijos. Joana não deixou perceber o pesar que invadiu seu coração, porém em seus olhos tremia uma lágrima.

* * *

Dizem que o amor nasce de uma longa convivência; pode ser verdade, algumas vezes. Porém, a isto não se deve chamar amor, porque é um sentimento obrigatório ou oriundo do hábito. Dois jovens se casam por conveniência: no princípio de sua vida matrimonial se golpeiam até se casarem; e então choram e se lamentam. Porém, como o matrimônio, em muitos países, é uma cadeia dura, que não pode ser limada nem despedaçada, compreendem que é preciso encontrar um pouco de mel para a acidez da vida; e assim começam os seus esforços para suportarem-se mutuamente. Por fim, conseguem e é isso que se chama amor obrigatório ou de conveniência. O verdadeiro amor é o produzido por um olhar e se um olhar não o produzir, não o produzirão tão pouco cem anos de vida em comum. Um poeta árabe construiu a seguinte escala para o amor: Olhar, sorriso, saudação, conversação e encontro. Outro poeta é mais exigente e, para chegar ao verdadeiro amor, propõe maior número de degraus: Seis olhares fazem um sorriso; seis sorrisos uma saudação; seis saudações um beijo e seis beijos com interesse conduzem ao matrimônio. João e Maria olharam-se e seus corações palpitavam sob o influxo de seus olhares. Sorriram, cumprimentaram-se e, finalmente, falaram. “Faça-se!” – disse Deus e o mundo se fez. Uma só palavra incrustou na via Láctea milhões de sóis; no espaço, milhões de mundos; e em cada mundo, milhões de seres. E assim cada coisa em si mesma é um mundo. Uma palavra saída da boca do homem pode conduzir à morte ou à imortalidade. Uma única sílaba pronunciada por um rei conduz seu povo à glória ou à derrota... A ferida produzida pela espada pode ser curada, porém a da palavra não tem cura. A palavra é a essência da divindade na terra. Pode-se derramar sangue, queimar corpos, encadear os pés e as mãos, porém a palavra, uma vez pronunciada, não pode mais ser retomada, porque, como o ar, reina no espaço e ninguém tem poder para aprisioná-la. Jesus foi crucificado, porém suas palavras reinam e reinarão até o fim dos séculos. Sócrates foi envenenado, porém ainda hoje admiramos sua doutrina. Assim, nem os judeus puderam matar Jesus, nem os gregos puderam fazer calar Sócrates, porque suas palavras ficaram e os imortalizaram. Maria pronunciou uma palavra e, com ela, mudou a direção da sua vida e da de João, fazendo-os viajar da novela à história e da sombra à realidade.

* * *

- Nós nos veremos em minha janela – disse Maria a seu namorado. E dirigindo-se às jovens que estavam com ela, disse-lhes: - Vocês são surdo-mudas... Juntos fizeram a viagem de regresso ao povoado e Maria assim falou ao jovem: - É hora de separarmo-nos; aparentemente seremos sempre inimigos. - De quem tens medo? – perguntou ele. - A ninguém temo. Porém, tremo por ti, por minha felicidade. Temo que a víbora morda teu pé e não possas acompanhar-me até o cume da felicidade.

 
Extraído do livro  
Adonai – de Jorge Adoum

terça-feira, 9 de julho de 2013

Costumes Libaneses


 


Capítulo II

 

Costumes Libaneses 

 

Neste capítulo, não censuro nem aprovo. Cabe ao leitor, depois de ler esta narrativa, escrita por um historiador imparcial, julgar e dar parecer. Não Importa a mim qualquer juízo a meu respeito, pois, ao escrever esta obra, não o fiz como propósito de alcançar glória literária, mas tão somente para satisfazer o desejo de relatar uma história de que fui testemunha.

 

Portanto, este capítulo é um segundo prólogo, em que se proteja a sombra dos fatos que virão depois. A vida dos libaneses é uma cópia de existência dos patriarcas que desfilam pela Bíblia. A palavra do pai é uma lei e a vontade do primogênito é sempre respeitada. Com a notícia do nascimento de um varão alegra-se o libanês; porém, quando se trata de uma mulher, toda a família é presa de profunda tristeza. Talvez seja esse fato o reflexo de uma recordação, uma herança, gravada no subconsciente, oriunda dos antigos árabes, que enterravam vivas suas filhas, tão logo seus olhos inocentes se abriam à luz da existência, para evitar que a família e a tribo se manchassem com sua desonra. Contudo, apesar do seu desejo que o ser que se forma no ventre da esposa seja varão, sabe amá-lo também quando é mulher, em virtude do milenário costume de amar esse ser sublime que nos abre as portas da vida. O libanês é inteligente e perspicaz e sua língua o torna apto para aprender outros idiomas, com facilidade e em pouco tempo.

 

Ama a mulher e a considera, senão como sua igual, pelo menos como um ser frágil, que requer sua estima e proteção. Ambos executam os mesmos trabalhos e ambos são generosos. Excetuando as cidades marítimas, que são frequentadas por maior número de viajantes e estrangeiros, no Líbano não há hotéis. Cada casa é um lar para quem não o possui, e esse generoso sentimento de auxílio mútuo encerra o de privação, pois a mãe e seus filhos se privam de qualquer manjar caro, para poderem oferecê-lo a seus hóspedes, que permanecem, assim, vários dias sob o amparo da hospitalidade, sem cuidados ou preocupações pela sua subsistência.

 

 

No Líbano também não existe a mendicância, tendo desaparecido completamente do cenário da vida social esses atores da miséria. Nas ruas das diversas cidades do país, não se contemplam rostos famintos e corpos cobertos de farrapos. A fome e o frio não perturbam a felicidade do país, e se vier um mendigo de fora, um homem de outras regiões, que viva da caridade, será tão bem recebido como qualquer pessoa libanesa. Certa vez perguntaram a Restom Bacha, ex-comissário no Líbano: “Que tal é o Líbano?” Ele respondeu: “Se afastássemos as cabras e o clero seria um paraíso”.

 

 Apesar de o libanês adorar sua liberdade, notamos sempre entre o povo a eterna escravidão: o pobre é escravo do rico; o poderoso está sujeito ao governante e este obedece cegamente ao sacerdote, que se diz o servidor de Deus na terra. Que tédio deveria sentir Deus com tais servidores e escravos, se a Mente Divina pudesse abrigar um tal sentimento! O libanês ordena ou proíbe o matrimônio de seus filhos; o pai escolhe aquela que será a esposa de seu filho e a filha se casa com o eleito da família. Entretanto, apesar de haver muitos casamentos infelizes, é raro que o marido seja infiel à esposa, e muito mais raro ainda é a infidelidade da mulher. Se esta perder sua honra, os castigos que cairão sobre ela poderão culminar com a morte.

 

Se o habitante do Líbano for ofendido, ou mesmo esbofeteado, pode olvidara ofensa e perdoar a bofetada; porém, quando se trata de seu nome e sua honra, nem mesmo o rei escapará à sua ira. Sua religião é a vingança; porém, se chegar a perdoar, perdoa e esquece, sem guardar ressentimento. O libanês possui forte espírito de imitação e se amolda com facilidade às características do mais forte. Cada um se sente capaz de tudo, embora não seja capaz de nada. Por esse convencimento do seu valor, nunca está de acordo com seus semelhantes; sempre estão em luta seus ideais e caracteres, o que fez dizer um escritor: “Os libaneses combinaram estar sempre em desacordo.”

 

 Todo libanês tem algo de poeta, pois a poesia do panorama e do seu gênero de vida se projetam sobre o seu espírito. Com razão dizia o Dr. Filip Hatti: “Diante das cataratas do Niágara, o libanês pensaria como cantá-las em versos, enquanto o americano pensaria como explorá-las”.

Estas são as características dos habitantes deste país, às quais se amoldam os sírios em geral.

 

Extraído do livro Adonai, de Jorge Adoum

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Preceitos de toda hora


 
Preceitos de toda hora

 

Caminhe com firmeza. Quem se acomoda à precipitação tropeça a cada instante.



Examine sempre a você mesmo. Na vigilância constante, educará você os próprios impulsos.



Higienize a própria mente, trabalhando no bem sem desânimo. O cérebro preguiçoso acumula resíduos indesejáveis.



Escute seu irmão sem reproches. A caridade real começa na atenção generosa e amiga.



Aperfeiçoe o seu proceder. Hoje melhorado, é amanhã mais feliz.



Ampare o coração combalido. Ninguém pode prever a saúde próxima do próprio coração.


Faça luz com a sua palavra. Se hoje pode você orientar, é possível que amanhã esteja você rogando conselhos.



Sofra com paciência e serenidade. No braseiro da revolta, ninguém consegue aproveitar a dor.



Melhore o vocabulário. Há palavras que excessivamente repetidas perdem a significação que lhes é própria.



Cultive a simplicidade. Embora não pareça, o Universo é importante conjunto de coisas simples.



Sirva sem descanso. O tédio é o salário de quem vive reclamando o serviço dos outros.



Improvise o bem onde você estiver. A sombra do mal é assim como o detrito que invade tudo, quando a limpeza está ausente.



André Luiz